CONSCIÊNCIA COLETIVA

David Bowie, poeira de estrelas

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Poucos são os momentos da sua vida em que você vai lembrar precisamente o que estava fazendo naquele exato dia e instante; são algumas situações-marco na trajetória de cada um, que se destacam de uma generalidade quase sempre cotidiana, rotineira e igual. E parece que essas passagens moldam aquilo que você é. Desse jeito, como uma estrela cadente, que cruza o céu em uma rapidez inalcançável, temos os já dois anos completos de um dia em que o mundo acordou com a notícia de que os heróis viajam, se transformando em poeira de estrelas. E a memória daquela manhã silenciosa não é algo que possa ser esquecido. Foi uma sucessão de acontecimentos que pareciam não se relacionar muito bem; o aniversário, junto com o lançamento de um novo disco, para dali a dois dias algo como aquilo acontecer. Dois dias entre a celebração do nascimento e a morte. Dois dias; dois anos. Dois minutos e alguma coisa é o tempo de duração de muitas de suas canções, e dois segundos, ou menos, é a ligação direta que se estabelece entre um determinado acorde de um hit esmagador de sua autoria, ou de um timbre emanado da sua incomparável voz. A elasticidade do tempo, quando se é permitido sentir, produz uma das melhores viagens que se pode ter. E enquanto todo esse pensamento era desenrolado, tocaram duas músicas de uma playlist imensa que surgiu aqui no Spotify. E nesse lapso temporal tanta coisa já aconteceu e virou memória; ou foi resgatada e fisgada, como emoção.

A primeira recordação que eu lembro ter a respeito dele, no auge da infância, foi através do filme “Labirinto”, tantas e repetidas vezes assistido, onde sua estranha presença me causava verdadeiro fascínio. Jareth, seu personagem, o rei dos duendes, prometia a Sarah, interpretada por Jennifer Connelly, a realização de todos os seus – e então, nossos – desejos. A figura exageradamente performática daquele vilão, prometendo realizar todos os sonhos daquela ingênua criatura, era demais para qualquer um; impossível resistir. E não é por acaso que a imagem de David Bowie tenha chegado para muitos até antes da sua própria música. As duas coisas – som e visão, como ele coloca tão brilhantemente em “Sound And Vision” – eram indissociáveis, claro, mas se há algo tão ou mais forte que o impacto de uma canção, é a força de uma imagem capturada por um olhar infantil, ávido pelo diferente, pelo novo. A presença fantástica de Jareth ficaria muitos anos imortalizada como principal referência para com aquele ser “outro”, e nenhuma surpresa aconteceria alguns anos depois, quando eu descobriria que toda a mítica em torno do meu futuro ídolo era justamente a do extraterrestre perdido na terra (como no seu filme de estreia, “O Homem Que Caiu Na Terra); assim como o queer incompreendido pela sociedade, incapaz de se encaixar, rotular, classificar.

Curiosamente em 2003 comecei a descobrir o tesouro que é sua discografia, justamente no último ano antes do hiato de uma década que ele colocaria para a sua até ali incansável carreira. Nesse período o amor criou, fermentou e sedimentou uma ligação muito intensa, alimentada por uma fonte inesgotável de obras complexas e cheias de mistério, de arte e força, embaladas por uma voz que dialoga diretamente comigo, sem firulas e concessões, certeira e apaixonada. Não que ele precisasse produzir nada de novo ou coisa parecida, mas tê-lo em 2013 com um álbum inédito, em um ano difícil, foi a salvação que eu precisava, e aquele momento foi como uma grande celebração, e me senti abençoado por poder usufruir, comer e beber de toda essa quantidade absurda de arte, de vida. Em 2014 fui procurá-lo em Berlim, e o meu mapa foi a canção “Where Are We Now”, repleta de referências a lugares que forjaram o meu herói. Habitar na efemeridade os espaços por ele frequentados me fez ter outra relação com sua música e com a cidade. É bom saber que você tem um lugar para onde possa ir sempre, no qual se sinta bem, abraçado e compreendido. Em pouco menos de dois anos teríamos o “Black Star”, e tudo que veio acompanhado com ele; agradecimento, celebração, luto. O já icônico álbum de David era não só um prenúncio do seu fatídico destino, ali tão próximo, mas também um prelúdio dos tempos assombrosos que se avolumariam nos próximos meses; e que parecem ter estacionado na forma de uma grande nuvem negra, acima de nós, por estações que ainda não sabemos quantas serão.

