CONSCIÊNCIA COLETIVA

Onde estão as pessoas interessantes?

em Comportamento/Novidades/Opinião por

Arte de Raphaëlle Martin
http://raphaellemartin.net/

Roubei o tema de uma crônica de Tati Bernardi em que ela constatava que as pessoas interessantes (como ela, como eu e você) estavam trancafiadas em suas casas, entediadas pela mesmice e pelo vazio da vida social sobretudo noturna.Eu gosto da sua queixa, acho que ela cai bem, mas discordo que (sic) quanto mais interessante for a pessoa, menor a chance de vê-la por aí. Acredito que haja mais pessoas interessantes do que se imagina. Nos inferninhos mais charmosos da cidade, nos corredores da firma, da universidade, na praia.

Nos julgamos pessoas sensíveis e bem elaboradas e no entanto a nossa sensibilidade é incapaz de reparar as pessoas à nossa volta. Nós estamos sempre atentos a nós mesmos. O look não pode desmontar ao longo da noite, a coreografia tem ser impecável, o nível alcoólico precisa ser controlado e os olhares e risinhos têm que ser discretos. Se é pra encher a cara, tem que ser aquele porre como se não houvesse amanhã, daqueles que nos levam ao nível mais profundo da abstração.

É como se, diante de uma plateia, estivéssemos eternamente performando alguma coisa bem distante daquilo que realmente somos. E certamente uma pessoa interessante tem alguma falha, comete deslizes, tem defeitos, acerta e erra.

É fácil queixar-se assim, criticar a ausência de pessoas no mercado, dizer que os interessantes estão todos comprometidos e os disponíveis de plantão são previsíveis e desinteressantes, quando evitar o próprio umbigo é uma deliciosa conveniência. Trancafiar-se no quarto debaixo do edredom assistindo seriados pode até ser um baita programa, mas sinceramente, temos sido gentis e elegantes com os que estão ao nosso redor? Ou apenas engraçadinhos e descolados?

Uma pessoa interessante está muito além de alguém que é bom de cama, bom de papo e bom de grana. Como esse (que também é ótimo), há milhares. Você sabe disso. Gente interessante se interessa por coisas banais. Prefere o álcool que socializa, ao invés de abstrair, inventa as próprias coreografias e sinaliza pro outro quando tem interesse. Uma pessoa interessante não está preocupada com o que vão achar dela pelo o que está vestindo, mas pelo mal entendido que pode causar gerado por uma frase mal interpretada.

Gente interessante não tá nem aí pro politicamente correto e despreza manuais práticos de como, quando e onde. Se tiver interesse, vai pra cama no primeiro encontro, se não tiver interesse algum, não fica quarando a pessoa por muito tempo, e do mesmo modo não tem medo de levar pé na bunda. Prefere o olho no olho às mensagens (que não têm nada de instantâneas) e costumam ser claras em seus objetivos.

Gente interessante sabe bem a diferença entre uma cantada e um simples elogio e retribui o agrado com a mesma elegância sem o menor pudor. Riem de si mesmas e expõem suas fragilidades, assim como suas virtudes, sem parecer que estão se autopromovendo.

Uma pessoa interessante retribui sorrisos cordialmente, não nega informações quando sabe, não tem receio de dar opinião ou conviver com o que pensa diferente.

Ela não costuma impor sua presença goela abaixo e talvez por isso o nosso olhar já tão viciado a reparar o óbvio e megalomaníaco não consiga contemplar a sutileza do que é simples, belo e espontâneo.

Por isso, pensando bem, trancafiar-se no quarto debaixo do edredom assistindo seriados pode até ser um baita programa, desde que esse mundinho secreto e seguro não seja pretexto para uma queixa.

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