CONSCIÊNCIA COLETIVA

O que achamos de “O Destino de Uma Nação”

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Review

Nota de Leandro
6/10
Média
6.0/10

O cineasta François Truffaut cunhou em 1954 a expressão “cinema de papai” no famoso ensaio “Uma Certa Tendência do Cinema Francês” publicado na Cahiers Du Cinéma. Truffaut tinha como alvo um cinema conservador do ponto de vista formal, que não imprimia o estilo do diretor, e viria a ser conhecido como “política dos autores”. O “cinema de papai” é um cinema preso à narrativa quase literária. São filmes em geral edificantes, podendo ser biografias ou adaptações de romances gravados de maneira correta, sem muita novidade, com um suposto bom gosto para determinado público. Truffaut, um dos representantes da Nouvelle Vague, queria com a provocação uma maior ousadia dos cineastas. E se tem algum lugar em que é fácil achar representantes daquilo que Truffaut define como “cinema de papai” é a premiação do Oscar. E “O Destino de Uma Nação” (Darkest Hour, 2017) é mais um desses exemplares, que parece ter sido filmado como um “Oscar material”, possuindo como maior objetivo obter algumas estatuetas na premiação da Academia de Artes Cinematográficas de Hollywood.

A trama acompanha um momento específico do governo do primeiro-ministro britânico Winston Churchill: desde a sua posse, com certa desconfiança inclusive do seu próprio partido e do monarca George VI, até o momento anterior ao conflito da Segunda Guerra Mundial. Inúmeras lideranças acreditavam que o primeiro-ministro deveria resolver de forma diplomática o avanço de Hitler na Europa, com a tomada da Bélgia, Holanda e parte da França, cedendo alguns territórios ingleses ao Terceiro Reich. Churchill acreditava que não deveria dialogar com alguém como o então líder alemão e achava que precisava enfrentar a expansão do nazismo e, ao mesmo tempo, resgatar tropas presas em Dunkirk. Aqui há uma armadilha narrativa para o filme – e para cinebiografias de figuras históricas conhecidas – já que é de conhecimento comum que o Reino Unido se aliou com os Estados Unidos e a União Soviética contra a Alemanha. Dessa forma, o suposto clímax da obra, criado com a excelente oratória de um político que sabe se adaptar às adversidades, perde o interesse, já que o desfecho histórico é conhecido e a narrativa não cria elementos capazes de ir além do que o espectador sabe.

E talvez o maior culpado pelo conservadorismo narrativo do filme, que tira um pouco do interesse, seja o olhar do cineasta Joe Wright, que parece ao longo de sua filmografia repetir exatamente os erros apontados por Truffaut em 1954 no cinema francês: tentar construir uma narrativa baseada apenas no texto literário. Wright, aliás, é conhecido justamente por adaptações de romances clássicos como “Orgulho e Preconceito” (2005) da Jane Austen e “Anna Karerina” (2012) do Leo Tolstoy, que embora tenham uma boa produção, uma direção de arte para vencer Oscar, soam como novelas das seis sem qualquer tipo de ousadia. A melhor investida do diretor no cinema é em “Desejo e Reparação” (2007), ainda que baseado no livro do Ian McEwan, pois ele consegue construir uma obra que não fique com elementos de narrativas televisivas que tenham como objetivo vencer um Oscar técnico e levar senhoras distintas para uma “sessão de arte” – aspas merecidas –  no shopping. “O Destino de Uma Nação” tem o mesmo problema dos outros filmes de Wright: parece um caçador de Oscar, mais uma cinebiografia, dando a sensação de “já vi isso antes” na audiência.

E por ser uma cinebiografia, “O Destino de Uma Nação” fica refém do protagonista por não conseguir desenvolver nenhum outro personagem em cena. Kristin Scott Thomas, por exemplo, faz a esposa de Churchill e quase desaparece na trama. E quem segura a cena é Gary Oldman, quase irreconhecível por causa da maquiagem, ao dar vida ao Winston Churchill. O trabalho de Oldman impressiona, mas é quase impossível não soar as vezes um pouco caricato por ser um personagem histórico conhecido por seus trejeitos, manias e jeito de falar. Gary Oldman consegue imprimir isso de maneire incrível, mas seu trabalho não é parece tão diferente do que John Lithgow, premiado com o Emmy, faz na série da Netflix “The Crown”. Ainda que Lithgow no seriado dê vida ao Churchill em um período histórico diferente, com a coroação da Rainha Elizabeth e a Guerra Fria. Mas é difícil enxergar muitas diferenças em como o primeiro-ministro britânico é interpretado por Oldman e por Lithgow, justamente por ser um personagem conhecido da estatura de Churchill. As vezes é difícil dizer até onde o personagem biográfico pode estar soando uma caricatura como aconteceu com a Meryl Streep ao encarnar a Margaret Thatcher em “A Dama de Ferro” (2011), que aliás é uma cinebiografia covarde ao construir a primeira-ministra como uma simpática senhora, quando na verdade Thatcher impôs, na década de 80, um modelo de governar bastante autoritário, com pouco diálogo e muita repressão.

“O Destino de uma Nação”, no final das contas, soa um filme preocupado em ganhar prêmios e talvez impressionar o público com o Gary Oldman, hoje o grande favorito ao Oscar de melhor ator em 2018. Mas o filme não consegue ir além de construir uma figura histórica em um momento particular. Até a tentativa de humanizar Churchill, mesmo na bonita cena do diálogo que o primeiro-ministro tem com ingleses comuns dentro do metrô sobre soberania e o nazismo, faz o personagem parecer excessivamente personalista e populista. Talvez uma figura do tamanho de Churchill precise ser melhor desenvolvido até em outras mídias. Sua presença em “The Crown”, ainda que coadjuvante, parece oferecer um melhor retrato do político do que “O Destino de uma Nação”. E a falta de ousadia e o conservadorismo narrativo de Joe Wright fazem a obra parecer um “filme de papai”. Truffaut certamente acharia isso. Sem a performance de Gary Oldman, o filme dificilmente funcionaria.

Leandro é jornalista por formação e estudante de Cinema e Audiovisual pela UFPE. É cinéfilo desde a infância e tem interesse por debates sobre identidades culturais. É fã de música new wave e sintetizadores em geral, novelas de Gilberto Braga e acredita que Madonna é a única messias possível | Para segui-lo no Twitter: @leandro_gantois

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