CONSCIÊNCIA COLETIVA

Resolução de ano novo: assumir suas próprias escolhas

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Geralmente nos fins de ano fazemos uma série de reflexões sobre o vivido, e acabamos criando várias resoluções para o ciclo que se inicia, né? Sempre tentamos materializar desejos daquilo que queremos para uma vida melhor: emagrecer/engordar, arrumar um emprego (novo), estudar mais, se divertir mais, ser mais focado(a), etc.

Muitas vezes, estas resoluções não são cumpridas e acabam se repetindo ano após ano –devido a estresses e outros afazeres que vêm junto ao ano novo; existe sempre algum obstáculo no caminho de tornar nossas resoluções bem-sucedidas. E então, um novo ciclo de “desculpas” se inicia, onde falamos “ah, vou então deixar minhas resoluções mais pra frente”; chega então o segundo semestre, e tudo se volta para o próximo ano novamente. A pergunta que fica é: por que isso acontece? Por que não conseguimos realizar aquilo que gostaríamos de realizar num novo ano? Por que esses obstáculos sempre acabam atrapalhando as nossas metas de vida para um novo ciclo que se inicia?

Bem, é claro – por vivermos em uma sociedade que preza pelo dinheiro, e onde o bem-estar é composto principalmente pela aquisição de bens e serviços mais do que todo o resto, o trabalho é um fator importantíssimo para trazer empecilhos para a realização destas atividades. Muitas vezes, no entanto, colocamos apenas nele (ou em outras atribuições das nossas vidas) essa culpa, e seguimos nossa vida da mesma forma – apesar de, mesmo que não pareça, ela nunca permanece igual.

E é neste ponto que quero chegar: a RESPONSABILIDADE das resoluções não tomarem forma nas nossas vidas recai sempre sobre outra coisa qualquer, menos sobre nós mesmos – pelo menos da boca pra fora, já que a frustração se instala. E, na realidade, isso pode ser estendido para diversas áreas, momentos e situações cotidianas que acabamos vivendo vez ou outra, e que tem me trazido cada vez mais importantes reflexões.

Sempre me pego dizendo: “tentei não chegar atrasado, mas o trânsito não deixou”, ou então “gostaria de ter tido tempo pra ler, mas estava tão atarefado com minha casa”, ou ainda “não pude ir porque meu/minha namorado não iria gostar” – e estas frases, assim como várias outras, são exemplos de transferência de responsabilidade, ainda que em níveis distintos.

As palavras têm, sim, bastante poder, então muitas das vezes quando nos explicamos sobre a falta da realização de alguma tarefa através das vontades e limites do outro ou de alguma instituição da nossa vida, estamos conferindo a este outro ou a esta instituição um poder que, por vezes, eles/elas não deveriam ter. E isso não começa conosco, e nem é intrínseco a nós, não é mesmo? Afinal, somos uma sociedade extremamente cristã que confere inicialmente à igreja (e ao seu Deus todo poderoso) um grande poder, onde todas as realizações e desfalques de nossas vidas acontecem por estarem descritas no desenho e no destino que uma entidade superior nos prescreveu.

Assim, geralmente começamos a vida com essa ideia de que todas as nossas decisões e responsabilidades não são, na realidade, nossas – são de Deus. E é deste tipo de criação que grande parte dessa falta de “coragem” toma início – e quando nos deparamos com situações por vezes até mais radicais, principalmente aquelas que nos acompanham o tempo todo na vida adulta, nos vemos por vezes afogados em uma ansiedade que não parece ter limite. E às vezes não tem mesmo.

Tenho aprendido, aos trancos e barrancos, que talvez o caminho – ainda que doloroso – seja o de tomar a responsabilidade para si, sempre. Alguns livros de autoajuda dizem que nós devemos tomar as rédeas da nossa vida para que possamos ser realmente felizes – e talvez eles estejam certos. O que esquecem de dizer é que esse processo é EXTREMAMENTE doloroso, e por não estarmos acostumados com essa dor, acabamos deixando ele de lado. E tudo se inicia novamente: não tenho porque deus não quis, não fui porque fulaninho não deixou, etc.

