CONSCIÊNCIA COLETIVA

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Documentário

Documentário sobre impeachment de Dilma estará no Festival De Berlim

em Cinema/Fique de olho/Novidades por

O Processo“, de Maria Augusta Ramos, foi selecionado para a mostra Panorama do Festival de Berlim, um dos principais eventos cinematográficos do mundo, que acontece de 15 a 25 de fevereiro de 2018, na Alemanha. A diretora Maria Augusta Ramos estará presente na exibição que acontece dia 21 de fevereiro. O longa retrata o processo que culminou no impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff em 31 de agosto de 2016. Continue Lendo

Sem Pena, um documentário sobre a realidade dentro das penitenciárias brasileiras

em Cinema/Indicações por

A situação carcerária brasileira, e a do sistema judiciário como um todo, não nos oferece nenhuma novidade. Sabemos bem como funciona.  No entanto, muito ainda precisa ser discutido e refletido acerca desta mazela social e sua resolução. O documentário “Sem Pena”, dirigido pelo Eugênio Puppo, que pode ser encontrado facilmente no Youtube, nos leva a outro patamar com relação ao entendimento da realidade dentro das penitenciárias brasileiras e a intenção aqui é apenas apontar alguns tópicos importantes que aparecem no filme e merecem consideração.

O documentário remonta a uma reflexão sobre esse círculo vicioso que é a prisão e a reincidência. O Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) juntamente ao Conselho Nacional de Justiça (CNJ) publicou em 2015 dados alarmantes sobre este tema. A informação era de que 1 em 4 condenados reincidem no crime. Neste sentido, fica claro que o sistema não está sendo efetivo em seus objetivos.

Os relatos corroboram as falhas estruturais, a violência silenciosa, a vulnerabilidade das pessoas (principalmente pobres e negros) e o tratamento dado a eles e seus familiares. Neste cenário, desponta a falta de humanidade que se vê desde o judiciário até o cárcere. Mesmo porque a identificação da noção de justiça está intimamente relacionada à ideia de punição e ao sofrimento do transgressor. O combate à violência com a violência, infelizmente, é algo cultural.

Os casos sem julgamento também são enfatizados. Pessoas são mantidas presas até conseguirem uma chance de falar frente a um juiz. Outras são mantidas na cadeia, pois não tiveram como ter sua progressão de pena aceita em tempo hábil, muitas vezes sendo concedida quando o indivíduo já está prestes a cumprir toda a sentença (negando aquela premissa do Direito em que a única presunção que existe é a de inocência).

A partir da análise do que é apresentado no documentário, o que fica evidente é que o Estado aprisiona, mas não administra. Essa é a chave da questão. O assunto é problemático, mas o que se vê é que a política penal ajuda a corrupção de policiais e juízes, onde cumprir estatísticas é mais importante do que ter uma visão humanitária diante dos casos concretos. Superlotar as cadeias é tido como “reeducar”. E, na prática, já vimos este filme. A cadeia é o que os próprios detentos reproduzem como “escola do crime”, uma faculdade, onde pessoas são amontoadas sem oportunidade de ter um ofício, um emprego, esperança de um julgamento e sentença justa dos seus casos. Nesta esfera, muitos são os inocentes que, por algum erro, são presos e esquecidos, tratados como vagabundos, isolados da sociedade. Obviamente que isto só é aplicado às classes sociais mais baixas, já que a associação entre delinquência e pobreza está bem arraigada no imaginário social. Ideia confirmada na fala do desembargador Paulo Espírito Santo em um julgamento, certa feita, onde afirmou que os pobres não ligam para a prisão, até gostam de lá!

