CONSCIÊNCIA COLETIVA

Precisamos falar abertamente sobre pornografia

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Durante a Segunda Guerra Mundial, a pornografia, até então propagada em larga escala na escrita, foi aos poucos sendo substituída por representações cada vez mais explícitas. O advento da fotografia e da imagem em movimento, aos poucos, foi conduzindo o imaginário da sociedade em direção a um tipo de provocação sexual que não tinha como principal objetivo a promoção ou manutenção de laços artísticos.

O conteúdo, antes chamado de erótico, já era visto na cultura ocidental na Grécia Antiga, traduzido posteriormente nos chamados cultos dionisíacos, rituais onde a sexualidade estava fortemente presente. Baco, a representação de Dionísio na cultura romana, era o Deus do vinho, do prazer e suas festas, onde muitas orgias aconteciam, deram origem ao significado da palavra bacanal como conhecemos hoje.

Peter Paul Rubens (1577-1640) Bacchanal, s.d. Pushkin Museum, Moscou.

A palavra “pornografia” vem do grego “porné”, que significa prostituta (boa parte das obras consideradas pornográficas trazia prostitutas como protagonistas). Muitos estudiosos apontam os escritos do poeta e dramaturgo italiano Pietro Aretino como o marco da popularização do pornográfico; seus Sonetos luxuriosos são conhecidos não só por difundir o pornô, mas também por diagramar os temas e a representação categórica desse tipo de conteúdo nos séculos seguintes. Curioso é perceber como uma parte do conteúdo oriundo da literatura e tido como pornográfico, com o tempo, foi ganhando o status de clássico, arte, enquanto as outras plataformas desenhavam e assumiam um tipo de produção mais marginalizada.

Pietro Aretino, por Tiziano

Por muito tempo o acesso à pornografia era relativamente restrito, apesar de conhecida, existia uma censura que empurrava os consumidores para práticas clandestinas de acesso. Tendo vivido a adolescência e o início da juventude em meados da década de 90, presenciei parte desse movimento. As revistas e fitas VHS eram populares, mas ainda assim difíceis de serem compradas. Locadoras e bancas de revistas burlavam a regra social e forneciam em total alerta o material que por muitos anos alimentou as minhas fantasias e as de toda uma geração.

Com a chegada em larga escala dos computadores, esse mercado (como quase todos os outros) viveu um forte período de transformação. O acesso aos poucos foi se tornando ilimitado e a censura moral cada vez mais impossível de se estabelecer. Evidente que ainda existe muito incômodo no que diz respeito a essa temática, mas a verdade é que a pornografia é hoje um elemento central na cultura de massa e impacta fortemente na nossa forma de lidar com o sexo. Não é à toa que nas sessões de terapia, muitos pacientes rapidamente descobrem que o pornográfico ainda exerce total influência nas relações afetivas que, com dificuldade, estabelecem.

Estando o Brasil e vários outros países do mundo enfrentando hoje uma onda enorme de conservadorismo, falar sobre esse tema abertamente e de forma crítica tem se tornado cada vez mais difícil, mas a verdade é que o mercado pornográfico continua em total aquecimento e possui, como quase nenhum outro, uma capacidade de reinvenção fora de controle.  De “Garganta profunda”, filme de 1972 dirigido por Gerard Damiano e estrelado por Linda Lovelace, por exemplo, que levou o sexo explícito às salas de cinema no mundo todo, até a atual febre das sexcams, esse mercado vem faturando por ano na média dos bilhões, sem considerar aqui o material amador não regulamentado.

Cartaz Oficial de Garganta Profunda

O tema pornografia é pouquíssimo discutido dentro dos núcleos familiares, e quando surge, é com um sinal de alerta, descontextualizado e embalado com discursos punitivos. A escola, por diversos fatores, também não dialoga abertamente sobre sexo, na maioria das vezes aponta, com bastante timidez, para práticas preventivas. Esse quadro pode passar a impressão de que nada está sendo feito e que a banalização já atingiu níveis exorbitantes, mas a verdade é que precisamos falar sobre pornografia. Enquanto fingimos que ela é algo secundário, dois problemas graves estão ocorrendo paralelamente.

