CONSCIÊNCIA COLETIVA

Tag archive

Família

Daddy Issues e a Necessária Desmistificação do Ídolo

em Comportamento/Opinião por

Quem não lembra do velho clichê tão presente em histórias de mulheres na mídia ocidental das últimas décadas: garota que não consegue ficar com ninguém por muito tempo apresenta daddy issues – aqueles velhos problemas de relacionamento com o pai. E essa cultura bem característica traz junto com ela uma misoginia que não tem tamanho, visto que, por essa percepção, apenas as mulheres possuem esses percalços no relacionamento com aquele que é sua primeira referência masculina no mundo – mas será que isso é mesmo verdade? Continue Lendo

A polêmica sobre o vídeo LGBTQI exibido em escola americana

em Educação/LGBTQI/Opinião por

Recentemente uma polêmica  envolvendo uma escola nos EUA invadiu as redes. Tudo começou quando um professor do oitavo ano, que leciona na Lincoln Junior High School (Indiana), exibiu para sua turma um vídeo onde questões como orientação sexual, expressão de gênero e identidade de gênero eram discutidas. Como esperado (assim como também acontece aqui no Brasil), alguns pais compareceram à escola criticando a atitude do professor e alegando que crianças com 12 anos não deveriam ser “obrigados(as)” a ter contato com “conteúdos” como esse. Continue Lendo

Quando aquela conversa sobre a orientação homossexual do pai não pode mais ser adiada.

em LGBTQI/Opinião por

As palavras têm poder e muitas vezes a ausência delas nos torna prisioneiros por anos, o que sem dúvida significa tempo demais para quem deseja seguir uma vida livre e sem receios de assumir as suas verdadeiras identidades.

Certamente já lemos, ouvimos e discutimos sobre as dificuldades de muitos filhos assumirem para seus pais, principalmente para o pai, que são homossexuais. O medo da rejeição certamente é um dos motivos que aparece nesse cenário. A figura paterna é sem dúvida uma figura importante na construção de nossa formação. Quando a relação pai e filho não é construída de forma segura, isso trará consequências que, no mínimo, afetará o campo da afetividade.

Tenho 32 anos e dois filhos lindos, um casal. A menina tem doze anos e o menino, oito. Após a separação vem aquela fase em que a namorada do pai aparece como uma bruxa que veio para leva-lo para bem longe deles. Sempre fui atento a essas questões e tentava construir as relações da forma mais leve possível. Tudo era novo e era preciso ir com calma. Depois veio o namorado.  Apresentei-o aos meus filhos como um amigo. Estávamos sempre juntos. Fazíamos muitos programas juntos. Minha filha, muito esperta, começou a perguntar para mãe sobre nossa relação… foi juntando os pontos e descobriu que na verdade, éramos namorados. Procurou-me e pediu explicações. Dei-lhe o que queria e precisava. Foi uma conversa bem franca e cheia de amor e afeto, como precisam ser as conversas entre pai e filhos. Sempre tive uma relação com base na verdade com eles. Fui pai com consciência. Meus filhos foram muito desejados.

Depois disso fiquei mais livre, mas não totalmente, ainda havia o silêncio presente no que diz respeito ao meu filho. No início, por achar que ele era ainda muito novo e depois por medo. Sim, por medo da rejeição. Aquele mesmo medo que os filhos sofrem. Pensei muito sobre como seria se ele não aceitasse de bom grado, se me rejeitasse. Como educamos nossos filhos para o respeito à diversidade, essa temática sempre aparecia em algumas discussões vindas da escola ou do coleguinha da rua, e meu filho sempre se posicionava condenando injustiças e afirmando que não havia nada demais num namoro entre pessoas do mesmo sexo. Isso me deixava confiante, mas não a ponto de sentar, olhar no olho dele e dizer que eu namorava um homem e não uma mulher.

Havia um misto de sentimentos em mim. Medo, raiva, culpa… eles brigavam com a minha racionalidade o tempo todo. Minha relação com meu pai não foi nada saudável. Mas de alguma forma essa relação ajudou e fez com que eu me libertasse por completo. Recentemente papai surtou e precisou ser internado num hospital psiquiátrico. Enquanto cuidava dele naquele lugar ouvi ele me chamar com ódio e lucidez de “viado”. Naquele momento eu decidi que precisa ser livre. Livre do que papai pensava, livre do que as outras pessoas, as que amo e as que nem conheço pensam, mas sobretudo do que o meu filho pensaria. Afinal ele ainda é uma criança e ainda teria tempo de desconstruir qualquer sentimento que o deixasse com alguma dúvida ou conflito. Penso ser esse o papel dos pais.