Mas, então, qual o sentido da pena? Há uma grande discussão, e bem complexa, acerca do sistema prisional e que, para muitos, é um sistema falido. Existe uma necessidade grande em punir as pessoas (tema muito debatido por Foucault e seguidores). O filósofo já explicava que a prisão era uma maneira de deixar as pessoas dóceis tirando-lhe o seu bem mais precioso que é a liberdade, exaltando assim, uma das formas de poder do Estado. No entanto, esse modelo de punição vem sendo bem criticado com base na realidade dos presídios, tendo em vista que o Brasil é um dos países que mais prende, mas a criminalidade continua em alta. A prisão acentua o ciclo de violência, afirmam alguns especialistas.

Por fim, o filme tenta contribuir pra um debate posterior mais aprofundado e alerta que não devemos ser agentes passivos diante desses problemas que não são individuais, e sim, da coletividade. Devemos promover uma integração entre os sistemas públicos e a sociedade em busca de melhorias, sob um viés mais humanizado, entendendo que, lamentavelmente, as oportunidades de cidadania não são reconhecidas a todos igualitariamente.

As estatísticas comprovam que somos um dos sistemas carcerários que mais aprisiona, ainda assim não nos sentimos seguros. E muitas vezes a justiça aqui aparece apenas numa fronteira tênue com a vingança, sem meios transformadores e sem novos caminhos que atinjam verdadeiramente as raízes dos nossos problemas. Fica a reflexão!


Site Oficial do Filme


Filme completo no Youtube!

Dica de filme: “How to Survive a Plague”

em Cinema/Indicações por

Lançado em 2012 (você só encontra em torrent mesmo, o filme tá disponível apenas na netflix gringa), esse documentário dirigido por David France recebeu vários prêmios, entre eles o Gotham Independent Film Awards, o  prêmio GLAAD Media Award e um Peabody Award. David, que cobriu de perto a epidemia de HIV que dizimou LGBTQs no mundo, nos apresenta um registro incrível desse momento histórico e dedica o trabalho ao seu parceiro Doug Gould, que faleceu com complicações relacionadas ao vírus da Aids. É um retrato tocante e que nos ajuda a desmistificar algumas antigas verdades. Vale a pena.

Consciência negra e os desafios da efetivação da Igualdade Racial

em Comportamento/Opinião/Séries por

Novembro é um mês marcado por diversas atividades em torno da “Consciência Negra”. Debates acadêmicos, manifestações culturais, valorização da estética negra e a ressignificação de valores são evidenciados durante as atividades que ganham expressividade por todo país.

O combate ao racismo não tem mês ou data comemorativa – aliás, pouco há para comemorar. É um combate diário num país tão desigual. O Brasil tem a cultura negra no seu DNA e ainda se apresenta como uma das nações mais intolerantes e desiguais no planeta. As manifestações de racismo tupiniquim vão desde a negligência do ensino de História da África nas escolas à criminalização das religiões de matrizes africanas, por exemplo.

É uma pauta essencialmente transversal, pois há  racismo nas instituições. Há racismo entre as mulheres, entre a população LGBT, entre as diferentes regiões e etnias do país e entre tudo isso ao mesmo tempo. É uma opressão que atinge a todos socialmente identificados enquanto negros. É uma crueldade sem tamanho que catalisa todo um substrato de vulnerabilidade social.

O documentário “13” disponível na plataforma Netflix traz uma reflexão muito interessante sobre o racismo. Com uma narrativa histórico-política nos EUA, o documentário aborda como o período pós abolição da escravatura continuou sendo danoso para a população negra. Em breves palavras, o controle social exercido contra a população negra ganhou novos ares. Deixou aquele viés retrógrado da privação compulsória da liberdade e do trabalho forçado e deu uma nova roupagem: a da pseudo-liberdade.

Foram notórios neste período de transição os artifícios institucionais criados para que a população negra fosse mantida sob uma eterna vigilância e marginalização. O ponto analisado foi a política carcerária que era casada com a política de combate às drogas. Entre as diversas medidas tomadas, os dados sempre apontavam um crescimento acelerado do encarceramento da população negra (e latina) em decorrência da política de criminalização das drogas.

