CONSCIÊNCIA COLETIVA

Pabllo Vittar, qualidade ou preconceito?

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Para falar de Pabllo Vittar ou de qualquer outra artista que esteja em atividade na música atualmente, é preciso resgatar a distinção entre o que é cultura popular e o que é cultura pop, já que o uso inapropriado desses termos pode nos levar a realizar interpretações equivocadas. Em resumo, a cultura popular pode ser vista como aquela que dialoga com os aspectos mais territoriais, no sentido folclórico, não necessitando necessariamente dos conglomerados midiáticos para se projetar. Já a cultura pop é, por natureza, originária e co-dependente desse mercado. A conta pode parecer fácil, mas não é; percebam que, mesmo dependente do mercado, a cultura pop vem questionando o próprio modelo da qual faz parte, enquanto a cultura popular também mantém, a depender do tipo e do gênero, uma relação muito próxima com a grande indústria.

Essa diferença nos ajuda a entender como nos relacionamos com a produção artística, ou seja, nos permite refletir sobre os critérios que adotamos ao escolher consumir determinado tipo de música.  A popularização dos veículos de massa, a consolidação de uma indústria fonográfica, a massificação do uso de redes sociais e o surgimento das plataformas de streaming são eventos que interferem até hoje não só na oferta, mas também no consumo das produções artísticas; o surgimento da MTV nos 80, por exemplo, redesenhou todo um mercado. Voz, imagem, corpo e eventos biográficos passaram a atuar paralelamente (em conjunto) e se tornaram elementos fundamentais para a construção das propostas estéticas. Reproduzir atos performáticos dentro e fora do palco passou a ser um elemento determinante para que qualquer cantora, cantor ou banda fossem bem recebidos pelo público.  A crítica, evidentemente, não viu com bons olhos todo esse contexto e ainda hoje utiliza critérios bem ortodoxos para apontar aquilo que tem ou não tem qualidade, negando as novas relações que a audiência mantém com seus ídolos.

Dito isso, chegamos em 2017 e aqui estamos acompanhando a ascensão de Pabllo Vittar, drag queen brasileira que vem emplacando hits nas paradas e se tornou em poucos meses um assunto constante nas rodas de conversa. Criada por Phabullo Rodrigues da Silva, ludovicense de 23 anos, Pabllo provoca reações que variam drasticamente entre o amor e o ódio. No Brasil, como sabemos, está permanentemente proibido qualquer tipo de relação saudável e respeitosa, principalmente quando o tema envolve arte e questões de representatividade.

Para entender o que significa uma artista como Pablo transitando na grande mídia, é preciso considerar primeiro que o Brasil ainda precisa amadurecer bastante o seu olhar sobre as questões de gênero/sexualidade (lembrem que Judith Butler foi criticada e violentada em sua mais recente passagem pelo país) e segundo, que nesse caso, é a performance visual, virtual por excelência, que interfere em maior grau na relação que o púbico vai estabelecer com o que for lançado por Pabllo e não apenas a sonoridade das suas músicas ou a sua qualidade vocal.

A relação entre cultura popular e a cultura pop, como foi dito, não é um fenômeno recente, Michael Jackson e Madonna são exemplos emblemáticos, ambos foram fortemente criticados pelo público, ele pelo histórico fora do palco e ela por ser vista como alguém que não possuía o talento necessário para a fama avassaladora que conquistou. Se pararmos para pensar, a narrativa da qualidade sempre foi utilizada para deslegitimar as conquistas femininas. Isso aconteceu com Madonna e acontece com outras artistas até hoje. Michael, só para exemplificar, nunca teve o seu talento questionado, mesmo quando sua vida explodia em escândalos. Em resumo, ele sempre foi o grande músico, o grande compositor, ela sempre foi uma farsa. O que as pessoas não entendiam, ou não estavam dispostas a entender é que, apesar da música fazer parte da performance dos dois, para Madonna ela era um dos elementos que contribuíam para um projeto maior, para a propagação da sua mensagem política, da sua voz enquanto artista dentro de um contexto machista e tradicional. Isso não significa, em nenhum nível, que a sua música não tenha qualidade e que ela não tenha nos presenteado com discos e canções inesquecíveis.

Pabllo Vittar, anos depois, é vítima de um preconceito que tem muito a ver com toda essa história. Mesmo seus dois singles de maior sucesso em 2017, K.O e Corpo Sensual, não fazendo referência direta a questões de gênero e sexualidade, para parte da audiência é impossível viver a experiência sem lembrar que por trás da personagem está Phabullo, rapaz assumidamente gay e que, como muitos dizem, “se veste de mulher”. Muitas dessas pessoas perdem tempo na internet comentando coisas do tipo

Se o sucesso de Pablo vai durar, não sabemos, mas que só ela foi capaz de trazer a tona essa enxurrada de críticos musicais, todos especialistas em canto e voz, ninguém pode negar. Avaliam o trabalho da artista como se estivessem diante de um concerto de música clássica. Não adianta fazer birra, nem mascarar homofobia com esse papo de qualidade. Pablo reflete a cultura popular, é abraçada por parte dela e ainda é uma artista essencialmente pop, a diferença é que, assim como mulher e Madonna são palavras indissociáveis, Pablo e drag também são. Agora claro, se você incontrolavelmente quiser registrar a sua crítica nas redes sociais, usar os dedos para mostrar que entende de “boa música”, faça isso com algum pingo de honestidade…e que tal começar respeitando a essência da personagem, é A Pabllo e não O Pabllo.

Mandando ver, no vício da batida, é assim que segue Pabllo Vittar, desafiando a lógica machista, o ódio gratuito, quebrando barreiras e conquistando o seu próprio público. Sua música é boa? Claro que sim, ela movimenta, diverte, atinge as pessoas e o melhor, apesar da embalagem pop, carrega ritmos bem brasileiros. Sua performance tem qualidade? Muita, seu show tem energia, tem calor e começa muito antes dela pisar no palco. Seu discurso é a própria existência.

Apesar da onda de ódio que ela enfrenta sem temer, o efeito tem sido positivo, não só para a imagem dela, mas para o público em geral. Muitos são os moços héteros que, quando ainda não sabem que se trata de uma drag queen, postam coisas como:

Jovens rapazes aprendendo que o desejo também é uma construção

Hoje, muitas são as festas, pra todos os públicos, pra todas as idades, que tocam K.O, a música tem esse poder, quando você menos espera o corpo suspende o preconceito, a vida vira uma grande festa conduzida por uma drag queen, experimente.

Para ouvir Pabblo Vittar, aperte o play!

Raphael é professor, formado em Ciências Econômicas, Letras e atualmente se dedica ao mestrado em Educação. Escreve sobre música, comportamento e cinema. É apaixonado por Twin Peaks, playlists e quase sempre pelos amigos | Para segui-lo no Twitter: @RaphaelAlves

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