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O que achamos de “Me Chame Pelo Seu Nome”

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*** Contém Spoilers

“Me Chame Pelo Seu Nome”(Call Me By Your Name, 2017) poderia ser descrito como um cinema pós-gay? Mas o que seria cinema pós-gay? O romancista americano Bret Easton Ellis, autor de “Abaixo de Zero” (1987) e “Psicopata Americano” (1991), em artigo publicado na Revista Out, classificou “Me Chame Pelo Seu Nome” como um filme pós-gay por não ter como tema central a saída do armário, a epidemia de Aids, o bullying, a homofobia, a luta por direitos civis, a culpa, a tragédia ou o sofrimento. Questões que foram sendo debatidas pelo cinema ao retratar a homossexualidade. O cinema pós-gay, então, teria uma menor preocupação com a ratificação de identidades e em educar o público. As relações gays seriam mais livres para serem mostradas sem parecer um didático manifesto. Para alguns críticos, o cinema pós-gay estaria apontando para um momento em que a homossexualidade passaria a ser retratada sem as amarras de provar a sua naturalidade. Mas será que “Me Chame Pelo Seu Nome” pode ser encaixado nesse conceito?

O filme, dirigido pelo cineasta italiano Luca Guadagnino, acompanha as descobertas sexuais de Elio, um adolescente de 17 anos, ao conhecer Oliver, um estudante universitário americano, que veio passar o verão no norte da Itália a convite do pai de Elio. A simplicidade da trama vai aos poucos demonstrando o interesse do roteirista, o veterano cineasta James Ivory, em desenvolver a complexidade das personalidades de Elio e Oliver. Ao adaptar o livro de André Aciman, Guadagnino e Ivory, ao invés de explorarem o conflito que aqueles dois jovens judeus poderiam ter, preferem focar no amadurecimento sexual de Elio – diante da aparente falta de maturidade emocional – e nas tentativas frustradas de Oliver em não expor fraquezas. Passado em 1983, o romance dos protagonistas parece surgir em um respiro entre a liberdade sexual da década de 60 e o surgimento da histeria da Aids na metade final dos anos 80, além de experienciar um ambiente de naturalidade com que todos no filme parecem lidar com o desejo homossexual, especialmente os pais de Elio.

Aos poucos, a audiência vai sendo apresentada a Elio e Oliver. Elio tem uma doçura perversa que lembra as protagonistas femininas de Nelson Rodrigues, enquanto Oliver aparece na pista de dança – usando short curtinho, meias slouch e tênis All Star – dando pinta ao som de “Lady, Lady, Lady” da trilha sonora de “Flashdance” (1983). Elio tem a ansiedade e a pressa da descoberta, de experimentar, de conhecer “as coisas que realmente importam”, com diz o personagem; Oliver deseja passar a imagem de prudência. Elio tem o tédio como companhia e tenta se alienar do mundo com obras de arte; Oliver tem a pesquisa a terminar. Elio tem a inexperiência, que o faz ser ambíguo e egoísta com a jovem Marzia e até com o próprio Oliver. Elio e Oliver, embora não queiram demonstrar afeto em público, também não fazem esforços para esconder. Elio e Oliver dividem o quarto na ensolarada Itália e juntam as camas de solteiro como se de casal fossem. Elio se masturba com o pêssego, Oliver come o fruto em seguida. Elio. Elio. Elio.

Elio e Oliver preferem não compartilhar o envolvimento sexual que possuem com mais ninguém, nem mesmo com os pais de Elio, que desde o início demonstram perceber a atração existente entre os dois. Mr. Perlman, o pai de Elio, interpretado pelo Michael Stuhlbarg, entretanto, revela a Elio, na brilhante performance de Timothée Chalamet, saber de seu romance com Oliver e vai adiante: diz invejar o filho por nunca ter tido uma relação parecida com aquela. O diálogo é interpretado como o filho gay sendo aceito pelo pai. O rapper americano Frank Ocean, que é assumidamente gay e se declarou como fã do filme, inclusive afirmou que Mr. Perlman é o pai que todo mundo gostaria de ter. Mas a cena parece muito mais demonstrar certa nostalgia do pai pela juventude do que uma típica cena de saída do armário. O pai é que parece ter a coragem de assumir a Elio que nunca conseguiu ter algo daquela forma. Elio, inquieto, parece estar mais pensando em Oliver do que nas palavras do pai.

“Me Chame Pelo Seu Nome”, embora seja dirigido por Luca Guadagnino, parece ter sinais da autoria do roteirista James Ivory em seus trabalhos como cineasta. Inclusive nos temas: desde Lucy Honeychurch, a jovem britânica entediada que toca piano e se apaixona em sua viagem para Itália em “Uma Janela Para o Amor” (1985) até a mansão como personagem e elemento de construção da memória de “Vestígios do Dia” (1993). Além, é claro, do culto à beleza masculina e à homossexulidade em “Maurice” (1987). Ivory, por sinal, reclamou da ausência de nudez frontal masculina, presente em seus filmes como na homoerótica cena do lago em “Uma Janela Para o Amor”, como indicava o seu roteiro em “Me Chame Pelo Seu Nome”. O diretor Luca Guadagnino afirmou ter filmado os corpos de Timothée Chalamet e Armie Hammer, Elio e Oliver respectivamente, sem puritanismo, mas que entendia a vontade de James Ivory.

É inclusive curioso colocar em análise a representação do desejo homossexual em “Me Chame Pelo Seu Nome” (2017) e “Maurice”(1987), filmes separados por três décadas, mas que parecem refletir, se comparados, certo avanço nas liberdades individuais de gays. “Maurice”, mesmo se passando na segunda década do século XX, parece representar o contexto da metade final da década de 80: o avanço do conservadorismo e o uso de LGBTQs como bodes expiatórios para a epidemia de Aids. James Ivory em “Maurice” cultua a beleza do homem e a homossexualidade, mas deixa claro a patrulha com os corpos e o medo existente, inclusive, entre amantes com a possibilidade de um tirar o outro do armário. “Me Chame Pelo Seu Nome”, por outro lado, adota um tom mais leve – mesmo retratando os anos 80 – e a certa despreocupação de Elio em ser visto como gay parece dialogar mais com um jovem da segunda década do século XXI, que ainda precisa lidar com a homofobia, mas que consegue expressar sua sexualidade.

“Me Chame Pelo Seu Nome” vem conquistando a crítica e o público justamente por essa suposta leveza com que fala sobre homossexualidade. O cineasta espanhol Pedro Almodóvar o elegeu como melhor filme de 2017, já o diretor canadense Xavier Dolan escreveu que Elio e Oliver nos faz lembrar das nossas mancadas amorosas de quando tínhamos vinte anos. Elio e Oliver são ambíguos, complexos e difíceis de encaixar em um modelo de sexualidade identitária. Há até mesmo certa fluidez de como lidam com seus desejos. Talvez seja até mesmo impossível declarar que é uma obra pós-gay. Mas certamente é uma película que o espectador fica tentando desvendar. Desvendar cada camada daquilo que Elio e Oliver tentam dizer em cena. E é por isso que é um filme tão encantador e difícil de esquecer. I Remember Everything.

Trailer Legendado

Leandro é jornalista por formação e estudante de Cinema e Audiovisual pela UFPE. É cinéfilo desde a infância e tem interesse por debates sobre identidades culturais. É fã de música new wave e sintetizadores em geral, novelas de Gilberto Braga e acredita que Madonna é a única messias possível | Para segui-lo no Twitter: @leandro_gantois

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