CONSCIÊNCIA COLETIVA

O que achamos: The Square – A arte da discórdia

em Cinema/Novidades/O que achamos por

Em 2013, fiz intercâmbio de um ano em Toronto no Canadá. A minha escolha levou em consideração o fato de o país ser conhecido por ter uma grande abertura cultural e um imenso respeito por todos os grupos sociais. O canadense tem como contrato social o multiculturalismo, por necessidades econômicas, que o faz ser visto de forma um pouco caricata pelo excesso de educação, polidez, cuidado nas palavras e por opiniões politicamente corretas. Não nego admiração pela maneira como o país conseguiu se organizar socialmente de forma a promover o respeito aos mais diversos indivíduos das mais variadas identidades culturais. Esse excessivo cuidado em soar respeitoso, entretanto, as vezes criava situações inusitadas e até constrangedoras.

Um exemplo clássico foi a ceia de Thanksgiving, o feriado de Ação de Graças de tradição norte-americana, em que estive naquele ano. Um dos participantes da celebração, ao fazer o discurso de agradecimento, foi direto: “gostaria de agradecer por ter nascido em um país de alto IDH e que promove o respeito a todos os grupos sociais minoritários”. Naquele momento, troquei olhares com um amigo brasileiro, quase segurando o riso. Não apenas pela contradição, afinal, ainda que bem menos desigual que o Brasil, Toronto é uma metrópole que tem um considerável número de mendigos flanando pelas ruas, mas principalmente pela vaidade ética e moral que esse participante em questão demonstrava. Esse episódio – e alguns outros na minha experiência canadense – ficou martelando na minha cabeça durante toda a sessão de “The Square – A Arte da Discórdia”, filme sueco vencedor da Palma de Ouro em 2017 no Festival de Cannes. Talvez pelas semelhanças entre Canadá e Suécia no alto nível de IDH, na educação e no medo de ofender os socialmente diferentes.

“The Square – A Arte da Discórdia” acompanha Christian (Claes Bang), um curador de arte de Estocolmo, em sua vontade de montar uma nova instalação no museu em que trabalha. O diretor sueco Ruben Ostlund nos apresenta um simpático protagonista que vai se envolvendo nas mais diversas trapalhadas na frustrada tentativa de apresentar a obra ao público. Nos eventos que vai se envolvendo, porém, Christian vai sendo confrontado pela trama justamente em sua vaidade ética e moral. E não parece que Ostlund escolheu a arte contemporânea como alvo em si, mas apenas por ser um ambiente em que curadores, artistas e jornalistas são facilmente pegos em suas vaidades. “The Square” não quer ridiculizar o mundo das artes, mas quer provocar aqueles personagens que se julgam superiores e tentam esconder sua inerente condição humana. Os episódios que provocam o riso na audiência são variados e vão desde Christian se aventurando em um bairro periférico de Estocolmo até a constrangedora cena em que discute com a Anne, repórter interpretada por Elizabeth Moss, sobre um preservativo cheio de sêmen após os dois terem relações sexuais. Ruben Ostlund soa querer envolver seus personagens em situações em que a polidez e a educação são substituídas pelo instinto humano ou animal. Isso pode ser percebido no macaco na casa da Anne em oposição a performance artística do “homem macaco” no jantar de gala do museu.

O cineasta espanhol Pedro Almodóvar, presidente do júri no Festival de Cannes em 2017, chegou a celebrar a Palma de Ouro de “The Square” dizendo que existia uma “ditadura do politicamente correto” e que o filme sueco zombava disso de uma forma leve. A afirmação de Almodóvar parece equivocada se for colocar em comparação “The Square” e “Força Maior” (2014) – obra anterior de Ostlund. Em “Força Maior”, não é o mundo das artes que é palco de ironia e de demonstração de uma farsa ética e moral, mas uma típica família sueca durante um desastre natural: enquanto estão de férias esquiando, pai, mãe e dois filhos presenciam uma avalanche em um restaurante. O pai corre para se proteger, deixando o resto dos familiares. A partir dai os personagens começam a entrar em conflito. Mais uma vez, Ruben Ostlund escolhe uma instituição consagrada, à primeira vista, para questioná-los. A mãe inclusive fica transtornada ao conhecer outra mulher que é casada, tem filhos, mas tem um relacionamento aberto e uma vida estável. Ela não consegue conceber como sua vida familiar e monogâmica, por si só, não são motivos de toda sua estabilidade. Sua vaidade moral e ética está em ter construído “uma família normativa”, que é questionada quando o pai corre durante a avalanche. O pai, por outro lado, em crise, chega a pedir perdão por ter agido por instinto. O cineasta Ostlund não tem como objetivo de crítica em “Força Maior” aquilo que Almodóvar chamou de “ditadura do politicamente correto”, mas a farsa dessas pessoas em negar seus instintos.

No caso do Canadá, o cineasta Denys Arcand fez duas comédias brilhantes sobre um grupo de acadêmicos de esquerda, moradores de Montreal em Quebec, que riem das contradições da experiência humana: “O Declínio do Império Americano” (1986) e “As Invasões Bárbaras” (2003). No caso de Arcand, assim como no de Ostlund, os personagens são vaidosos, com a diferença, no caso canadense, de existir a consciência das limitações morais e éticas que todos possuem. Na obra de Ruben Ostlund, as adversidades é que vão constrangendo seus presunçosos personagens suecos. “The Square”, nesse sentido, é uma incrível provocação, inclusive nesses tempos em que qualquer um pode ser pego em suas contradições éticas e morais e ser exposto na internet. Essas vaidades, tentativas frustradas de soar sempre correto, vão sempre estar em confronto com instintos, medos, reações imediatas e impensadas. E não há nível educacional ou país com IDH alto que possa tirar essas contradições do ser humano.

Confira o trailer legendado:

Leandro é jornalista por formação e estudante de Cinema e Audiovisual pela UFPE. É cinéfilo desde a infância e tem interesse por debates sobre identidades culturais. É fã de música new wave e sintetizadores em geral, novelas de Gilberto Braga e acredita que Madonna é a única messias possível | Para segui-lo no Twitter: @leandro_gantois

Último post de Cinema

Ir para o Topo
Pular para a barra de ferramentas