A imagem abaixo foi publicada na última semana do ano pela página Anti Pornografia e revela algo muito sintomático: boa parte do conteúdo pornográfico acessado pelos internautas e disponibilizado pelos milhares de sites onde vídeos podem ser hospedados é violento, misógino, machista, abusivo, incestuoso e pedófilo. Palavras como adolescentes, novinhas, estupro e filha encabeçam a lista das mais procuradas. Nos vídeos não faltam comentários insinuando abusos e o interesse pelo sexo com menores. Todo esse material está disponível e pode ser acessado por pessoas de qualquer idade. Em que medida o contato com abordagens tão violentas e ilegais afeta, interfere e influencia nas práticas sexuais das pessoas? Essa é uma pergunta que precisa ser exercitada, refletir sobre ela é fundamental, afinal, independente do contexto e da faixa etária, todas as pessoas estabelecem em algum momento da vida um contato com a pornografia, mesmo que ele dure um curto espaço de tempo.

Tendências de busca no Brasil / Xvideos

Para escrever esse pequeno artigo, fiz algumas pesquisas e detectei rapidamente uma atenção especial da comunidade religiosa sobre o tema. Inseri nos sites de busca combinações de palavras como: pornografia impactos e fiquei impressionado com a quantidade de sites evangélicos e católicos tratando do tema. Até um livro digital, chamado Pornografia: Realidade, Perigos e Libertação encontrei; um caderno bíblico da Igreja Presbiteriana, onde estão elencadas de forma bem didática as passagens bíblicas que condenam a publicidade dos corpos e só autorizam o sexo e o prazer dentro do casamento; quando vai conceituar o que é pornografia, a publicação diz:

A pornografia […] visa o excitamento sexual através da exibição de imagens explícitas de sexo, nudez e órgãos sexuais sem fazer qualquer distinção moral ou levar em conta adultério, prostituição, lesbianismo, além de formas pervertidas de relações sexuais.

A visão cristã do pornográfico, como esperado, é extremamente problemática, já que aborda o tema dentro da lógica preconceituosa e castradora que infelizmente permeia os grandes cultos no Brasil. Ela responsabiliza consumidor, sem discutir questões históricas e psicológicas; paradoxalmente e sem surpresa, articula seu discurso para blindar os pastores:

 Alguns pastores podem cair nesta armadilha satânica simplesmente por curiosidade em saber o que membros da sua igreja estão consumindo na Internet e acabam sendo atraídos e enlaçados pelo poder da pornografia.

O alcance desse tipo de publicação é imenso, no próprio livro (que pode ser acessado gratuitamente aqui) estão apontados mais de 15 sites onde esse tipo de discussão pode ser encontrada. Em resumo, parte da comunidade cristã, aquela que sustenta impérios panfletando sobre pecado e medo, é organizada e atinge com esse discurso reducionista um grande número de pessoas.

Como visto, a questão da pornografia é complexa, o debate não pode ficar restrito apenas às igrejas, é preciso considerar as questões mercadológicas, de segurança, de saúde e principalmente as relações de poder presentes; respeitando também os profissionais que vivem e defendem essa indústria. Falar sobre o tratamento do sexo na cultura de massa é um dever de todos, independente se você consome ou não esse tipo de conteúdo. Todas as pessoas podem e certamente vão acessar sites de sexo explícito. Na verdade, agora mesmo milhões de pessoas no mundo estão fazendo isso, inclusive seus filhos, companheiros e colegas de trabalho. Estupro e pedofilia precisam ser combatidos em todos os contextos, dialogar sobre pornografia em casa, discutir abertamente com os amigos são atitudes que podem nos ajudar a exigir coletivamente uma fiscalização efetiva e a construção de uma política (incluo a educacional) mais madura, ativa e responsável.

Fotos de Capa : Thomas Rowlandson (13 de Julho de 1756 – 21 Abril de 1827), artista e cartunista inglês.
Foto de Compartilhamento: Reclining Couple with Bonzai Tree, Girl Twittering

Raphael é professor, formado em Ciências Econômicas, Letras e atualmente se dedica ao mestrado em Educação. Escreve sobre música, comportamento e cinema. É apaixonado por Twin Peaks, playlists e quase sempre pelos amigos | Para segui-lo no Twitter: @RaphaelAlves

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