CONSCIÊNCIA COLETIVA

[Crítica] Lady Bird: É hora de voar

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Review

Avaliação
9/10
Média
9.0/10

Quando jovens, na tentativa de nos empurrar em direção ao mundo adulto, aparentemente repleto de obrigações e responsabilidades, muitas pessoas minimizam as nossas vivências. “O mundo repleto de problemas e você perdendo tempo com esses dramas pequenos.” Lady Bird, personagem vivida por Saoirse Ronan, intencionalmente nos leva a refletir sobre a necessidade de enxergar e respeitar as pessoas em sua individualidade. Entre o “eu” e o “mundo”, no centro do conflito, temos Greta Gerwig, diretora do filme, com a sua câmera e a missão de nos convencer que é preciso ter sensibilidade e disponibilidade para enxergar grandeza em algumas histórias.

O ponto de partida é simples: uma garota atravessa uma das fases mais conturbadas da juventude: finalizar o ensino regular, batalhar por uma vaga na universidade, lidar com os conflitos familiares e com as descobertas afetivas e sexuais. O que justifica então a recepção calorosa da crítica e o sucesso do filme na temporada de indicações?  Simples, como ótimo filme que é, Lady Bird nos convida a experimentar, com sutileza e cuidado estético, um universo que somos condicionados a rejeitar e esquecer com o passar do tempo, ou seja, ele provoca a nossa memória afetiva, nos colocando diante dos comportamentos “típicos de adolescente” que ainda estão tão vivos em nós.

Marcando sua narrativa com bastante leveza, Greta, aos poucos, nos mostra como construímos os nossos próprios muros e como a vida tem uma geografia mutável. Lady Bird está dentro de muitos ninhos, seu quarto, sua casa, a escola católica que frequenta, sua melhor amiga e principalmente Sacramento, a cidade onde nasceu. Ao tentar fugir dessas moradas, ela descobre que a sua individualidade, foi e está sendo construída com a participação daqueles que tanto nega.

Saoirse Ronan constrói sua Lady Bird com coragem, mostrando que não precisa da aprovação e do amor do público. Seu trabalho é competente ao utilizar a linguagem corporal para mostrar que apesar da sua aparente coragem e dissimulação existe uma pessoa repleta de dúvidas e que possui uma capacidade imensa de amar. Seu lado destemido só encontra dificuldade quando está diante da sua mãe, Marion, interpretada pela sensacional Laurie Metcalf, a melhor atuação do filme.

Lady Bird e Marion

O elenco de apoio é bem aproveitado, seu pai Larry (Tracy Letts ), sua melhor amiga, Julie (Beanie Feldstein ), até mesmo Lucas Hedges (sempre no tom certo) e Timothée Chalamet,  com suas pequenas pontas,  todos conseguem render bons momentos.  Sacramento, capital da Califórnia, é um outro personagem importante para a narrativa. Greta mostra que é possível explorar as paisagens que tanto conhece (Lady Bird é  uma semi-autobiografia, a diretora nasceu em Sacramento) sem parecer puramente nostálgica, ou seja, o ambiente é construído respeitando os dilemas e os anseios das personagens.  Com raras exceções, as tomadas do filme ocorrem geralmente em lugares fechados, casa, quarto, escola, carro, criando uma a ideia permanente de enclausuramento, casulo, e nós, enquanto público, somos obrigatoriamente condicionados a ele (nos últimos minutos do filme essa relação com a paisagem, com o ambiente, é brilhantemente retomada).

A Igreja também possui um papel central (um ótimo momento para a trilha sonora brilhar), não só por ocupar o posto de vigilância que lhe cabe até hoje, mas também por permitir que o público perceba que é possível estabelecer relações de cumplicidade e carinho dentro de ambientes tão tradicionais e castradores como as escolas dirigidas pelas ordens e congregações católicas. Outro elemento importante e que merece destaque é o tratamento cuidadoso da montagem, sempre preocupada em estabelecer as conexões do roteiro de forma inspirada, poética. Quando Lady Bird abraça um amigo que não consegue assumir sua sexualidade para a família, somos rapidamente conduzidos para uma outra cena onde a sua mãe também conversa com um outro personagem que enfrenta dificuldade, Marion imediatamente pergunta: você tem um sistema de apoio? Duas gerações, duas formas diferentes de demonstrar afeto, mas ainda assim momentos complementares.

Saoirse e Greta

Parte do público tem categorizado É Hora de Voar como um filme sobre descobertas, Coming of Age (amadurecimento), mas ele é muito mais um filme sobre dualidade e complementaridade;  percebam que Greta explora bastante a dinâmica que envolve rejeição e amor, são inúmeras as cenas, por exemplo, em que Lady Bird divide a tela, lado a lado com outros personagens, no centro apenas uma pequena linha imaginária que tenciona, rompe e se recompõe. Em certo momento ela está discutindo com a mãe em uma loja de departamento de roupas  sobre a sua não presença no jantar de Ação de Graças e basta o achado de um vestido para que ambas estejam novamente em sintonia.  O filme, por exemplo, abre com uma cena em um quarto de hotel onde Lady Bird e Marion nos apresentam, quadro a quadro, os limites do relacionamento que vivem.

Por fim, é preciso dizer que para muitas pessoas os dilemas abordados parecem banais e refletem questões presentes apenas em uma fase específica da vida. Na verdade, tudo que o filme revela extrapola bastante o debate etário, já que independente da idade, estamos sempre construindo novos ninhos, em total processo de crescimento. O que Greta nos ensina, em menos de duas horas, é que devemos estar atentos aos processos de rejeição e que mesmo viajando sozinhos, por escolha, um bando sempre nos acompanha. Vale a pena conferir .

Trailer Legendado

Raphael é professor, formado em Ciências Econômicas, Letras e atualmente se dedica ao mestrado em Educação. Escreve sobre música, comportamento e cinema. É apaixonado por Twin Peaks, playlists e quase sempre pelos amigos | Para segui-lo no Twitter: @RaphaelAlves

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