CONSCIÊNCIA COLETIVA

Alabama: pedofilia, corrida ao senado e o voto dos negros

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“Redneck”, que em tradução literal significa “pescoço vermelho”, é um estereótipo e uma caricatura do americano branco, caipira e de baixa escolaridade que trabalha em plantações nas áreas rurais e normalmente possui uma visão de mundo conservadora: uma coleção de armas em casa e pouca simpatia por grupos sociais minoritários. O Alabama, um dos estados mais atrasados e pobres dos Estados Unidos, sempre esteve associado ao conceito de redneck e costuma ser olhado com certa desconfiança por estados do norte mais liberais. E a eleição especial para o Senado de 2017, após Donald Trump indicar o incumbente da cadeira para o cargo de Procurador-Geral, parecia ratificar a ideia de que o Alabama seria um local parado no tempo e em dissintonia com o resto do país.

De um lado, o favorito republicano Roy Moore, típico político representante do americano branco de baixa escolaridade: Moore, quando membro do Judiciário, tentou banir o casamento gay do Alabama, deu declarações sobre o “glorioso passado” dos Estados Unidos quando a escravidão ainda existia e se autoproclamava “Juiz dos Dez Mandamentos”. Seus valores pareciam estar de acordo com o que a população do Alabama esperava de um senador. Seu adversário era o democrata Doug Jones, promotor aposentado, conhecido por conseguir condenar dois membros da Ku Klux Klan que incendiaram uma igreja e mataram quatro garotas negras. Jones, ao contrário de Moore, defende valores liberais no campo do comportamento, sendo a favor da legalização do aborto – no Alabama só é permitido em caso de risco de vida da mulher – e de direitos LGBTs. A ideologia do candidato democrata encontrava resistência em um lugar em que há mais de vinte anos elege apenas republicanos conservadores. Um típico “red state” (estado vermelho, cor do Partido Republicano).

Roy Moore, entretanto, foi envolvido em um escândalo de assédio sexual contra mulheres e de ter mantido relações sexuais com uma garota de 14 anos. Após as revelações que envolviam pedofilia, até alguns líderes do Partido Republicano decidiram retirar o apoio ao candidato. Todavia, Moore continuava sendo o preferido entre o eleitorado do Alabama. Ainda que algumas pesquisas de intenção de votos mostrassem que Doug Jones estava se tornando um pouco mais competitivo, o favoritismo ainda era do juiz ultraconservador. A mídia americana e o resto do país acompanhavam meio atônitos o que parecia ser o caminho de Moore para a vitória. “O Alabama sempre será o Alabama”, alguns diziam. Ser favorável ao aborto parecia ser mais reprovável do que ser pedófilo.

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Donald Trump resolveu então se envolver na disputa e começou, como sempre, a disparar ataques no Twitter conta Doug Jones: o democrata foi logo chamado pelo presidente de marionete da cúpula do Partido Democrata. A medida que a campanha avançava, as pesquisas ficavam mais dúbias e confusas, havia certa mudança no humor do eleitor, mas Moore era a aposta de boa parte do mercado financeiro como favorito para vencer o pleito no dia 12 de Dezembro de 2017. O envolvimento de Trump diretamente na campanha, porém, acabou nacionalizando a eleição e os olhares dos Estados Unidos começaram a ir em direção ao estado.

Doug Jones

Até o dia das eleições, porém, ninguém acreditava que seria possível uma vitória democrata. No mesmo dia, aliás, a universitária Katie Kirk escreveu um artigo no New York Times intitulado “It´s Pretty Crazy to Be a Young Woman in Roy Moore´s Alabama”. A estudante admite que, embora cristã, fica chocada com o apoio que o então candidato Moore tinha, até entre amigos e familiares, mesmo diante das acusações de pedofilia. Katie Kirk argumenta que os eleitores deveriam separar valores morais de política e brinca com o fato do estado ter virado um swing state – que muda de partido a cada votação.

A surpresa viria mais tarde quando as urnas foram fechadas e a apuração começou: com uma margem apertada e uma virada apenas no final, o então favorito Roy Moore havia sido derrotado pelo liberal e progressista Doug Jones. Mesmo com Donald Trump acusando Jones de ser uma ameaça aos valores tradicionais do Alabama. As zonas rurais, boa parte do estado, como o esperado, escolheram Roy Moore. Os centros urbanos e as cidades universitárias, todavia, optaram por Doug Jones, mas o que impressionaria seria o apoio de mais de 90% da população negra ao candidato democrata. Não apenas pelo voto ser facultativo nos Estados Unidos ou o pleito ocorrer em um dia útil, mas pelo histórico da conquista do direito de votar no estado.