Bowie, se fosse um animal, seria, dizem, um camaleão; transitava sim com distintas roupagens, impactava ainda mais e deixava sua marca por qualquer galáxia que ultrapassasse. É estranho falar dele no passado. O raio símbolo de sua persona, imortalizado na capa de “Aladdin Sane”, representa muito o alcance e intensidade daquilo que surge de qualquer coisa que ele fazia – faz, que ele faz! – ; traz no seu signo a luz, a eletricidade e o estrondo. Só um ser de outro planeta poderia ser capaz de habitar tantos imaginários distintos. Um Major Tom à deriva no espaço; um rockstar cantando para uma Christiane, drogada e prostituída na Berlim ainda dividida, pela cicatriz do muro, paredão de concreto que abrigou, nos anos 70, um casal de transeuntes que se encostaram ali para namorar, e mal sabiam que eram observados e inspirariam a maior canção (se for possível eleger apenas uma) da vida do ícone camaleônico, mas também de tantas outras pessoas. “We can be heroes, just for one day”, diz uma parte da música, que quase como reza faz milagres, ao trazer sentido e magnitude ao caos que uma tristeza ou euforia podem causar na vida pulsante de qualquer um. O raio brilhou por cima daqueles que dançavam em uma pista de dança, seja do lugar que for, e por um momento qualquer esqueceram suas realidades, recebendo o choque dos acordes de “Let’s Dance”, um verdadeiro – e não jargão/meme de internet – hino atemporal.

É bom saber que você tem um lugar para onde possa ir sempre, no qual se sinta bem, abraçado e compreendido.

Só pode morrer quem nasceu, e ele apenas caiu na terra, como um raio, e nela se espalhou, transformando-se numa estrela gigante que apenas explodiu formando outras estrelas, com luzes e vozes próprias, que estão por aí, nesta e em outras noites. Dois dias, e quanta coisa pode acontecer nesse finito espaço de tempo. 8-10 de janeiro, um intervalo que deveria ser feriado mundial; galáctico, extraterritorial. Mas só para que se possa cantar ainda mais uma vez a frase apoteótica, sentindo em cada fibra do seu organismo a verdade emanada daquelas palavras, “we can be heroes, just for two days”; two days. Então sem delongas, pegue seu sapato vermelho, put it on, e dance o blues, sinta cada átomo ao seu redor, celebre com música e vida o dia de hoje. “Ashes To Ashes”, de cinza para cinza, de poeira para poeira, de música para música; entre as estações do afeto, “Station To Station”, entre as coisas, entre-lugares, daqui até ali, existe um caminho, e saiba que ao atravessá-lo você não está só. Daqui da terra, olhando para o céu, só esperamos conseguir fazer contato; alô, alô, marciano, aqui quem fala é da terra. Seja em Marte (“Life On Mars”), ou no seu quarto repleto de pôsteres de seus ídolos de antigamente, todo dia é dia de se conectar, sendo por meio dos sonhos, das estrelas ou da música. O que importa é tentar, e saber que ele estará lá/aqui, em qualquer lugar. É como diz o título que dá nome a exposição montada em sua homenagem: David Bowie Is. Acho que não há como sintetizar melhor tudo que ele representa. Pois David Bowie nunca foi nem será. David Bowie é.

Renato é formado em Cinema e Audiovisual pela UFPE. Ama filmes desde sempre e tem um interesse especial por atrizes e divas da música. Idolatra Nicole Kidman e Sofia Coppola, e sabe que a única resposta possível para qualquer dúvida está nas canções de David Bowie | Para segui-lo no Twitter: @tatosoutomaior

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