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O que achamos de “O Touro Ferdinando”

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Review

Nota de Carlos
10/10
Média
10.0/10

Você certamente já ouviu falar em tourada e/ou já viu um vídeo disso nas videocassetadas do Faustão. De acordo com o Wikipédia, esse substantivo é usado em referência à arte de lidar com touros bravos, seja a pé ou a cavalo, num tradicional espetáculo que recebe o mesmo nome. O dicionário do Google, por sua vez, apresenta uma definição mais completa e sensata sobre a tourada ao dizer que esse evento é um tipo de espetáculo em que os touros são provocados por toureiros para que invistam contra estes e possam, então, ser abatidos por golpes de espadas ou derrubados com auxílio de mãos.

Em O Touro Ferdinando, filme de animação dirigido pelo brasileiro Carlos Saldanha (Rio 1 e 2, A Era do Gelo 1, 2 e 3), produzido pelos estúdios Blue Sky em parceria com a 20th Century Fox Animation e baseado no livro infantil Ferdinando, o Touro (1936), de Munro Leaf, a questão das touradas é trazida à tona de forma bastante significativa. Situado na Espanha, o longa-metragem conta a história de Ferdinando, um touro que já de início se mostra diferente dos outros com quem convive. Enquanto seus companheiros brincam de briga, Ferdinando é pacifista, cuida de uma flor e, por fugir do padrão, sofre chacota dos outros touros, que não hesitam em chamá-lo de esquisito, já que, na opinião deles, touros foram feitos não só para brigar, mas também fazer carreira nisso.

Capa da versão americana do livro infantil Ferdinando, o Touro de Munro Leaf (1936)

Essa primeira cena acontece quando os touros ainda são filhotes e têm na figura paterna um exemplo a ser seguido. Semelhantemente a eles, Ferdinando também admira seu pai e quer ser um vencedor, mas sem precisar usar de violência para atingir esse objetivo, não é à toa que, numa conversa, ele faz a seu pai a seguinte pergunta: eu posso ser campeão sem ter que brigar? Na cena seguinte a essa, a Casa del Toro, que é o lugar onde são abrigados todos esses touros mais novos e mais velhos, recebe a visita de um toureiro à procura de um touro valente para um espetáculo nos moldes do que eu mencionei no início do texto, e é nesse momento que o pai de Ferdinando, um touro preto de grande porte, participa de uma luta com o pai de outro touro, vence e é levado embora com o tal toureiro acreditando que retornaria à Casa del Toro e ensinaria alguns truques a seu filho.

Infelizmente, ele não volta. E Ferdinando, quando se dá conta disso, foge da Casa del Toro e acaba caindo de paraquedas no melhor lugar para um touro apaixonado por flores como ele: na fazenda de um floricultor. Lá ele conhece Nina e passa a receber o cuidado e o carinho com os quais sempre sonhou.

Esse é o momento do filme em que a tristeza e o medo de que algo de ruim aconteça cedem lugar a uma felicidade que cresce junto com o crescimento de Ferdinando, que anos depois se torna o touro mais lindo que eu já vi na minha vida.

É nesse mesmo momento de felicidade pelo fato de Ferdinando ter, enfim, encontrado um lar para chamar de seu que podemos ouvir Nick Jonas cantando “Home”, música que não só faz parte da trilha sonora do filme, como também concorreu ao globo de ouro de Melhor canção original para filme (e perdeu para “This is Me”, do filme O Rei do Show) junto com o próprio longa-metragem, que também não levou o prêmio de Melhor animação (Viva: A Vida é Uma Festa venceu essa categoria).

Ouça a versão do filme de “Home”, de Nick Jonas, no Spotify

Assista ao clipe de “Home”, de Nick Jonas, para promover o filme

Depois disso, acontecimentos felizes e tristes – que eu não posso contar aqui, se não o filme perde a graça – tomam conta da telinha e nós, espectadores, não ficamos imunes a mudar constantemente de humor. Isso acontece pelo fato de o filme conseguir encurralar o espectador no meio de duas grandes escolhas: se envolver ou se envolver. Na minha humilde opinião, o sentimento de empatia brota em nossos corações pelo fato de O Touro Ferdinando colocar em jogo questões às quais nós, seres humanos, estamos sujeitos ao longo de nossas vidas.

Por exemplo, há uma cena de choro de um dos touros que foi criado junto com Ferdinando que muito me lembrou aquela máxima fajuta de que homens não choram (você precisa assistir ao filme para entender), sem contar e já contando um segundo momento em que Nando diz para outro touro o seguinte: “mas não tem que ser desse jeito, você é mais do que um par de chifres”. Como não fazer uma relação desse sábio dizer com a minha vivência enquanto homem gay que desde menino segue um rumo diferente daquele que os meus pais e a sociedade esperavam que eu seguisse antes mesmo do meu nascimento?

“Quem não é bom de briga, vira churrasco” é outro dizer icônico falado no filme, que não deixa de tocar, mesmo que sutilmente, na problemática de exploração dos animais que as pessoas vegetarianas e veganas estão cansadas de discutir. Há um abatedouro próximo à Casa del Toro e é para lá que são mandados os touros que não são bons de briga e, portanto, não tem outro destino a não ser ir parar numa churrascaria. Enquanto pessoa que está há mais de uma semana sem comer carne com o objetivo de se tornar uma pessoa vegetariana, o filme foi de extrema relevância para mim. Mas isso, é claro, é algo muito pessoal, nem todos os expectadores de O Touro Ferdinando se sensibilizarão com essa questão.

Além disso, esse momento do filme me trouxe à memória Okja (2017), filme de Bong Joon-ho que também coloca em cena uma amizade entre uma criança e um animal selvagem, o que me parece um lugar-comum nos longa-metragem que raramente falha em despertar nossa empatia. Outro filme clássico que O Touro Ferdinando me trouxe à tona foi a Fuga das Galinhas (2000), principalmente nas cenas posteriores ao meio do filme…

Para concluir, eu diria que O Touro Ferdinando é uma ótima aposta para esse mês de janeiro, que é quando crianças estão de férias e sedentas por programas de lazer em família. Apesar de ser infantil o público alvo do filme, todos que o assistirem saem ganhando algum(ns) aprendizado(s). Digo isso por experiência própria.

E, sim, apesar de só ter falado de touros, o filme conta com outras personagens que ganham vida em animais engraçadíssimos, a exemplo da cabra Lupe, que tem suas falas em português dubladas pela atriz Thalita Carauta.

Confira o trailer dublado de O Touro Ferdinando:

Henrique é graduado em Letras, professor de Português e futuro jornalista que faz pesquisa sobre metáfora. Escreve sobre e é apaixonado por cinema, literatura, música e afins. Publica reviews de filme mensalmente | Para segui-lo no Instagram: @henrickcarlos

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