CONSCIÊNCIA COLETIVA

Bicha sim! Quinze anos sem Jorge Lafond

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Quando eu era criança, Jorge Lafond era uma das figuras mais intrigantes que habitavam meu imaginário.  Toda quinta-feira – ou qual será que era mesmo o dia em que “A Praça é nossa” passava naquela época? – ele entrava na sala de minha casa com sua personagem mais icônica, a afrontosa Vera Verão, que trabalhada no make, no salto e em vestidos esfuziantes, entoava bordões de impacto muito antes de qualquer meme da Gretchen, entre eles o seu famoso “Bicha, não!”.

Eu assistia o programa com minha família, e Vera me divertia demais – naquela época, nem “bicha” eu sabia bem o que era ser. Não estava só, claro. Lafond e seu personagem foram, talvez, algumas das primeiras referências LGBT de uma geração que, sem importar sua orientação sexual, hoje está chegando aos 30; junto com Clodovil, Roberta Close e outras personalidades, JL despertava curiosidade sobre vidas que tinham vozes ainda mais reduzidas do que hoje. Apesar da curiosidade do povo, logo notei que ninguém queria ser comparado com nenhum deles. E por que não?

Vida de criança viada é começar a ouvir cedo algumas provocações, mesmo sem entender porque. Foram muitos apelidos dados por colegas de turma para mim nos meus primeiros anos de escola e as chances de você, ex-bicha-mirim-agora-versão-2.0., ter sido chamada de Vera Verão pelos seus coleguinhas são muito grandes. Comigo aconteceu. Jorge e sua drag confundiram minha cabeça, mesmo que não por culpa deles, e sim pela voz dos intolerantes. Estranho que alguém tão único podia representar algo tão ruim na opinião dos outros.  A gente se espanta com isso e com a intolerância agora também, mas crescidos, sabemos como funciona a mente desses tipos e seus argumentos.

O motivo, hoje óbvio, é que Lafond representava tudo de fora da curva que mais incomodava (incomoda?) o cidadão babaca: uma gay imensa, afeminadíssima, negra, flertando, falando alto sem vergonha e não deixando barato com qualquer pessoa que quisesse tirar uma com sua cara – ou seja, transgressor pra caralho, ainda que provavelmente podado por um programa de humor que sempre foi quadrado. Elementos esses vistos como desmoralizantes separadamente, e que juntos, formavam um combo de chacota ainda maior. Vera Verão era alguém legal pra nos fazer rir, mas de quem podíamos rir também, numa linha tênue e um bocado triste.

Vera como madrinha de bateria da São Lucas

E naquela época, a gente achava que Jorge era só Vera. Mas sempre foi muito mais: além de humorista, enveredou em outros papéis – até Madame Satã ele chegou a interpretar em novela da extinta TV Manchete -, outras emissoras, foi dançarino e publicou livro de memórias. Era uma figura rara e segura de si numa época em que uma drag queen cantora estaria ainda longe de ganhar prêmio de Música do Ano em um programa dominical.  Provocou em cena e fora dela, colocando-se como uma figura firme mesmo que intimamente a coisa não fosse sempre assim.

Lafond representava tudo de fora da curva que mais incomodava (incomoda?) o cidadão babaca: uma gay imensa, afeminadíssima, negra, flertando, falando alto sem vergonha.

Eventualmente, aliás, até o mais forte se curva: como declarou publicamente, Jorge guardava mágoa (com razão) de certos boicotes que sofreu por simplesmente ser quem era, inclusive do famoso caso envolvendo o Padre Marcelo Rossi, que teria se recusado a dividir o palco com o artista em uma uma edição do Domingo Legal com Gugu. Segundo fontes, Lafond nunca engoliu bem o que aconteceu, caindo numa depressão severa e posteriores problemas de saúde que resultaram em janeiro de 2003. Uma perda alardeada na época – de alguém cuja passagem por nós precisa ser lembrada ainda mais, por muitos motivos.

Quinze anos após sua morte e já não sendo mais a criança que eu era antes, Jorge Lafond me parece muito menos cheio de mistérios. Sua figura foi necessária no passado por motivos supracitados aqui, mas continua relevante. É dificil falar disso sem cair no clichê de que devemos lembrar de quem abriu caminho para nos mostrarmos como somos hoje, mas ainda se faz necessário quando, em alguns momentos, a mesma geração que um dia teve Jorge como primeira referência LGBT o coloca com seus “irmãos de época” num papel kitsch, de memória afetiva do passado, sendo que suas vozes nunca foram caladas com pedras gigantes lançadas em sua direção – e continuam falando demais pra nós hoje em dia.

Se temos uma linhagem de artistas que se expressa como bem entende e nos dá esperança de continuar enveredando por lugares antes tido proibidos, é necessário olhar para trás e notar como o peito de outros estavam expostos bem antes, e com muito menos a favor deles. Jorge Lafond é pioneiro numa época de possibilidades mais difíceis, e sua cara estampa a liberdade que a gente busca até os dias de hoje, para poder ser tudo o que a gente deseja sem ser visto como inferior ou… uma mera figura que desperta riso.

Hoje eu entendo o que é ser bicha, e o “bicha não” de Vera é uma das coisas que nos fazem dizer “bicha sim!” tanto tempo depois e com  muito orgulho.

Renato, 27, é formado em Jornalismo e atua como educador. Ama música, livros, games, joga como Symmetra no Overwatch, acredita que um pouco de nonsense sempre torna a vida melhor e até hoje não realizou seu sonho de montar num touro mecânico e imitar Madonna na Drowned World Tour.

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