CONSCIÊNCIA COLETIVA

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Educação

Ocupar é também ressignificar

em Comportamento/Opinião/Política por

Nos últimos dias o movimento de ocupação chegou às universidades e aos institutos federais aqui de Recife, trazendo com ele uma série de debates calorosos nas redes sociais. De um lado da linha imaginária, os ocupantes e toda aquela energia necessária para que as coisas não permaneçam como estão, do outro, uma galera que defende abertamente a permanência das aulas, utilizando bastante frases como: vão trabalhar bando de desocupados(as).

Primeiro, a existência desse projeto (PEC 241, agora PEC 55) não está no campo das suposições, ele existe, no momento está tramitando e deve ser votado pelo senado em breve. Segundo, esse projeto é fundado em uma lógica específica. Ele vai impactar na vida dos(as) trabalhadores(as) e de estudantes por muitos anos. Sendo assim, é preciso conhecê-lo, ler atentamente o que vem sendo publicado sobre ele, analisar sistematicamente as suas regras. Sem essa leitura, qualquer posicionamento perde o sentido e enfraquece o debate.

O que estamos assistindo nos grupos dessas instituições no Facebook, reflete total desconhecimento, não só sobre o projeto de lei, mas sobre o que significam as ocupações. Não fico surpreso com os que se dizem contrários ao levante dos estudantes ocupantes, o que me surpreende mesmo é a violência simbólica presente nos comentários que eles postam sem constrangimento. Diante de um sistema educacional fragmentado, que nos programa para marcar alternativas, para olhar o mundo através do limitado prisma do acerto e do erro, manifestações como o Desocupa UFRPE/UFPE espelham exatamente os limites das formações ofertadas hoje pelos sistemas de ensino.

Será que, enquanto estudantes, não iremos, antes de reproduzir qualquer juízo de valor, fazer uma análise mínima sobre a nossa própria formação? Sobre o que nos diferencia tanto? Sobre o lugar de onde viemos? Percebam que aqui em Recife, os prédios ocupados, em sua maioria, abrigam alunos(as) das ciências sociais/humanas. Isso é sintomático e precisa ser discutido. Esse público constantemente é adjetivado de forma pejorativa, seus agentes são tratados pela própria mídia como vagabundos(as), e é esse o argumento principal utilizado na internet pelos “desocupantes”.

Não quero com isso afirmar que não existem alunos(as) de exatas/saúde envolvidos(as) e atuantes nas ocupações (os Institutos Federais estão aí dando uma aula)  e nem que todo aluno de humanas defende a bandeira contra a PEC 55, mas que, em linhas gerais, principalmente nas Universidades,  isso se revela, é perceptível, inquestionável. Agora não é muito difícil perceber em que barco estamos navegando. Com honestidade, é só olhar para os alunos(as) que dividem a sala de aula com você, se olhar atentamente, vai cair a ficha. Verá que quase todos(as) compartilham do mesmo universo, são oriundos de famílias com as mesmas bases estruturais, no que diz respeito a renda, cor e status social. Se essa leitura não é feita, se você não percebe essas linhas sólidas e excludentes, não vai mesmo compreender o que os movimentos de ocupação simbolizam, está  tudo interligado.

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O sistema perverso e castrador já percebeu que manter essa diagramação binária é importante. Ele cria um exército de gente pouco preocupada com o “humano”, de pessoas incapazes de repensar a própria história, de reconhecer o seu lugar de fala e, consequentemente, de atuar no combate ao que o tempo presente anda impondo. São pessoas que vão apoiar a retirada (sem justificativa) de líderes, que usarão do machismo e do racismo internalizados para legitimar aquilo em que acreditam, que não conseguem compreender a força política de um movimento, do quanto ele pode nos ajudar a entender e alterar o significado das coisas que nos cercam. É importante perceber que quando ocupamos, estamos demarcando território, dizendo que não aceitamos desmandos, que exigimos diálogo. Mesmo que o projeto passe e seja validado, ganhamos, estaremos organizados para desmontar as medidas intransigentes do hoje e do amanhã.

Polarizar o pensamento, não é um fenômeno novo, mas é uma tendência forte nas redes de relacionamento. Não adianta, estamos amarrados(as), é urgente, precisamos de uma tomada de posição. É preciso marcar território, comprar a luta da minha tribo. O que ninguém explica, por esquecimento ou por desejo de controle coletivo, é quem criou as regras desse jogo e quais são as suas possíveis consequências. Será que conseguiremos dialogar e fortalecer essa luta? Será que conseguiremos abandonar essas caixas ideológicas tão perversas?