Trago este exemplo do documentário pois, em que pese as diferenças conjunturais entre Brasil e EUA, podemos notar algumas semelhanças. O racismo é uma opressão estrutural que ganha contornos específicos nas nações, mas atua de forma unitária no sentido de corroer a subjetividade do povo negro (e outras raças/etnias não hegemônicas).

A principal característica em comum é o conteúdo racista da política de combate às drogas em ambos países. Com uma rápida pesquisa no google, percebe-se o quanto a população carcerária em ambos países cresceram proporcionalmente ao enrijecimento do proibicionismo contra as drogas. E todos os dados são unânimes ao apontar a composição majoritária de negros e negras atrás das grades, como também nos mais precarizados postos de trabalho.

Num mês como Novembro, o referido documentário estabelece um debate bastante atual. Nos fazer enxergar enquanto um povo ainda intolerante e racista por essência é um dos maiores desafios iniciais nesta luta . Combater o racismo também é combater as bases estruturais que fundamentam as lutas de classes neste país (e no mundo) que tanto impõem uma agenda de retrocessos de direitos e dignidade.

Percebe-se no Brasil uma cruel tentativa de negar a existência do racismo. É a pior das violências. Negar a identidade negra sob o mito da miscigenação entre os povos fundamenta vários argumentos contrários às políticas afirmativas que visam promover a igualdade racial. O sangue dos jovens negros exterminados nas periferias, dos candomblecistas assassinados por intolerância religiosa, das mulheres negras reificadas enquanto seres humanos permeiam vários discursos higienistas capitaneados pelos ditos “cidadãos de bens” que bradam aos quatro cantos que “não devemos comemorar a consciência negra, mas sim a consciência humana”.

É este mesmo discurso que justifica, como bem narrado no referido documentário, a suposta “potencialidade” do povo negro como criminosos ou pessoas passíveis de encarceramento e extermínio. O racismo não surgiu do nada. Ele representa um projeto de poder. Um projeto de poder que devemos rechaçar sem titubeações, pois liberdade é incompatível com racismo. Assistam o documentário. E respeitem o povo negro – nossas vidas importam.

Mapplethorpe: Look at the Pictures

em Cinema/Indicações por

A HBO só agora liberou no Brasil (foi lançado nos EUA no início do ano) o documentário que retrata a trajetória do fotógrafo Robert Mapplethorpe. Meu primeiro contato com esse nome ocorreu quando eu vi pela primeira vez o livro SEX, lançado pela cantora Madonna em 1992. Escutei da boca de um amigo que aquelas fotos eram “ uma homenagem clara à Mapplethorpe”.

Robert Mapplethorpe
Robert Mapplethorpe

Naquela época eu estava com quase 16 anos e só hoje, especificamente, essa conversa foi retirada do baú de memórias. Ao ver as fotos do livro, uma réplica impressa do livro original (hoje um artigo de luxo entre colecionadores), lembro que fiquei em êxtase. Essa deve ter sido a primeira vez que a fotografia ganhava um novo sentido para mim, um sentido muito próximo ao que a gente chama de “pulsão”. O meu colega, que carregava aquela réplica como uma bíblia, afirmou nada constrangido que havia se masturbado muitas vezes vendo aquelas fotos. Eu perguntei, curioso como sempre fui, quais eram as suas fotos preferidas. Ele selecionou, folheando as páginas com todo cuidado, as imagens mais obscenas, aquelas em que a cantora personifica fantasias sadomasoquistas e as que continham símbolos religiosos.


Questionei:

– Você bate punheta vendo essas fotos? Essa coisa meio violenta com cruz?

– Sim, muito, não é o que tem nas fotos mesmo Rapha, é como a cabeça me coloca dentro delas. Eu queria ser esse, depois queria ser Madonna aqui e nessa foto eu queria apenas ficar no cantinho olhando tudo, acho que sentiria nojo.

