CONSCIÊNCIA COLETIVA

O que achamos de 120 Batimentos Por Minuto

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Por razões sócio-históricas, a homossexualidade ainda é vista por muitos grupos como pecado, doença e principalmente como uma falha (desvio) no desenvolvimento da sexualidade. Muitos filmes, como Filadélfia (1993), Clube de Compras Dallas (2013) e o mais recente The Normal Heart (2014), procuraram resgatar a construção do comportamento homossexual enquanto categoria identitária estigmatizada pelo surto de AIDS nas décadas de 80 e 90, mas nenhum deles revela com tanta força o quanto esse grupo foi e ainda é sensível ao assunto e passível de discriminação social como fez de modo excelente o mais novo 120 batimentos por minuto.

Ao contrário do que algumas críticas estão apontando, esse não é um filme apenas sobre memória nem mesmo um resgate sobre os efeitos colaterais da AIDS, mas sim um trabalho bastante atual sobre resistência, companheirismo e fidelidade. O diretor Robin Campillo, que dirigiu Eles Voltaram (2004) e Eastern Boys (2013), também assina o roteiro e nos apresenta, com entusiasmo e paixão, o funcionamento de uma célula ativista nos anos 90 (quando o próprio Campillo foi membro) chamada AIDS Coalition to Unleash Power (ActUp), que atuava desde 1987 no sentido de fiscalizar a qualidade e a oferta dos tratamentos destinados naquela época aos soropositivos e, paralelamente, dar visibilidade à importância da prevenção. A luta de grupos como o ActUp contribuiu significativamente para o acesso democrático aos medicamentos que hoje fazem parte da terapia antirretroviral e possibilitam longevidade e qualidade de vida para essa população. De acordo com a UNAIDS, 18,2 milhões de pessoas estão em tratamento no mundo atualmente.

Na primeira metade do filme somos convidados a participar das assembleias do ActUp, um espaço que prezava pela democratização das ideias e decisões, mesmo existindo papéis e hierarquias bem demarcadas. Diferente do que estamos acostumados a ver aqui no Brasil, a atuação do grupo não estava limitada à organização de passeatas; eles, muito antes da democratização da internet e das redes sociais, promoviam ações bem consistentes, invadiam escolas, interrompiam aulas e, na maioria das vezes, optavam pela radicalização simbólica e física dos atos.

Procurando revelar as fragilidades dessas organizações, o roteiro não romantiza a condução dos eventos, mostrando gradativamente como as divergências também faziam parte do processo de construção dos ideais coletivos. A sala onde ocorre os encontros é sempre vista como um espaço a ser respeitado, a geografia necessária para qualquer ação democrática. Outro fator importante e que merece destaque é que, para fazer parte do ActUp, não é preciso ser soropositivo, qualquer pessoa pode se tornar membro, desde que esteja disposto a lidar com a reação da sociedade.

A partir do momento em que você entra, você será visto como um de nós.

Em menos de uma hora (o filme tem no total 2h e 20min), Campillo, com muita competência, nos apresenta algumas especificidades sobre os tratamentos ofertados pelo sistema de saúde naquele contexto e deixa que seus personagens costurem de forma bastante dialógica a crítica necessária à indústria farmacêutica. É possível perceber também como a fragmentação da comunidade LGBT criava (como acontece até hoje) zonas de conflito e como isso impactava no modus operandi da militância por eles exercida. O filme até tenta mostrar como o uso dos medicamentos afetava especificamente homens gays, lésbicas e transexuais, mas infelizmente não sobra tempo para aprofundar essa discussão.

Na segunda parte do filme as lentes vão se voltando com maior intensidade para Sean Dalmazo (Nahuel Pérez Biscayart), um dos membros mais ativos do grupo, que aos poucos inicia uma relação com o novato Nathan (Arnaud Valois). Esse relacionamento foi uma escolha brilhante encontrada pelo roteiro para nos colocar diante (quase imersos) das questões psicológicas que impactam até hoje na nossa busca por amor e prazer (falo aqui enquanto homem gay). É exatamente nesse ponto que 120 batimentos difere bastante dos outros filmes sobre Aids; apesar de fatídico e emocionante (é quase impossível conter as lágrimas), ele não esquece de pontuar como a nossa relação com o sexo foi afetada não só pelo surto da doença, mas pela forma como ela foi interpretada posteriormente pela cultura de massa; um dos personagens inclusive chega a relatar como uma foto vista na adolescência modificou a sua forma de lidar com o sexo. Nela um casal gay era mostrado antes e depois da manifestação dos sintomas da AIDS.

Lendo até aqui pode parecer que o filme soe didático demais, como um manual, mas nem de longe é isso que irão encontrar. Dalmazo, no exercício de resgatar suas memórias, conseguiu fazer algo muito raro: tratar de questões políticas e ideológicas sem perder o olhar estético. Se a luta por direitos é por si só bastante carregada de realidade e sofrimento, é no campo do afeto, do cuidado e da lealdade que estão colocadas as sensíveis e inesquecíveis metáforas do filme. O sangue, as festas, e até mesmo o próprio vírus ganham representações visuais que ampliam a nossa percepção sobre aquele momento histórico. As cenas são bastante sensoriais, cada batida tem um sentido, algo a revelar. Visualmente é um dos trabalhos mais bonitos da temporada, vale cada minuto.  É importante, por fim, ter em mente que os membros do ActUp não refletiam apenas dor e sofrimento, eles estavam seguindo em frente, amando e desejando que seus corpos, repletos de histórias, sobrevivessem, sem que isso significasse a privação do amor ou a anulação dos desejos que resistem e nos humanizam.

Direção: Robin Campillo
Gênero: Drama
Duração: 144 min.
Distribuidora: Imovision
Estreia: 11 de Janeiro de 2018

Trailer Oficial Legendado

Raphael é professor, formado em Ciências Econômicas, Letras e atualmente se dedica ao mestrado em Educação. Escreve sobre música, comportamento e cinema. É apaixonado por Twin Peaks, playlists e quase sempre pelos amigos | Para segui-lo no Twitter: @RaphaelAlves

  • Juliana Sampaio

    Me deixasse bastante curiosa por esse filme, excelente crítica.

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