Não quero dizer que, como defensor das ocupações, estou disposto a compactuar com os valores daqueles que defendem o fim do #OCUPA. Não mesmo, essa ressignificação (o fim desse preconceito todo) é um processo que depende de muitas coisas, mas antes de tudo, de nós mesmos(as). O que pretendo aqui é colocar em discussão os nossos processos de formação, as armadilhas que foram criadas e plantadas nas nossas trajetórias. É possível olhar para elas, abandonar o medo de olhar para o humano, defender um projeto menos danoso, mais democrático, que enxergue a complexidade das coisas e que, antes de tudo, nos faça pelo menos questionar o lugar de privilégio ocupado (injustamente) por muitos de nós. Essa sim é uma desocupação necessária.


Compareça presencialmente nas ocupações e acompanhe os movimentos nas redes sociais.

UFPRE
UFPE
Ocupe Garanhuns
Ocupe IFPE
Ocupe Tudo

Vote contra / PEC 55


Imagens retiradas das páginas dos movimentos no Facebook.

O silêncio da geração TCC

em Comportamento/Educação/Opinião por

A vida acadêmica, mesmo diante da democratização e expansão estrutural dos últimos anos, ainda é um privilégio. Repleta de folclores e de desafios, ser um jovem universitário hoje, no Brasil, é viver uma espécie viagem com destino quase desconhecido. Na bagagem, você vai acumulando uma série de perguntas que não serão respondidas e acaba recebendo de graça milhares de vícios que dificilmente vão desaparecer.

Enquanto as especificidades (reais) de cada área do conhecimento são usadas erroneamente, para justificar o maior investimento em determinados cursos e a deterioração de outros, vamos nos afastando gradativamente das necessidades concretas e urgentes da sociedade, inclusive daquelas que moram ao lado dos muros do próprio campus.

Essa semana um médico corrigiu de forma preconceituosa a fala de um paciente, usando o seu “conhecimento” acadêmico elitista, que supervaloriza a norma culta, para aprofundar ainda mais essas distâncias. O curso de medicina, por exemplo, ainda é um celeiro de brancos e burgueses, formado em grande parte por filhos de empresários, grandes comerciantes, advogados e engenheiros. São jovens que tiram as maiores notas nos vestibulares, que conquistam esse espaço frequentando os cursinhos mais caros da cidade. Perguntas surgem inquietas: qual a visão de mundo desses estudantes? Qual o papel social que eles pensam (se é que pensam) que possuem? Estão eles familiarizados com a realidade da maioria das famílias brasileiras? Com os seus futuros pacientes?


Nas outras áreas essa fissura se repete e se manifesta de outras formas, inclusive nos cursos de Licenciatura. É assustador, mas muitos licenciados não estão interessados em investigar e atuar nas escolas, eles ingressam nos cursos para se projetarem como grandes pesquisadores. É excelente que a pesquisa faça parte da nossa formação, mas perguntas como: para quem estamos pesquisando? Sobre o quê? Olhando para onde? são quase nunca levantadas. Por mais que alguns professores bem-intencionados, de fato, se preocupem com essas questões, são raros os que abrem caminhos visíveis e possíveis para que os alunos possam realmente se sentir inquietos diante do que vem sendo discutido na sala de aula. Na verdade, muitos alunos acabam retirando o tema do seu trabalho de conclusão da bibliografia de alguma disciplina ou acabam se submetendo ao que algum professor já vem pesquisando.

Pesquisar, certamente, não é achar um título apenas e sair criando uma sinfonia de citações. Pesquisar deve significar: mergulhar, diagnosticar, reverter, confirmar, retribuir, propor e antes de tudo transgredir a realidade. O problema é encontrar tempo dentro desses cinco anos para ser perceber como agente ativo dessa jornada. Não existe muita democracia nos espaços acadêmicos, é tudo pré-determinado e imposto. Acabamos nos sentindo pouco protagonistas e passamos rapidamente a seguir os comandos. Não somos vítimas isoladas, isso é certo, mas estamos de fato dentro de um sistema opressor, que ainda é mediado por relações de poder verticais e que silencia os mais fracos (em importância Lattes).

Claro que esse texto não é um retrato determinista da realidade acadêmica, nem é o que pretende ser. Afinal, existe uma teia bastante complexa e rica, que pode nos mostrar dados até bem positivos. Porém, é preciso ficar atento, em alerta, procurando entender essas diferentes realidades. Apesar da diversidade de experiências, muitas práticas estão presentes de forma homogênea e isso, sem dúvida, é um sinal preocupante. O conhecimento construído dentro da sala de aula é o conhecimento que pode contribuir para transformação dessa sociedade tão repleta de doenças. Vamos torcer que daqui para frente esse debate fique ainda maior, que a comunidade científica comece a entender que mais importante do que a nota da monografia e do que a sua vaidade, é a vontade de querer mudar as bases desse sistema que tanto nos sufoca e (contraditoriamente) vem nos libertando.

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