CONSCIÊNCIA COLETIVA

A solidão pode ser o seu melhor presente em 2018

em Comportamento/Opinião por

De acordo com o IBGE, o número de pessoas que moram sozinhas no Brasil tem crescido consideravelmente. Os chamados “arranjos unipessoais” são uma tendência no mundo todo e geralmente estão associados ao abandono físico, já que os idosos são estatisticamente maioria, 44,3% desse grupo têm 60 anos ou mais. Mesmo o Brasil se tornando, por razões históricas, cada vez mais um país de idosos, entre os jovens esse número também é crescente, o que nos levar a pensar sobre uma relação importante e pouco discutida nas mídias: solidão e singularidade.

Existem muitos fatores que influenciam na decisão de morar ou não sozinho, mas a ideia de que essas pessoas necessariamente são ou estão solitárias está equivocada. A verdade é que existe uma diferença grande entre solidão e estar solitário. Nietzsche, por exemplo, defendia que solidão é aproximar-se de si mesmo, ou seja, ir, aos poucos,  se libertando do outro, dos conceitos impostos, das coerções e encontrar no final da jornada o que ele chama de deserto, um lugar só seu, um espaço único e tão escondido que a possibilidade de habitá-lo quase nunca é percebida.

Infelizmente a ideia de solidão que se popularizou está relacionada à inquietação, ao desejo de ser útil a alguém e aos isolamentos impostos, sendo ela hoje vista como uma das maiores causas de depressão e dos distúrbios de ansiedade.  A ideia de solidão enquanto algo positivo acaba assim parecendo absurda, impossível, principalmente porque a vida corrida e o contato exaustivo com o outro  (principalmente no virtual), nos levam a negligenciar todos os dias qualquer tipo de experiência singular. Lamentavelmente fomos condicionados a manter uma relação mais íntima com o nosso interior apenas em momentos de separação e luto, quando a saúde mental já está fortemente abalada.

Bom mesmo era que pudéssemos vivenciar a solidão por escolha, conscientemente, seguindo assim em direção ao campo da autopercepção, onde é possível gritar livremente: eu me suporto.

Já a pessoa solitária corre em uma direção bem diferente, em um campo que lembra bastante um labirinto. Você pode estar solitário em uma grande festa, rodeado de amigos e até mesmo ao lado da pessoa por quem acredita ser apaixonado. O solitário voluntariamente escolhe dizer não ao outro e esse processo de negação é geralmente alimentado por dois fatores:

  1. falsa sensação de liberdade.
  2. fuga daquilo que representa uma ameaça.

É comum ouvir dos amigos coisas como: vou me afastar, eu preciso ficar sozinho, vou sair das redes sociais, não poderei participar do grupo. Essas afirmações, legítimas e importantes, sinalizam antes de tudo uma revolta do indivíduo contra qualquer tipo de autoridade. A ideia de se retirar do mundo causa uma sensação temporária de desafogamento, é como se você, por um momento, fosse até a superfície respirar, fugindo do seu maior inimigo, ou seja, de você mesmo. Passado esse suspiro, logo vem uma nova onda, a imersão, a continuidade de um ciclo interminável. O que parecia significar libertação logo assume o papel de lacuna, um espaço que na verdade é o local de morada de tudo aquilo que nos atormenta.

Correr na direção contrária dessa maneira gera, na maioria das vezes, mais ideias obsessivas e mais compulsão.  A solidão não é um parêntese, é um estado de permanência, reconhecível e habitável. Ela pode nos ajudar a perceber que ser reconhecido e aprovado pelo outro não deve ser o nosso objetivo de vida, que é normal estranhar a si mesmo, assumindo honestamente as vulnerabilidades e fragilidades que fazem parte do existir. Ao contrário do que possa parecer, a solidão não anula a presença do outro, nem significa o controle total da sociabilização, pelo contrário, ela significa uma reordenação do eu; em poucas palavras algo como: cuide do seu interior, olhe para dentro e perceba de que maneira você pode se descontaminar.

A solidão não é um parêntese, é um estado de permanência, reconhecível e habitável.

Ter a oportunidade de experimentar a si mesmo, não reproduzindo aquilo que nos empurra coercitivamente é, em essência, viver a solidão. Quando você tira um tempo para ler ou para ir ao cinema sozinho, você está experimentando um pouco desse tipo de solidão, se habitando com coisas novas, criando, recuperando certas feridas e consequentemente construindo e reconstruindo novos laços afetivos. Duas pessoas acostumadas com esse tipo de solidão, por exemplo, podem construir uma relação saudável, já que cada uma delas sabe habitar o seu próprio mundo.  Diante do ano repleto de problemas que teremos, abraçar a solidão, ampliar a nossa percepção sobre as coisas e dilatar a nossa capacidade de imaginação, pode nos impedir, parcialmente, de nos privarmos daquilo que faz parte da nossa própria natureza. Esse é, sem dúvida, o melhor presente que podemos nos dar.

Ilustração Anna Parini

Raphael é professor, formado em Ciências Econômicas, Letras e atualmente se dedica ao mestrado em Educação. Escreve sobre música, comportamento e cinema. É apaixonado por Twin Peaks, playlists e quase sempre pelos amigos | Para segui-lo no Twitter: @RaphaelAlves

  • Marcos Lima

    A Solidão é companheira dos que não tem companhia ! Talvés seja por isso que os mestres do folclore tem uma ninhada de filhos e nunca ficam só. Sr. Raphael, viver na solidão não tem filho da peste que aguente. Se for rico ou explode a cabeça ou a chamada depressão. Se for pobre o ostracismo vai leva-lo aos dos sete palmos. Matéria bem escrita, matéria de primeira, talvés tenha faltado ao jovem amigo um estágio bem longe dos amigos da familia e do mundo, para sentir o gosto amargo da solidão.

    • Raphael Alves

      Oi Marcos, entendo e concordo com o que vc diz, mas o texto propõe uma ressignificação da ideia de solidão, olhando essa palavra por um outro espectro. Tentei dizer que ela pode ter um lado positivo apesar da cultura ter nos empurrado a ideia que ela representa isolamento e fracasso. Um abração.

  • Felipe Dionísio

    Esse foi um dos melhores textos que li esse ano, parabéns Raphael e que gracinha vc.

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