Bem, a conversa com meu filho foi super tranquila. Escolhi o mar como cenário, porque se ele me negasse o seu colo, eu teria o abraço das ondas como acolhida, para me ajudar a seguir firme no propósito de ser um pai amável e uma pessoa livre e feliz. Meu menino me colocou no colo de uma forma tão terna que foi capaz de estancar o sangramento de algumas feridas lá da minha infância. Daquele dia em diante me tornei mais forte, mais corajoso e disse ao meu filho que por mais medo que ele tenha de minha reação, caso tenha algo que ele queira e/ou precise me contar, eu estarei a postos com os braços de pai abertos para abraça-lo e compreendê-lo. Certamente naquele momento dei uma aula prática da disciplina “para que servem os pais”.

Escrever esse texto é uma forma de abraçar a todos os pais que convivem com esses conflitos e essas angústias e dizer que o tempo certo não está presente em uma receita e que o amor de vocês reinará sempre; por mais que possa doer a possibilidade da rejeição, é certo que as possibilidades da acolhida e do abraço estarão sempre ali, presentes.

Família, sou LGBT. Posso pagar minha aceitação com boleto bancário?

em LGBTQI/Opinião por

Tem uma citação da filósofa Hanna Harendt que diz o seguinte: “toda dor pode ser suportada se sobre ela puder ser contada uma história”. Não sei em que livro está esta citação e nem pretendo transformar esse texto num exemplar esquizofrênico dos gêneros acadêmicos. Vou falar das emoções humanas de quem sente que tem que comprar a aceitação de sua família.

Nos últimos meses tenho conversado bastante com a galera corajosa e alegre da comunidade LGBT e tenho escutado muitas angústias e tenho concluído que para manter a esperança e a alegria expressas nos gestos e ações dessas pessoas, que admiro mais a cada dia, é preciso pagar um preço, e para algumas delas, a expressão deve ser entendida no sentido literal. É isso mesmo! Para algumas pessoas não ser expulso(a) de casa e do convívio dos familiares implica em assumir as finanças do lar.

Temos aí um problema muito claro!!! Se você é LGBT e não tem renda, terá uma grande dificuldade de permanecer entre os “seus”. Claro que isso não é uma máxima universal, mas estamos falando de uma porcentagem significativa da população. Sou daqueles que, se um ser humano sofre por qualquer razão defendo que se faz necessário entender e se possível intervir nesse fato pessoal/social. Se nesse momento você está desesperado porque estava pensando em se abrir para os seus parentes, mas ainda não tem sua independência financeira, talvez ainda reste uma esperança: você pode começar pagando com seus dotes domésticos. Afinal, todo mundo sabe como explorar a galerinha que precisa se submeter.

É Obvio que não me refiro aqui às contribuições necessárias de todos(as) da família para que a mesma se sustente em todos os sentidos do termo, mas da condição de que se você teve o descaramento de ser LGBT e não tem recursos, você pode sair de casa. Nossa família não é capaz de te aceitar assim. E aí quando alguém perguntar por aquele filho/a, a resposta pode ser essa: ah, perdeu a cabeça… Mas ele/a é meu/minha filho/a, continuo o/a amando.  Como fazer para entender esse tipo de amor não dou conta de explicar nesse texto sem falar um palavrão. Deixo ao leitor o direito de fazê-lo!

Não sei se já passou pela cabeça dos pais que no coração da pessoa que paga por toda farra além de produzir a casa para receber a namorada daquele filho querido e muitas vezes querido também de quem o faz, há um desejo imenso de poder trazer seu/sua companheiro (a) para um almoço em família ou mesmo um lanche no fim da tarde. Mas isso é pedir demais. Você até pode trazer um amigo/a aqui em casa que a gente se esforça para não ser grosseiro com ele/a, mas apresenta-lo como seu/sua namorada sendo você cum “desviado(a),” já é pedir demais!

A essa altura você já deve ter perguntado por que a pessoa que tem condições de sustentar a casa dos pais e muitas vezes bancar toda a família simplesmente não sai de casa? As respostas são muitas e certamente o silencio é uma delas, mas um caminho possível para a compreensão desse fato (não falo fenômeno porque traria a ideia que pilantragem é uma coisa natural) cada vez mais comum é tentar colocar-se no lugar do outro(a) num exercício rápido de compaixão.