E vamos combinar, né? Internalizar responsabilidade por tudo que acontece em nossa vida parece, sempre, um grande peso. E pra muita gente, acaba sendo – é a famigerada expectativa. Nos vemos tendo uma vida que nunca pensamos que teríamos, por que deveríamos nós tomar responsabilidade pelo que ocorre conosco? Somos criados pensando em um momento de liberdade na vida adulta que nunca chega; chegamos na vida adulta e sonhamos com a liberdade que tínhamos quando éramos crianças. E assim vamos vivendo, sempre através do olhar de um outro alguém, ou de alguma instituição, sem muitas vezes nem pensarmos no nosso próprio olhar.

Começamos a vida com essa ideia de que todas as nossas decisões e responsabilidades não são, na realidade, nossas – são de deus.

Por isso, a partir de ter começado a entender este processo, decidi criar esta resolução para meu ano novo: uma tomada maior de responsabilidade. Preciso tomar essa iniciativa para que eu possa tirar as muletas que “me ajudam” a caminhar – mas que muitas vezes estão apenas me deixando mais vagaroso, ou podem também estar me levando por um caminho que talvez não fosse o que eu gostaria de tomar. Essa ciência desse processo também me diz que serão momentos de extremo sofrimento – porque qualquer mudança dói, e a comportamental dói ainda mais. No entanto, a dor por vezes se torna necessária para o crescimento – e crescer é muito mais do que se tornar bem-sucedido; crescer é estar bem consigo mesmo. E só posso estar bem comigo mesmo tomando para mim as responsabilidades da minha vida, porque no fim das contas só eu sei o que é bom pra mim mesmo.

Créditos
Foto de Capa: cea +/Flick
Foto do Corpo: SHOUT

Professor de inglês e problematizador 24h por dia, ainda tem um pezinho na insegurança que insiste em lhe rodear. Já foi fã de Xuxa, de Sandy e Júnior e de Britney Spears - hoje se acha muito cult por ser fã de Rachel Bloom. É o que tem pra hoje, né?

  • Juliana Sampaio

    Gostei dessa discussão mas fiquei aqui pensando se as escolhas são realmente só nossas já que nos constituímos com base no outro sempre, querer assumir algo como nosso pode passar uma ideia reducionista vocês não acham?

    • Felipe Dionísio

      eu entendi onde o texto tenta chegar e entendo também o seu ponto de vista Juliana, a ideia de autonomia assim me assusta também, não sei até que ponto somos independentes para querer assumir algo só nosso.

    • Djalma Wanderley

      Oi Juliana!
      Entendo demais teu ponto de vista, e compartilho dele – acho que nossas decisões nunca são apenas nossas, mesmo, porque tem uma série de fatores que nos fazem querer toma-las ou não. Acho que a grande questão aqui é de saber assumir quando chegar o momento, entende? Não dá pra colocar pra outras pessoas uma responsabilidade que é principalmente sua. Às vezes, acabamos deixando que as decisões das nossas vidas sejam tomadas pelos outros e outras, e isso acaba nos deixando mais como quem está apenas passando – na minha opinião, é interessante tomar parte disso tudo, e também enfrentar as consequências, sejam elas boas ou ruins.

      • Juliana Sampaio

        Concordo contigo em partes Djalma, mas não sei se somos responsáveis isoladamente pelas decisões que tomamos e acho que teu texto falha nesse ponto especificamente. Muitos fatores podem influenciar e até determinar nossas escolhas, jogar tudo nas nossas costas e dizer: enfrente as consequências!!! não me parece legal, mas eu entendo sobre a projeção no outro que tu falas, mas acho que é preciso relativizar, não sei se me entendes.

        • Djalma Wanderley

          entendo sim, Juliana! acho que a relativização é extremamente importante, e precisamos sempre entender de onde vem as nossas decisões, porque elas realmente não são apenas nossas. Pra mim, o cerne do texto se encontra no fato de que, apesar de todas as influências recebidas por inúmeras fontes para que possamos tomar decisões e ter opiniões, ao final do dia somos nós quem as tomamos e temos. Sendo assim, é interessante pensar sobre de onde vem essas decisões e opiniões, para sabermos se elas corroboram com aquilo que acreditamos, entende?
          É importante ter esse discernimento de que, sim, nossas decisões não são apenas nossas – mas isso não nos tira o peso de termos as tomado.

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