CONSCIÊNCIA COLETIVA

Strike a pose, Madonna, selfie e o controle da imagem

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Há alguns dias uma foto de Madonna (a cantora, a rainha do pop, a filha do Messias, a santa/puta, the one and only; para os pós-millennials – melhorem – que não a conhecem minimamente) gerou discussão e embaraço nas redes. Seminua (pagando peitinho), não maquiada, com grillz – acessório de brilhantes nos dentes muito usado por rappers – e boca estufada, ela causou novamente. “Eu teria vergonha de aparecer assim para os meus filhos” ou “volte a ser a velha Madonna, madura e artista, que costumava ser”, foram alguns dos comentários, logo abaixo da famigerada selfie, publicada na conta pessoal da própria na rede social Instagram. Não é a primeira vez que Madonna polemiza por lá; por lá, porque no resto dos outros espaços é só o que ela tem feito desde…sempre? Desbravando o território virtual – principalmente o Instagram -, há alguns anos, ela tem se exposto e compartilhado momentos íntimos com a família e amigos. Parece gostar e se divertir muito, e dentro dessa “realidade paralela” tem se descoberto e se encontrado extremamente à vontade. Mas por que os ataques? Por que ela é velha? Por que ela é Madonna? Ou por que ela exagera mesmo e passa dos limites?

Bem, por causa de cada uma dessas coisas. Mas por talvez tudo ser um pouco novo e a construção de como lidar com tanta informação e novidade ainda esteja sendo feita aos poucos, e agora. É fácil pegar uma figura como Madonna e usá-la como alvo para o vômito dos mais profundos preconceitos e impropérios. Muito do que se coloca ali é material reprimido. Mas provavelmente o maior dos “espantos” é não enxergar mais essa fronteira entre o ícone e o humano, e ver esses “semideuses” cada vez mais exalando ideias, opiniões e erros façam as coisas ficarem um pouco embaralhadas.

O lance é que deve cansar ser uma figura pública assim, tão avassaladora, que domina o imaginário, a música e o modus operandi do pop há quase quatro décadas. E é interessante observar que foram praticamente inexistentes as quedas de Madonna ao longo de sua extensa trajetória. Por queda entenda-se passar algum período pessoal da sua vida diante de uma exploração sensacionalista do mesmo por meio de um consumo midiático desenfreado e sedento por desgraças e, quiça, falhas, humanidades. A pressão da fama e do sucesso podem esmagar qualquer um, com sua monstruosa força e demanda; ou se não esmagar, sacudir, desestabilizar ou no mínimo afetar o ser humano que habita aquele invólucro quase etéreo de poder, presença, atitude. Aconteceu com Britney Spears, que perseguida por um maquinário voraz de cobrança acabou por sucumbir e surtar. Também com Christina Aguilera, engordando e sendo presa durante uma difícil fase da sua carreira, com relatórios constantes da sua condição. Não diferente foi o que sofreu Whitney Houston, em um desfecho triste e trágico, mas nada surpreendente, de uma voz abafada por um desespero depressivo que tentou se dissipar em remédios e drogas. Ou seja, só para ficar no nicho das cantoras do pop, os exemplos são muitos, e variados. Mas como liderando todas elas, e mostrando um caminho diverso e resistente, segue Madonna, não tendo sido consumida – publicamente – pelas várias crises que a acometeram durante sua jornada. E nem ela, a maior de todas, poderia segurar uma barra dessas que é ser humana. Não é como se ela não sentisse nada, inclusive cantando sobre em uma música do seu último álbum, Rebel Heart, onde usa a imagem de Joana d’Arc como intocada, para falar sobre possuir sentimentos. “Each time they take a photograph (Cada vez que tiram uma fotografia) / I lose a part I can’t get back  (Eu perco uma parte que não posso ter de volta) / I wanna hide, this is the part where I detach (Eu quero esconder, essa parte onde eu me destaco).