Até 1965, os negros não conseguiam votar no estado do Alabama. Como não conseguiam exercer o direito ao sufrágio, também não podiam fazer parte de júri. Funcionários públicos brancos exerciam enorme poder e pressão para evitar o cadastramento eleitoral de negros. A garantia ao direito do voto seria o ponto de ebulição das Marchas de Selma a Montgomery no Alabama, que viria a ser conhecida também como “Domingo Sangrento”. A participação de Martin Luther King junto ao Movimento Negro foi essencial para o sucesso dos protestos, apesar da repressão do então governador George Wallace, que culminaria com a Lei do Direito do Voto sancionada pelo presidente democrata Lyndon Johnson.

A segregação racial no sul americano, uma das mais latentes feriadas não cicatrizadas da Guerra da Secessão, ainda pode ser vista em 2017, desde bandeira dos estados confederados, que defendiam a escravidão até a própria situação estrutural do negro americano. George Wallace, então governador do Alabama durante as marchas de Selma, viria a ser inclusive candidato à presidência dos Estados Unidos em 1968 defendendo a separação entre negros e brancos. Wallace venceria justamente nos estados do sul: Alabama, Georgia, Mississipi, Louisiana e Arkansas. Martin Luther King, Nobel da Paz e hoje feriado nacional nos EUA, seria assassinado exatamente no mesmo ano do triunfo de Wallace nos estados do sul.

Tão logo o resultado da vitória de Doug Jones foi anunciado, muitos analistas disseram que o voto negro foi essencial para o triunfo democrata e outros diriam que os negros salvaram o país de ter um senador acusado de pedofilia em Washington. Vários ativistas do Movimento Negro rebateram os argumentos, dizendo que o Partido Democrata apenas procura os negros quando precisa derrotar algum republicano ultraconservador. O ativista Michael Harriot do The Root, por exemplo, afirmou que o establishment democrata esquece a situação dos negros no país sempre que as eleições passam.

O voto da população negra americana foi essencial não apenas para Doug Jones, mas também para as campanhas de Barack Obama em 2008 e 2012. E a falta de envolvimento e empatia de Hillary Clinton com os negros foi mais um fator que pode ter ajudado na derrota da ex-senadora em 2016, embora historicamente, nas últimas décadas, os negros votem, em sua maioria, nos democratas. Clinton foi a escolhida dos negros, mas não empolgou o eleitor ao ponto de fazê-lo sair massivamente de casa para votar. Trump, por outro lado, foi bastante bem recebido pelo eleitor redneck.

As marchas promovidas em 1965 para garantir o direito de sufrágio aos negros foi adaptada pela cineasta Ava DuVernay em “Selma – Uma Luta Pela Igualdade” (Selma, 2014). DuVernay acertou bastante no tom político dado ao filme, inclusive mostrando a demora do presidente Lyndon Johnson em propor uma nova legislação como propunha Martin Luther King com o objetivo de evitar o que vinha acontecendo no Alabama. Luther King é brilhantemente interpretado por David Oyelowo. “Selma” inclusive viria a ser indicado ao Oscar de melhor filme e venceria a estatueta na categoria melhor canção original com “Glory”, mas a Academia receberia duras críticas por ter esquecido o elenco e a diretora nas categorias principais. DuVernay, por sinal, filmaria mais tarde o documentário “A Décima Terceira Emenda” (13th, 2016) sobre como o sistema prisional americano reflete as desigualdades de oportunidades entre negros e brancos no país.

Entender as marchas de 1965 pelo direito do voto no Alabama é essencial para entender a importância do voto dos negros na vitória de Doug Jones em 2017. E a derrota de Roy Moore aponta para a possibilidade, cada vez mais concreta, do Partido Democrata conquistar a maioria no Congresso nas eleições do ano que vem. Caso isso ocorra, Trump, enrolado nas investigações do FBI sobre seu envolvimento com os russos e com as acusações de assédio sexual, pode nem chegar até 2020. E caso chegue, os democratas podem, ao menos tentar novamente embalar sua base eleitoral para retirar o ex-apresentador de reality show da Casa Branca. Mas dessa vez, sem esquecer o eleitor passada a campanha.

Leandro é jornalista por formação e estudante de Cinema e Audiovisual pela UFPE. É cinéfilo desde a infância e tem interesse por debates sobre identidades culturais. É fã de música new wave e sintetizadores em geral, novelas de Gilberto Braga e acredita que Madonna é a única messias possível | Para segui-lo no Twitter: @leandro_gantois

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