CONSCIÊNCIA COLETIVA

Machismo ou puritanismo? Uma conversa entre mulheres

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Depois da campanha para barrar o assédio na indústria cinematográfica, promovido pelas atrizes no Globo de Ouro no domingo (07/01), muitas coisas aconteceram em decorrência deste pequeno levante. Uma carta assinada por Catherine Deneuve e outras noventa e nove francesas foi publicada na terça-feira (09/01) no jornal francês Le Monde defendendo a ideia de que os homens devem sim ser livres para flertar como as mulheres e que a onda de denúncias no ramo do entretenimento se trata de um novo “puritanismo”.

Só o fato delas defenderem práticas de assédio, antes naturalizadas como paquera, já é bem problemático, mas a polêmica não para por aí. Sim, o patriarcado fala através de mulheres também e essa carta assinada é a prova. Catherine emitiu um comunicado no ultimo domingo (14/01) no jornal “Liberacion”, pedindo desculpas ás vítimas de assédio sexual: “Cumprimento de modo fraterno todas as vítimas de atos odiosos que possam ter se sentido agredidas por este texto publicado no “Le Monde”. É a elas, e apenas a elas, que apresento minhas desculpas”.

A liberdade deve ser de todas as mulheres, sem distinções. Mesmo que voltando atrás em suas palavras, Catherine não deixa de ter em seus privilégios de mulher branca, rica, heterossexual colocados em questão, afinal, sua condição cria uma espécie de bolha que, mesmo longe da cruel realidade em que vivemos, não está imune ao machismo e aos abusos sofridos por mulheres (os casos de assédio em Hollywood são prova disso). Mulheres são vítimas de violência todos os dias, morrem todos os dias em diversos países do mundo, incluindo aqui as senhoras ricas francesas.

Catherine e as noventa e nove mulheres que assinaram o documento talvez não consigam enxergar a gravidade do problema porque estão longe das periferias, das ruas, dos guetos, das áreas de conflito, nos ônibus e metrôs lotados. Mulheres pobres, negras, homossexuais são as mais atingidas pelo assédio e violência diária, por serem sistematicamente negligenciadas e marginalizadas dentro de uma sociedade que não lhes oferece o poder da fala.

Em trechos da carta publicada pelas 100 francesas aparecem argumentos como, “Os homens têm sido punidos sumariamente, forçados a sair de seus empregos, quando tudo o que eles fizeram foi tocar o joelho de alguém ou tentar roubar um beijo”, ou “Estupro é crime, mas tentar seduzir alguém, mesmo de forma insistente ou desajeitada, não é – tampouco o cavalheirismo é uma agressão machista”. Essas falas são bastante problemáticas, já que os jogos de sedução hoje, em qualquer lugar do mundo, estão fortemente baseados na dominação predatória e no poder machista. Reivindicar a permanência desse tipo de prática é anular boa parte do debate histórico que vem emancipando e libertando mulheres no mundo todo, uma atitude no mínimo irresponsável.

Mulheres são vítimas de violência todos os dias, morrem todos os dias em diversos países do mundo, incluindo aqui as senhoras ricas francesas.

Em seu novo comunicado, além de pedir desculpas, disse se preocupar com o “perigo na limpeza nas artes”. Segundo ela estamos em uma época em que simples denúncias de redes sociais geram demissões, punições e linchamentos pela mídia. Sob um ponto de vista leigo, por não ser uma autoridade no assunto, mas como uma usuária da rede e mulher, acho importante ser levado em consideração que o advindo da internet foi um ponto positivo na divulgação de agressores e casos de violência, de qualquer natureza. Encaro a rede como uma ferramenta a nosso favor, um fator a mais para a união de todas as mulheres. Mas Catherine acerta em dizer que a solução para o fim do assédio sexual “virá da educação de nossos meninos e meninas”.

Aqui no Brasil, logo depois da carta das 100 francesas, a jornalista Danuza Leão publica um texto onde profere diversos erros e equívocos, o principal deles foi dizer que “toda mulher deveria ser assediada pelo menos três vezes por semana para ser feliz”, desconhecendo os limites entre assédio e paquera e, com isso naturalizando a violência contra a mulher, o que já é negligenciado e silenciado pelo poder público e mídias. Além de tudo Danuza considerou a premiação como um “grande funeral”, pelo fato de as atrizes estarem todas de preto. Ela só não se atentou ao fato de que a intensão da manifestação foi a de realmente parecer um funeral, no caixão estavam as práticas machistas naturalizadas e o abuso do poder.

Portanto, não saber diferenciar assédio de paquera parece bem problemático, é preciso educar nesse sentido, permitir que mulheres no mundo todo possam ter contato com esse debate. Falar sobre abuso e denunciar tais práticas são atitudes que permitem a quebra de um silêncio que está preso na garganta de muitas mulheres até hoje, mulheres que são forçadas a manter as aparências por necessidade e medo dos algozes que muitas vezes são seus chefes, familiares ou homens que exercem algum tipo de poder hierárquico sobre suas vítimas. Deixo aqui o discurso da apresentadora americana Oprah Winfrey, com palavras tão necessárias nessa nossa luta diária que é ser mulher:

Arte de capa, Magoz

Natalia é professora de formação. Escreve sobre política e comportamento. É apaixonada por literatura, arte e educação | Para segui-la no Instagran: @nataliasouzarb

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