CONSCIÊNCIA COLETIVA

O que achamos de “A Forma da Água”

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Review

Avaliação
9/10
Média
9.0/10

Poesia é algo que nem todo mundo gosta, não é mesmo? Muita gente tem um pouco de problema com a forma da poesia, que não é exatamente linear muitas vezes, e a poesia moderna, inclusive, não tem nem rima muitas vezes. Talvez até mesmo a nossa jornada escolar não nos possibilite desenvolver um apreço maior por esse tipo de obra de arte, já que estamos sempre sendo levados a realizar textos de prosa, com início, meio e fim, que tenham um propósito específico. Pra mim, poesia é algo que sempre transcende a escrita – tem muito da forma como foi escrito, e principalmente dos variados sentimentos que podem sair daquele mínimo texto.

A Forma da Água, lançado esta semana nos cinemas brasileiros, é uma verdadeira poesia em forma cinematográfica. Dirigido, produzido e escrito por Guillermo Del Toro (O Labirinto do Fauno), o filme mistura cenários históricos reais com uma narrativa de natureza fantástica, uma característica que está frequentemente presente nas obras do diretor. O filme conta a história de Elisa Esposito (Sally Hawkings), uma ajudante muda de um centro de pesquisas científicas numa cidade dos Estados Unidos durante a década de 60, durante a Guerra Fria – que, se lembrarmos bem (e isso é importante para a narrativa), trazia os EUA e a Rússia como principais rivais numa briga por quem conquistaria o espaço sideral primeiro.

Elisa

Elisa mora num apartamento acima do Cinema Orpheum, e tem como vizinho – e melhor amigo – o artista gráfico Giles (Richard Jenkins), que mora com seus vários gatos e parece possuiruma queda por homens que não se interessam por ele. Elisa tem como melhor amiga no seu local de trabalho Zelda (Octavia Spencer), uma negra casada com um marido que, pelas suas reclamações, parece não fazer nada da vida direito, mas é um homem bom – e isso já basta pra que ela se contente. A vida de Elisa parece normal, até que Richard Strickland (Michael Shannon), um comandante de uma expedição pela Amazônia, chega ao centro de pesquisas com um ser estranho e superforte, e juntamente ao Dr. Bob Hoffstetler (Michael Stuhlbarg), tenta entender os mecanismos com os quais aquela aberração funciona. E a partir daí que a narrativa toda se desenrola, e traz elementos de suspense, ação, drama e musical de uma forma majestosa – que eu não vou dizer aqui pra não dar tanto spoiler assim.

Então, o filme traz isso tudo mas ainda assim é considerado como poesia? Sim, ao meu ver. A direção de Del Toro é extremamente poética, ao prestar atenção em diversos momentos triviais da rotina de Elisa que voltarão à tona com o desenrolar do filme – é, por exemplo, interessante a forma como ela, desde os primeiros momentos em tela, tem uma aproximação íntima com a água, e isso se torna cada vez mais intenso durante o filme inteiro. A edição das cenas, a fotografia e as atuações do filme o deixam extremamente leve, apesar da temática ser bastante pesada – afinal, estamos falando aqui do que é ser aberração e do que não é.

Largamente inspirado no filme “O Monstro da Lagoa Negra” (de acordo com o próprio Del Toro, em entrevista), o filme funciona quase como uma continuação do mesmo (assistindo ao trailer é possível perceber as semelhanças inclusive físicas do monstro), mas existem também elementos de histórias como “A Bela e a Fera”, que o tornam um romance belíssimo e cheio de nuances. Nuances esses que questionam, mais uma vez, o que é ser aberração dentro de uma sociedade – e essa temática é tratada o tempo inteiro durante o filme.

Elisa e Zelda

Por um lado temos um monstro aquático (literal), que aprende a se comunicar e a mostrar afeto até mesmo depois de realizar atrocidades – e temos aqueles que naquela época (e ainda nos dias de hoje, de certa forma) são considerados aberrações: deficientes, gays, negros, nerds, etc; por outro lado, temos o comandante e o general, homens bons e de caráter, com famílias perfeitas e felizes, como em um comercial de margarina. E vemos a hipocrisia nessas duas generalizações, tão amplamente realizadas dentro da sociedade onde vivíamos e vivemos.

Por ser um filme mais delicado, os vários lados dos personagens são descritos de forma mais leve – e a direção de Del Toro ajuda muito com a utilização da luz (que, pra mim, é um dos principais personagens do filme): para que possa focar naquilo que é importante nas cenas, o diretor escolheu por usar fachos de luz e momentos de claridade e obscuridade para também contar a história, o que faz com que essa leveza seja ainda maior. No entanto, a principal leveza dos personagens vem das atuações: Sally Hawkings está magnífica, assim como o Richard Jenkings: é impressionante observar as várias camadas que ambos trazem apenas com olhares, expressões faciais e linguagem corporal (principalmente a Sally, já que ela não fala durante o filme). Os demais personagens principais, a meu ver, foram mais caricatos, ainda que o Michael Stuhlbarg tenha feito um bom papel com o seu personagem um tanto dúbio – infelizmente, Octavia Spencer repete seu papel de Histórias Cruzadas e Estrelas Além do Tempo, enquanto Shannon faz o que pode com um personagem que parece um pouco restrito em suas convicções.

Outro personagem importantíssimo do filme, e que acredito eu tenha sido proposital, é a trilha sonora: músicas de filmes antigos permeiam o filme inteiro, além de músicas que nos remetem àqueles romances das décadas de 60 e 70, conferindo à obra um caráter ainda mais leve, ainda que fossem cenas um pouco mais pesadas – e é impossível não ver, durante todo o filme, a palavra esperança estampada na tela. É como se, apesar de todas as adversidades, aqueles personagens seguissem tentando, por terem a esperança de que algo bom iria acontecer daquilo tudo – pra mim, essa foi uma das lições que o filme deixou.

Bem, e a história da Guerra Fria? Apesar de estar lá, ela é a menos importante, uma vez que a narrativa do filme não foca nos marcos históricos em quase momento algum – é sempre nas relações interpessoais que esses marcos históricos nos trazem. Assim como em O Labirinto do Fauno, Del Toro traz uma forma bastante bonita como nossos relacionamentos podem ser melhores, seja conosco ou com os outros. Já a poesia, eu só vou deixar aqui o trecho de um poema dito ao final do filme, que segundo o diretor, foi retirado de um livro de poesia islâmica que ele leu há muito tempo:

Unable to perceive the shape of You, I find You all around me.

(Sem poder perceber a Sua forma, eu vejo Você à minha volta.)

Your presence fills my eyes with Your love,

(Sua presence me enche os olhos com Seu amor,)

It humbles my heart, For You are everywhere.

(Acalma meu coração, porque Você está em todo lugar.)

Um belíssimo poema que definitivamente simboliza a beleza desse filme.

Professor de inglês e problematizador 24h por dia, ainda tem um pezinho na insegurança que insiste em lhe rodear. Já foi fã de Xuxa, de Sandy e Júnior e de Britney Spears - hoje se acha muito cult por ser fã de Rachel Bloom. É o que tem pra hoje, né?

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