CONSCIÊNCIA COLETIVA

O que achamos de “The Post: A Guerra Secreta”

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Review

Avaliação
7/10
Média
7.0/10

It feels like home. Realmente é a sensação percebida quando se assiste a um novo filme do diretor Steven Spielberg; é como estar em casa, no lar, revisitando um amigo querido, que se conhece muito bem. Os elementos do cineasta estão todos lá – e a equipe também, como John Williams na música e Janusz Kaminski na direção de fotografia –, e é muito prazeroso compartilhar do seu olhar conciliador, romântico e palatável para com o mundo. São territórios seguros e onde boas histórias podem ser contadas, sem ofender em demasia ninguém, ou gerar conflitos polêmicos. O diretor parece abraçar vários gêneros ou “temas” em sua vasta obra; indo de filmes “família/aventura” como “E.T” e “Indiana Jones”, passando pela ficção científica, em “Contatos Imediatos do 3° Grau” e “Minority Report”, e ainda pelas obras pautadas nas guerras, como “A Lista de Schindler” e “O Resgate do Soldado Ryan”, para chegar até títulos com tramas “explicitamente políticas”, como “Amistad” e “Lincoln”. São várias vertentes, que acabam, no final, por se abrigarem no grande guarda-chuva que é aquilo que parece ter sido criado por ele mesmo; o seu gênero próprio, os “filmes de Spielberg”. E não seria diferente aqui, com seu mais recente trabalho, intitulado “The Post: A Guerra Secreta”.

A trama conta a história real do embate, em 1971, entre a imprensa americana – por meio das publicações The New York Times e The Washington Post – e o presidente Richard Nixon, que tentou barrar as veiculações dos jornais na constante cobertura sobre a falida guerra do Vietnã. Os “Pentagon Papers” continham informações minuciosas e detalhadas sobre a relação dos EUA com várias esferas do poder, e ainda revelavam a ligação direta entre os presidentes e a situação catastrófica da guerra. Mas o olhar de Spielberg pousa mesmo em Katharine Graham, a dona do The Washington Post, e seu delicado lugar em meio ao fogo cruzado de interesses e intrigas. A editora é interpretada por Meryl Streep, e tem o protagonismo da narrativa dividido com Tom Hanks, que vive o editor-chefe do Post na época, Ben Bradlee. Assim, ambos vão participar da maior parte dos debates sobre o lugar do jornalismo e de sua importância em momentos de crise política, mas também como ele pode sobreviver, sendo rentável e independente. São questões observadas até hoje, principalmente até, pela digitalização das mídias e de seus conteúdos.

Meryl Streep em mais uma interpretação indicada ao Oscar

Aliás, é curioso observar o paralelo e semelhança entre a política americana retratada aqui, e o momento atual da era Trump. A força de “The Post” é aumentada, de certa forma, por galvanizar um sentimento muito latente, do agora. No entanto, outras histórias na memória política recente do país revelam que a sua condição de potência hegemônica e global o coloca sempre em posição de vulnerabilidade; e os vazamentos e denúncias aparecem com novas roupagens, rostos e caras. Como o caso do Wikileaks, por exemplo, na gestão Obama, que se aproxima de tantos outros escândalos do passado, mas se concretiza no âmbito contemporâneo das redes sociais, dos compartilhamentos, da era virtual e da internet. Contudo, há um certo contraponto para contextualizar a diferença abissal entre a realidade dos anos 70 e a indústria jornalística atual, que é explorado na forma como Spielberg filma a dinâmica e o processo da notícia na época, e sua câmera apaixonada registra com atenção especial – e fotograficamente bastante bela – o maquinário antigo e pesado de ferro, tinta e engrenagens; as ligações telefônicas arrastadas, a urgência em se fechar a pauta para rodar o jornal, pois ele precisa ainda ser distribuído. É um olhar apaixonado em cima de como a trajetória da coisa era maturada e ofertada.