Hoje, ao terminar de assistir Mapplethorpe: Look at the Pictures, fiquei pensando nesse dia, lembrando exatamente de como tudo aquilo pareceu absurdo na época; como o contato com aquele universo causou estranhamento. Na medida em que a vida do fotógrafo nova-iorquino vai sendo contada, a partir de fotografias, pequenas filmagens e depoimentos (temos Brooke Shields, Helen/Brice Marden, Fran Lebowitz, Bob Colacello e Debbie Harry, entre outros(as)), vamos percebendo exatamente como figuras como o Robert desempenharam um papel importante no que diz respeito à forma como a sexualidade é encarada hoje.

Debbie Harry por Mapplethorpe
Debbie Harry por Mapplethorpe

Tecnicamente a produção é impecável. Utiliza recursos simples para contar a sua versão dos fatos, seguindo a cronologia dos acontecimentos.  Fenton Bailey e Randy Barbato (de Party Monster), diretores do filme, conseguiram mostrar nos mais de 100 minutos de projeção, que Mapplethorpe e a sua arte são mesmo indissociáveis. Famoso pelo uso de imagens controversas, tendo o fetiche e a pornografia como elementos centrais, seus trabalhos também incluem fotos de flores e da natureza morta.

Interessante perceber que o roteiro, mesmo não aprofundando a discussão, aponta para algumas críticas que foram lançadas ao artista no auge do seu sucesso. O recorte de gênero e de raça, por exemplo, é problematizado na medida em que os ensaios vão sendo expostos. Outro ponto que merece destaque é a personalidade controversa do artista, pouco romantizada pelo roteiro. Sua relação duradoura com a cantora e poetisa norte-americana Patti Smith (foram 22 anos de amizade), é um tema bastante explorado, além de outros casos amorosos marcantes. A relação com a família, os dilemas no que diz respeito à descoberta da sua homossexualidade e a vaidade impregnada nas suas decisões, vão dando o tom da narrativa, que em nenhum momento fica cansativa.

Patti Smith & Robert Mapplethorpe
Patti Smith & Robert Mapplethorpe

 

Capa clássica de Horses, disco de Patti Smith, fotografada pelo Mapplethorpe
Capa clássica de Horses, disco de Patti Smith, fotografada pelo Mapplethorpe

O tema ambição é também fortemente abordado. Nesse momento, entendi melhor as comparações que muitos artigos internacionais ainda fazem do fotógrafo com Madonna. Ambos possuem em alguns aspectos, uma trajetória bastante familiar. Saíram de casa cedo, a vertente religiosa esteve/está bastante presente nas produções e os dois sempre estiveram dispostos a conquistar a fama, independente do preço cobrado. Inclusive, o próprio irmão mais novo do artista, que nos entrega muitas memórias, foi uma de suas vítimas. Mapplethorpe, implacável, manipulador e sedutor, não permitiria uma concorrência tão próxima.

Andy Warhol, por Robert Mapplethorpe
Andy Warhol, por Robert Mapplethorpe

 

Arnold Schwarzenegger, por Robert Mapplethorpe
Arnold Schwarzenegger, por Robert Mapplethorpe

O conservadorismo, que ainda tanto nos assombra, tentou por muitas vezes devorar o trabalho desenvolvido pelo visionário. Religiosos, juízes e uma parcela da população uniram forças na tentativa de boicotar as suas exposições. As fotografias selecionadas pelos diretores são realmente fantásticas. Foi quase impossível não resgatar os sentimentos que emanaram aos 16 anos e reviver aquele incômodo (hoje melhor percebido). Aquela breve conversa, antes mesmo dos conceitos trazidos pela escola/universidade, já me colocava diante de uma visão que entende a arte enquanto possibilidade de experimentação, de contato com os nossos sentimentos mais repulsivos. Por fim, é um documentário bastante curioso, que evoca discussões importantes e pertinentes para o momento atual. Bom filme!

Abaixo temos algumas fotos clássicas do Mapplethorpe

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