Ela canta sobre sua humanidade de uma forma tão objetiva e direta que soa até didática ao extremo. Mas mais que suas letras, suas postagens no Instagram têm revelado muito da sensibilidade que existe em qualquer um, inclusive, pasmem, nela, aquela que precisou ser forte e resistir para não ser engolida pelo machismo e hipocrisia de uma sociedade errada. Sendo que agora não são eles os perseguidores e fotógrafos ávidos pelo registro de algum deslize. Quem tem o poder é ela – nós? -, no alto da sua potência, com o Iphone em riste, produzindo e aumentando o número de selfies no mundo. É uma viagem egóica levada ao extremo, muito pertinente com a personalidade da leoa idolatrada por nós.

O filósofo, escritor e sociólogo alemão Walter Benjamin investigou brilhantemente a condição da arte diante do avanço tecnológico do século passado. Em um de seus ensaios mais famosos, o aclamado “A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica”, Benjamin aborda o dilema entre tecnologia e produção artística e cultural, e aprofunda a ideia de aura, de como a singularidade de cada obra de arte produzida acaba se perdendo quando excessivamente reproduzida. É um conceito polêmico, e sofre críticas por talvez perpetuar o lugar sagrado da arte como intocada e pertencente a uma classe aristocrática da época, depois sendo abraçada pela burguesia, mas sempre com o mesmo teor exclusivista, segregador. O marco apontado por ele é o da fotografia, e de como a tecnologia que a criou possibilitou a reprodução imagética de objetos, coisas, pessoas, e consequentemente a sua massificação e comercialização. Nesse contexto, guardadas as devidas proporções, é perceptível a “diluição” dessa aura exclusiva de forma cada vez mais acelerada, em um processo constante, com a inovação tecnológica fazendo essa ponte entre o sagrado – eles – e o mundano – nós. Dentro de tudo isso, Madonna não se limitou a ser uma cantora, explorando suas questões por meio de obras e música. Ela sempre foi a sua própria arte, ambulante, a andar, gritar e exalar sensações. Ninguém se reproduziu e se autorreplicou tanto quanto ela. Assim, a ideia é que não só apenas a sua obra foi exaustivamente comercializada, mas a sua própria imagem. Porém, como em um contraponto com a reprodutibilidade das obras analisadas por Benjamin dentro do espectro de seu tempo, onde havia uma ideia de perda da força com a reprodução, no rastro de Madonna se sucede o inverso; quanto mais reproduzida, mais ainda sua aura ilumina e brilha tudo aquilo que alcança.

Nos anos 70, com o auge do rock na Inglaterra e a indústria fonográfica pujante, uma capa de um álbum não era lançada ou colocada “por acaso” para estampar os vinis e divulgar os seus respectivos artistas. David Bowie se fortaleceu como rockstar por meio da mítica do extraterrestre, do mágico, do estranho; as artes de seus discos eram imagens que provocavam sensações, mistérios e viagens. O distanciamento entre o público e seu ídolo era abissal, e essa conexão “diniva” se estabelecia nos shows, nas publicações, revistas, e logo depois, nos anos 80, nos videoclipes. Já há décadas a proliferação midiática e seus instrumentos faziam com que a música, o som, e principalmente a imagem do artista alcançasse audiências até então inimagináveis. Madonna explode no cenário videoclíptico da década oitentista, e com ela vem agregado um status de diva do cinema Hollywoodiano – e Europeu, com Marlene Dietrich servindo de alterego para a cantora -, a perpetuando ainda mais em um idílico lugar, onde acabou por construir o seu trono cravejado de admiração, fanatismo e obsessão – dos fãs, principalmente, mas de alguma forma, em maior ou menos grau, de todos -, e dele continuou a reinar e enxergar além.