Todos(as) nós sabemos que a relação capitalista também reina na família faz muito tempo, tendo ela o arranjo que tiver. Mas estamos jogando a lupa numa relação doentia ligada a uma questão de identidade que coloca a pessoa numa situação de fragilidade que em muitos casos acaba culminando num sentimento culpa e pode leva-la a um alto nível de depressão e inclusive ao suicídio. Diante desses casos (bem comuns), compete a nós, pessoas que militam pelos direitos humanos e dignidade humana, arregaçar as mangas e dentre outas coisas, fomentar um grande e importante mutirão de solidariedade e escuta. Fazer com que essas pessoas tenham o direito de falar de suas experiências pode leva-las a repensar suas construções afetivas e optar pela liberdade via amor próprio. Família definitivamente, não é lugar de comprar amor, companheirismos e cumplicidades. Essas coisas a gente aprende com quem de verdade gosta da gente e quer nosso bem independente de qualquer coisa!

A esperança também reside no fato que a gente vai aprendendo a ser humano vivendo e experimentando. Para terminar, vou citar um conselho de outro filósofo que também gosto muito, Nietzsche: “torna-te quem tu és”. Talvez tornar-se aquilo que se é seja a conta mais cara a ser paga. Mas a gente pode dividir.

Tchau, família?

em LGBTQI/Opinião por

Viver em família nunca foi algo fácil. Conviver todos os dias com pessoas que possuem personalidades e pontos de vista que podem divergir dos seus nem sempre é fácil e enquanto choques geracionais sempre ocorreram, a atual situação política do Brasil parece intensificar esses conflitos. Desde as eleições de 2013 nos vemos diante de um país que tem se dividido de maneira cada vez mais acentuada. A saída do armário da direita fascista brasileira fez com que aqueles mais à esquerda e as minorias tradicionalmente silenciadas ou postas de lado pelo conservadorismo reagissem na luta desesperada para garantir seu espaço, cada vez mais ameaçado.

E se esse conflito tem separado amigos (a busca constante pelo sempre maior número de amigos da era do Orkut foi substituída pelas frequentes faxinas na lista de amigos do Facebook), o dano à família não tem sido menor. O problema acaba sendo maior para quem defende os valores de esquerda já que a famosa família tradicional brasileira não só está presa ao conservadorismo, com o apoio da mídia, grupos religiosos e outros setores, como parece querer se agarrar a eles com ainda mais força.

É quase impossível ouvir falar de algum grupo de família em que a tentativa de corrigir aquela tia que fala que bandido no Brasil “recebe mais dinheiro que um trabalhador honesto” não resultou num grande drama familiar, ou que a defesa a pessoas LGBT daquele tio machista, homofóbico e transfóbico não virou chacota do mundo que está “ficando chato demais”. E quando por se posicionar contra o golpe não virou motivo para que diversos primos lhe chamassem de “petralha comunista”? Não à toa que as festas de fim de ano e o famigerado encontro com os tios se tornou motivo de piada e temor.

De fato, a convivência familiar vai se tornando cada vez mais difícil e isso acaba sendo um problema ainda maior para pessoas da comunidade LGBT. Se viver em família já é difícil per se, como lidar quando ela ainda vem acompanhada de preconceitos e atitudes hostis sobre quem você é? A questão é que se o modelo de família tradicional parece cada vez mais quebrado, ainda há esperança para as “ovelhas negras”.

Se os gays de antigamente ficavam restritos ao seu círculo social homofóbico, sem muita escapatória, o advento da Internet permitiu que gays, lésbicas, bis, trans e travestis se encontrassem, se unissem e formassem comunidades nas quais podem se apoiar, conversar e encontrar aquela empatia que não se encontra em casa. Além disso, muitos daqueles que possuem as condições necessárias, acabam conseguindo deixar seus lares para se mudarem para ambientes onde são bem recebidos.

Sair da casa dos pais conservadores intolerantes acaba se tornando um sonho e sua realização, um alívio. A verdade é que para muitas pessoas família já deixou de ser um lugar de acolhimento, amor e bem-estar. Para muitos, nunca foi. As pessoas que te criam acabam também se tornando as que mais te oprimem e desrespeitam, as que menos te ouvem e te aceitam como você é. Deixar esse mundo de silenciamento e repressão para trás acaba se tornando um alívio para muitos.

Porém, essas pessoas estão longe de ficarem sem família. Nós já passamos da hora de entender que família não é determinada pelos vínculos sanguíneos que alguém tem com você, mas por laços de amor, confiança e cuidado que cultivamos uns pelos outros. Dessa forma, amigos que são unidos, se amam, se respeitam e cuidam uns dos outros se tornam nossas novas famílias. Se aqueles que te acompanham desde sua infância e cresceram contigo ainda não aprenderam a te aceitar como você é, então talvez seja sim hora de dar aquele “tchau, família”.

Ir para o Topo
Pular para a barra de ferramentas