Descubra-se gamer

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Não queria dizer que esse texto é exclusivamente pra quem (ainda) não é gamer. Se estás lendo e já conheces a maravilha que são os jogos, copia o link e manda para aquela pessoa que tá precisando de um pouco mais de magia na vida. Mas bem. Qual o primeiro filme que você assistiu? Não é bem isso que quero perguntar. Qual foi a primeira vez que você viu um filme e sentiu uma inquietude dentro de você? Que você não conseguiu pensar em outra coisa logo depois de ter assistido? Que você precisava comentar com alguém ou meditar profundamente enquanto pensava sobre tudo que você absorveu durante aquelas duas horas da sua vida.

Minhas lembranças da primeira vez que joguei são inexistentes. Lembro que meu primo tinha um SNES (Super Nintendo), mas não lembro de ter jogado nele. Minha lembrança mais antiga é de 2001: no meu aniversário de 4 anos, meus pais me presentearam com um PlayStation 1, junto com dois jogos: Scooby Doo and The Cyber Chase e Yu-Gi-Oh: Forbbiden Memories. Saí correndo pra ligar na TV e liguei o console, me deparando pela primeira vez com a icônica tela de início.

Essa musiquinha ainda me dá alguns calafrios (quando um disco estava arranhado ou com alguma falha, a tela travava e essa música era a última coisa que você ouvia antes de ter que reiniciar o console).

Com 4 anos, meu conhecimento da língua inglesa era zero, portanto meu entendimento do que estava acontecendo era puramente imagético. Yu-Gi-Oh! e Scooby Doo tinham desenhos matinais que passavam diariamente, portanto eu já tinha uma base de quem eram os personagens e as regras básicas do jogo (no caso de Yu-Gi-Oh!). Mas é difícil explicar o que senti enquanto jogava Scooby Doo. Eu estava controlando aquele personagem que eu via todos os dias na TV.

Alguns anos depois, em 2013, The Last of Us foi lançado. Eu não sabia nada sobre o jogo quando o comprei. Ainda não tinha muito envolvimento com a crítica online, metacritic e afins. Comecei jogando dublado, mas logo recomecei com o áudio original. (Direção de dublagem, google, pesquisar.) Logo nos primeiros vinte minutos de jogo, chorei copiosamente. E isso se repetiu durante as próximas 15 horas. A conexão emocional que eu tive com o jogo foi algo que eu experimentei poucas vezes em outras mídias. Era comum, até então, em jogos dessa escala (os chamados AAA, análogos aos blockbusters do cinema), que a narrativa fosse preterida em relação à jogabilidade. Focando em seus dois protagonistas e na evolução de sua relação, todos os outros elementos do jogo foram construídos ao redor disso. O jogo foi um dos mais vendidos do PlayStation 3, louvado pela crítica dos games e tornou-se uma das referências na indústria, se juntando ao hall de jogos “cinemáticos”.

Imagina o seu filme preferido. Ou a sua série de TV, seu livro, seu álbum musical, seu quadrinho. Agora imagina que você pode participar ativamente dessa história. Talvez você nem precise imaginar, várias mídias já foram adaptadas para os jogos. (E alguns são até bons, pasmem!) O impacto que você sentiu quando descobriu que o Darth Vader era pai do Chewbacca (SPOILER ALERT) não poderia ter sido ainda mais impactante se você estivesse em um papel ativo naquela narrativa?

A interatividade é, na minha opinião, o futuro da narrativa. Digo mais, o futuro da arte. Talvez precisemos agradecer (ou amaldiçoar?) a internet por isso. Eu vejo os jogos como o futuro do cinema, embora esse processo deva ocorrer aos poucos. Filmes em realidade virtual, filmes com escolhas do espectador (alô, netflix), as possibilidades são inúmeras. Alguns jogos, inclusive, já se utilizam dessa mesclagem de linguagens. Para citar um exemplo recente, Her Story (2015, de Sam Barlow), é um filme interativo. Nele, o jogador assiste vídeos de uma entrevista policial em um caso de assassinato e seu objetivo é solucionar o caso através dos depoimentos nos vídeos. Bjork, em Biophilia (2011), lançou um aplicativo para smartphones e tablets onde você poderia interagir com a música e participar ativamente da experiência audiovisual do álbum.

Sinto informar, porém, que jogos são um entretenimento caro. Principalmente se você quiser jogar os jogos mais novos nos consoles mais novos. É possível, entretanto, encontrar os consoles mais antigos por preços modestos e desbloqueios para acesso mais amplo à biblioteca de jogos nos consoles. (Que fique claro que não apoio a pirataria e estou apenas relatando o fato de consoles desbloqueados não serem difíceis de achar. Ah, e emuladores.) Entretanto, existe um universo lindo dentro da indústria dos jogos: os jogos gratuitos.

Confesso que a maioria de jogos gratuitos que eu gosto são jogos de horror japoneses, com gráficos bidimensionais. Mas garanto que são ótimas experiências, e também ótimos pontos de partida. A maioria deles envolve a resolução de quebra-cabeças para avançar na narrativa. Todos são para computadores e não precisam de máquinas potentes para funcionar. (Todos esses jogos tratam de temas sombrios e perturbadores. Cautela.)

Ib (2012, kouri )

Conta a história de Ib, uma garota que durante uma visita à uma exposição de arte se perde dos seus pais e acaba entrando em uma das pinturas, ficando presa no mundo bizarro do artista. O jogo pode ser encontrado aqui (com legendas em PT-BR!). Acabei descobrindo esse site, que tem uma INFINIDADE de jogos nesse estilo, criados no RPG Maker, um software de criação de jogos que remete a alguns jogos dos anos 90.

Mad Father (2012, Sen/Miscreant’s Room)

É sobre Aya, uma garota que vive seu pai e sua madrasta em um castelo isolado. Todo ano ela visita o tumulo de sua mãe; seu pai é um cientista muito reservado. O jogo pode ser encontrado aqui.

Ao Oni (2008, noprops)

É um jogo sobre um grupo de amigos que visita uma mansão abandonada, supostamente assombrada. Acho que já dá pra entender o que vai acontecer. O jogo pode ser encontrado aqui.

The Crooked Man (2013, Uri )

Conta a história de David que durante um período turbulento em sua vida pessoal e familiar se muda para um apartamento, onde encontra evidências que o seu antigo morador, que desapareceu, tem uma estranha conexão com ele. O jogo pode ser encontrado aqui.

Esses jogos são só a pontinha do iceberg. Muitos jogos gratuitos não são narrativos ou exploram sua narrativa fora da jogatina: League of Legends, Dota 2, Magic: The Gathering, Hearthstone, Clash of Clans, Candy Crush, as opções são diversas. Seja como um passatempo ou entretenimento, o universo dos jogos é vasto e está esperando por mais pessoas para explorá-lo. Descubra-se gamer você também.

Victor Leite é estudante de Cinema&Audiovisual na UFPE. A cada dia tenta aprender um pouco mais sobre jogos, quadrinhos, filmes e música. Espera que um dia consiga escrever pra todas essas mídias e todo dia reza para Bayonetta lhe ajudar | Para segui-lo no Facebook: /victorc.leite