No entanto, as origens da señorita e madame Ciccone e o ambiente que a forjou antes do estrelato a constituem como uma working girl, vinda de uma Michigan operária, para em New York, nos inferninhos hypados e nos clubes gays se firmar como a maior figura e ícone da cultura pop. O sangue ítalo-americano, a escola bailarina de dança e seus amigos intelectuais do final dos anos 70 foram elementos que a moldaram. Ou seja, é uma rainha com títulos comprados, que veio de baixo e dominou o mundo por meio da sua presença no palco, das coreografias hipnóticas que deixaram todos em transe e do seu talento em incomodar, sempre. Logo, não é chocante que a humanidade de Madonna esteja pulsante e transbordando com a proximidade de seus sessenta anos. A sua formação foi pavimentada por encontros elétricos, choques amorosos, ligações invejosas, egos maltratados; ou seja, ingredientes super-humanos, todos misturados e cozinhados em um caldeirão borbulhante e inebriante do qual ela aproveitaria para se servir, bebendo de seu caldo, em porções fartas e viciantes.

É uma relação de amor e ódio que muitos alimentam em relação aos seus ídolos – essa palavra parece cada vez mais gasta, impertinente – com toda a proximidade que a tecnologia propicia. Já não somos massacrados e maltratados o suficiente por uma rotina cansada e desinteressante? Não seria este lugar que ocupam os heróis um refúgio possível para nos motivar a sair da mesmice? Quando você abre o seu app e vê uma fila de postagens, entre elas a da sua tia, seu chefe, sua vizinha, e no meio delas Madonna, algo pode ser perdido nisso tudo? Ou algo pode ser celebrado, aproveitado, experenciado?! A segunda deixa parece mais interessante, e finalmente aquela tal de humanidade escondida e ofuscada pelos holofotes, flashes e spotlights a iluminar o caminho de nossos ícones, bem, ela parece ter resvalado por aí, pelos likes, pelos comments e pelos sharings. A aura de um verdadeiro artista não se apaga; nem sua obra, por mais superclicável, supercompartilhada ou superexibida que seja. Parece que toda a mítica, distanciamento e prisão em que viviam caiu, e sem roupa, pela nude, reis e rainhas pelados e expostos fazem a gente repensar coisas, reavaliar atitudes e, principalmente, rever a nós mesmos, nesse grande espelho invertido e cristalino que é a tela do nosso celular.

Todas as divas pop caíram, choraram, levantaram – algumas não, como Whitney ou Amy -, e tiveram momentos pessoais e de fragilidade capitalizados pela indústria do entretenimento. Assim, parece que o momento dela chegou. “Esse momento é meu!”, pode gritar um fã alucinado de Madonna. “Olha ela detonada, feia, esquisita, destorcida”, bradam eles – em CAPSLOCK – por aí. Em algum instante esse grito de socorro ou essa injeção de humanidade, não de botox, viria a acontecer. Madonna by Madonna – ou Madonna ao quadrado, como ficou imortalizada na entrevista épica com a jornalista e apresentadora Marília Gabriela, joia rara de um tempo em que o youtube nem existia -, a questão é: ela está em toda parte, como sempre esteve. Talvez seja a forma que ela encontrou de se sabotar, de torcer a imagem icônica e a carreira impecável que sempre ostentou. Talvez seja a hora de virar as cartas, o jogo, a mesa. Independente do que for, ela está fazendo do seu jeito, da sua maneira, e sem pedir permissões e autorizações. É mais uma vez Madonna no controle, Madonna being Madonna, sendo não apenas uma cantora produzindo arte, mas sim sendo ela própria sua arte, andante e provocante, a atingir todos por onde vá. Pois a aura da obra reproduzível ao extremo – tão violentamente que se transportou para uma efemeridade de segundos em capsulas de snaps e stories que se retroalimentam – pode até se perder ou dissipar, mas o brilho inesgotável do artista não deixa de ofuscar tudo aquilo que alcança. “Bitch, she’s Madonna!”.

Renato é formado em Cinema e Audiovisual pela UFPE. Ama filmes desde sempre e tem um interesse especial por atrizes e divas da música. Idolatra Nicole Kidman e Sofia Coppola, e sabe que a única resposta possível para qualquer dúvida está nas canções de David Bowie | Para segui-lo no Twitter: @tatosoutomaior

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