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O que achamos de “Roda Gigante”, novo filme de Woody Allen

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Lembro muito claramente quando entrei em contato com um filme de Woody Allen pela primeira vez: foi através de um acervo lançado pela Revista Caras em VHS na década de 90, a Folha de São Paulo e a Revista IstoÉ tinham coleções nos mesmos termos, que tinha “A Rosa Púrpura do Cairo” (1985) no catálogo. Fiquei encantado, ainda criança, com Cecilia, personagem de Mia Farrow, que utilizava a cinefilia como fuga da recessão econômica da década de 30 nos Estados Unidos e da violência doméstica de seu marido. Depois disso, ficou fácil entrar no universo do cineasta através de qualquer videolocadora, seus filmes não eram difíceis de achar, até pelo uso constante de nomes do star system de Hollywood. E não é preciso fazer muito esforço para citar duas grandes obras do diretor em cada década nos últimos quarenta anos: “O Dorminhoco” (1973), “Noivo Neurótico, Noiva Nervosa” (1977), “Zelig” (1983), “Hannah e Suas Irmãs” (1986), “Tiros na Broadway” (1994), “Desconstruindo Harry” (1997), “Match Point” (2005) e “Tudo Pode Dar Certo” (2009).

Posso esquecer algum outro grande filme, já que Woody Allen lança todo ano uma nova película. É óbvio que diante de tamanha produtividade, sempre podem sair comédias medíocres como “Você Vai Conhecer o Homem dos Seus Sonhos” (2010) e “Para Roma, Com Amor” (2012). Woody Allen, porém, se viu nos últimos anos envolvido em escândalos sexuais envolvendo pedofilia em seu conturbado casamento com a atriz Mia Farrow e na relação com suas enteadas. Woody Allen, um dos primeiros cineastas autorais que entrei em contato, não era exatamente parecido com aquele alter ego hipocondríaco, neurótico e inofensivo, que no máximo colocava o filósofo Marshall McLuhan em cena para fazer um cinéfilo pedante calar a boca na fila do cinema.

Por esses fatos, fui perdendo o interesse em sua obra. O último filme que tinha visto do diretor tinha sido “Blue Jasmine” (2013), que rendeu o Oscar de Melhor Atriz para Cate Blanchett. Simplesmente ignorei “Magia ao Luar” (2014), “O Homem Irracional” (2015) e “Café Society” (2016), além de “Crisis in Six Scenes”, série produzida pela Amazon com a Miley Cyrus. Passei a ter certa dificuldade em separar a vida privada do artista, com seus escândalos envolvendo assédio e pedofilia, da obra. Além, é claro, do próprio diretor demonstrar que estava produzindo filmes quase no piloto automático. Sua mais recente investida no cinema, “Roda Gigante” (2017), foi lançada justamente em meio às denúncias de assédio sexual envolvendo a indústria cinematográfica tendo como estopim o produtor de Hollywood Harvey Weinstein e o ator Kevin Spacey, só para citar os casos mais explosivos. Woody Allen parece justamente entrar na fila de acusações de mais um homem, que em posição de poder, se aproveitou de alguém em situação vulnerável. “Roda Gigante” acabou estreando em um timing errado. Mas quem conseguir separar o artista e o extrafílmico, pode ter uma boa surpresa ao se deparar com um dos melhores filmes lançado pelo diretor em muitos anos.

“Roda Gigante” acompanha Ginny (Kate Winslet), uma garçonete entediada de quarenta anos, que mora ao redor de um parque de diversões em Coney Island na década de 50. Um parque de diversões cafona e barulhento, como descreve a própria Ginny. A personagem repete algumas paranoias e cacoetes típicos de protagonistas de Woody Allen. Ginny é uma ex-atriz que utiliza o cinema e as radionovelas para forjar a própria realidade de subúrbio e acaba se envolvendo com Mickey (Justin Timberlake), um estudante de mestrado mais novo que faz bico de salva-vidas na praia. Woody Allen repete aqui outro tema de sua obra: o cinismo e a ironia ao discorrer sobre relacionamentos monogâmicos e heterossexuais. Para Allen, todos estão fadados ao fracasso. Mulheres e homens em seus filmes se entendiam no casamento e tentam achar alguma saída para suas vidas desinteressantes. A Ginny de Kate Winslet, em muitos momentos, lembra inclusive a Cecilia de Mia Farrow em “A Rosa Púpura do Cairo”, embora Ginny seja mais ativa e tente tomar controle do caos de sua vida com mais iniciativa e até guiada por uma maior amargura.

Kate Winslet

Kate Winslet, mesmo britânica, quase virou uma especialista em interpretar donas de casa americanas, suburbanas e entediadas. Seja na Sarah de “Pecados Íntimos” (2006), na April de “Foi Apenas um Sonho” (2008), na Adele de “Labor Day” (2013) ou na minissérie da HBO dirigida pelo Todd Haynes Mildred Pierce (2011). A Ginny de “Roda Gigante” é mais uma dessas donas de casa. Mas Kate Winslet, o invés de se tornar refém do arquétipo, apenas prova o porquê é uma das grandes atrizes de sua geração. Em todas essas performances, Winslet compõe uma personagem completamente diferente, em suas ambições, frustrações e lutas contra o tédio e a vontade de ter uma vida menos banal. Qualquer outra atriz, sem o mesmo talento, poderia cair em uma eterna repetição. Winslet torna todas as donas de casa verossímeis. A atriz inclusive, em 2017, se envolveu em polêmicas ao tentar defender o diretor Woody Allen, mas soa um pouco injusto e oportunista a imprensa questionar apenas mulheres que trabalham com o diretor, esperando cada uma delas falar algo fora do lugar para jogar em uma manchete, enquanto atores raramente são questionados quando estão em um projeto do cineasta. Winslet em “Roda Gigante” não é apenas o alter ego neurótico de Woody Allen, é uma mulher construída de forma tridimensional em suas fantasias frustradas. Jim Belushi –  o marido traído – e Justin Timberlake – a aventura e a possibilidade de fuga – estão bem, mas quem comanda a cena é mesmo Kate Winslet.

“Roda Gigante” demonstra também um pouco de mudança na forma de filmar de Woody Allen, um pouco mais afetado e teatral que a média, e uma interessante mudança na paleta de cores quase nunca percebida em outras obras do diretor, que normalmente grava planos sem muita pirotecnia e com bastante sobriedade. O filme foi mal recebido pela crítica americana, o que é quase um clichê, já que Allen é mais reconhecido no mercado europeu e tem um considerável número de fãs no Brasil também. Woody Allen, aliás, brinca com o fato de seus filmes serem massacrados nos Estados Unidos e vistos como obras-primas na Europa em “Dirigindo no Escuro” (2002). Mas os tempos são outros: aos 82 anos, o cineasta tem sua obra questionada por crimes que possa ter cometido. Não são poucas as pessoas que hoje boicotam o diretor. Eu, confesso, decepcionado, fui ignorando seus filmes enquanto os escândalos vinham à tona, mas acabei na sala de cinema enfeitiçado pela presença talentosa de Kate Winslet. Acho que me comportei como a Cecilia de “A Rosa Púrpura do Cairo”: entrei na sala escura e tentei esquecer as mazelas do mundo do lado de fora.

Trailer Oficial

Leandro é jornalista por formação e estudante de Cinema e Audiovisual pela UFPE. É cinéfilo desde a infância e tem interesse por debates sobre identidades culturais. É fã de música new wave e sintetizadores em geral, novelas de Gilberto Braga e acredita que Madonna é a única messias possível | Para segui-lo no Twitter: @leandro_gantois

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