Katharine Graham e Ben Bradlee

E então temos a redação, e todo o seu caos. Esse tipo de ambiente já foi tão retratado e investigado – para não ir longe, “Spotlight”, vencedor do Oscar de 2016 – em outros filmes que mesmo quando falamos de um novo jornalismo, onde um único computador pode concentrar e delegar funções totais de uma publicação, a familiaridade com um lugar mais “clássico” – em que o som da máquina de escrever, o zumbido dos telefones a tocar e a penca de papéis em cima das mesas compõem o cenário – é imediata, e a fotografia explora bem esses espaços. Tanto quanto a casa de Katharine, onde Streep desenvolve sua personagem em momentos-chave da narrativa. Por falar nela, é bom destacar a sua atuação, que mesmo sufocada por uma ostensiva peruca e pela maquiagem sutil, floresce e faz lembrar de suas outras grandes performances. O elenco ainda é repleto de atrizes maravilhosas, como Sarah Paulson, que faz o que pode com o pouco tempo de cena como a dona de casa e esposa do “herói” Tom Hanks; Carrie Coon e sua jornalista subdesenvolvida, mas responsável por uma passagem crucial da história; e ainda Alison Brie, como a filha de Katharine, aparecendo rapidamente em alguns trechos e personificando a família e o futuro pelo qual se deve lutar e acreditar.

“The Post” é um típico filme de Steven Spielberg; e isso pode ser bom ou ruim. Bom, porque ele é um cineasta que, como quase ninguém, sabe como conduzir uma boa história, e conta tudo de forma afetuosa e “didática”, sem pressa. Ou ruim, pois sua característica conciliadora de ser coloca tudo em uma perspectiva média, em que aprofundamentos maiores não acontecem. É divertido tentar enquadrar este título dentro de sua filmografia geral; e onde ficaria e com quais outras obras compartilharia maiores semelhanças. Com certeza “Munique”, de 2005, ou “Ponte dos Espiões”, de 2015, mas claro que dentro de um espectro menor, até pela natureza da própria história aqui narrada, que não se passa em diversos países ou trata de questões diplomáticas complexas e gerais, tratando-se essencialmente de uma batalha diferente daquela travada no Vietnã, por exemplo. É a guerra que vai gerar os documentos e a “crise institucional” dos órgãos americanos, mas os elementos deste panorama maior são apenas pincelados por Spielberg, que vai atrás de pintar e colorir valores fundamentais, básicos e humanos, como liberdade de expressão, comprometimento e lealdade. Ou seja, muitos dos sentimentos morais que perpassam e permeiam todos os seus projetos.

O sucesso de bilheteria – até agora já arrecadou 45 milhões, apenas nos EUA – parece demonstrar que o status simbólico de sua presença foi aceito pela audiência. O caráter de “teoria da conspiração” que a trama demanda traz muito para a órbita do filme uma sensação de fato repetido, de semelhança com outros acontecimentos e escândalos políticos na história recente. Ainda há um gancho poderoso em seu final, amarrando os desdobramentos narrados aqui com situações futuras e marcantes do imaginário americano, e mundial. Resta saber se “The Post” tem possibilidades de vida longa, e se é o caso de juntar-se aos outros já icônicos títulos de Spielberg, ou se vai ser consumido e esquecido tão rapidamente como as notícias e fakenews da nossa era virtual. Bem, o tempo dirá, mas fica uma pequena impressão de que se trata do segundo caso, e como os exemplares de jornais de papel, que insistem em existir, vai acabar servindo como embrulho para forrar uma filmografia com obras maiores e melhores de um diretor ainda grande e próximo de todos.

Trailer Legendado

Renato é formado em Cinema e Audiovisual pela UFPE. Ama filmes desde sempre e tem um interesse especial por atrizes e divas da música. Idolatra Nicole Kidman e Sofia Coppola, e sabe que a única resposta possível para qualquer dúvida está nas canções de David Bowie | Para segui-lo no Twitter: @tatosoutomaior

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