CONSCIÊNCIA COLETIVA

Romances de formação depois dos 20? Sim ou com certeza?

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O que Harry Potter, Percy Jackson e Jogos Vorazes têm em comum? Bem, muita coisa, né? Além de serem séries de livros que fizeram muito sucesso entre adolescentes e crianças, e que geraram uma renda absurda também para o cinema através deste mesmo público, trazendo notoriedade para uma nova geração de atores e de autores, estas séries de livros podem ser considerados bildungsroman.

E o que é isso?

A palavra alemã bildungsroman é utilizada dentro do escopo literário para falar sobre “romances de formação”: nestas obras, temos a jornada de um personagem central que inicia a história com alguns problemas, e vai se adaptando a eles da forma como sabe, até conseguir chegar em um patamar de maior maturidade, e vemos assim o desabrochar do personagem como pessoa. Em geral, estes romances se passam a partir da pré-adolescência do personagem até o início da fase adulta, mas isso não é uma regra. O que acompanhamos, na realidade, é esse processo de descobertas, decisões (erradas e/ou certas) e caminhos que nos leva (eventualmente) a uma maturidade sobre a vida.

OU SEJA, as histórias de Harry, Katniss, Percy, além de tantos outros, são sim consideradas bildungsroman. O que significa dizer que você, caro leitor, se leu ou acompanhou alguma (ou todas) estas séries, você curte sim um “romance de formação”, porque gosta de ver as pessoas se desenvolvendo enquanto seres humanos que são. Então, se leu até aqui, não adianta dizer que “não gosta de ler”, e que “ler é chato”.

Essa mentalidade vem do sistema educacional arcaico ainda bastante presente nas nossas escolas, que faz da leitura uma obrigação ao invés de um prazer. Junta-se a isso o fato de as famílias não incentivarem leitura em geral, também porque meios de comunicação em geral não o fazem. Assim, aqui estou eu para dar esse empurrãozinho.

Apesar da grande quantidade de informação que a tecnologia nos traz, eu não consigo pensar em nada melhor para se ler do que um bom livro. Com ele, você consegue ver outros pontos de vista e tecer comentários críticos sobre o que é a vida e como fazer o melhor pra vivê-la.

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Os “romances de formação” fizeram parte da minha vida e me ajudaram muito nesse processo – apesar de, teoricamente, eu já não estar “em formação” quando li grande parte dos meus preferidos, porque eu já era bem grandinho. Falo teoricamente porque, olha, estamos a todo momento em formação, incessantemente, e mesmo quando estiver com 70 anos ainda continuarei mudando – por isso, acho imprescindível que a leitura desses bildungsroman aconteça durante toda a vida (inclusive a releitura deles).

Resolvi então fazer uma lista com os meus preferidos destes últimos 5 anos, e explicar um pouco sobre cada um deles. A lista está em ordem de gosto mesmo. 

7.  As Aventuras de Huckleberry Finn: é o único bildungsroman do século XIX da lista, foi escrito pelo Mark Twain, e cuja primeira indicação de existência, pra mim, foi em um filme da Emma Stone. Assim, li as aventuras pelas quais Huckleberry e seu amigo Jim passaram, e apesar de ser um livro longo, me fez perceber inúmeras peculiaridades do século onde se passava a história – principalmente o racismo. É um livro a ser lido com cuidado, mas que pode trazer muitas reflexões acerca de como vemos x outrx, e ver Huckleberry conseguir atingir determinada maturidade ao final da história é bastante gratificante.

6. O Senhor das Moscas: Escrito no século passado pelo escritor inglês William Golding, o romance fala da história de vários garotos com idade entre 5 e 14 anos perdidos em uma ilha deserta, sem a presença de um adulto. O autor faz questão de frisar o instinto animal latente dentro de cada um, em conjunto à natureza social à qual estamos acostumados, levando o leitor a um caminho onde, por vezes, esquece-se que aqueles personagens são crianças. O texto lida muito com bullying e com o desrespeito às minorias, no geral – e faz o leitor pensar sobre como estas minorias conseguem conviver em sociedade.

5. O Apanhador no Campo de Centeio: Romance de maior sucesso do autor americano J. D. Salinger, centra-se na jornada de poucos dias do garoto Holden Caulfield – mas, dentro do livro, parece que vivemos cada segundo junto a ele. E é uma jornada extensa, onde pode-se perceber com clareza todas as mudanças de humor de um adolescente que deseja, apenas, fazer algo por si próprio uma vez na vida. O livro foi banido de escolas americanas devido à linguagem mais dura e aos temas obscuros, e muitos atiradores e assassinos já se referiram ao livro como motivação para terem feito o que fizeram. Eu li o livro e, até agora, não matei ninguém – apesar da vontade ter aumentado, sim. O livro desperta, exatamente, a revolta em relação à conformação de uma sociedade que tolhe ao invés de acolher – talvez por isso a curiosidade tão grande acerca dessa obra.

4. As Vantagens de Ser Invisível: Lançado no finalzinho do século passado, o livro de Stephen Chbosky fala, também, sobre não sentir-se bem dentro do padrão ditado pela sociedade – um sentimento bastante comum entre adolescentes e, por que não, adultos também. A história de Charlie, no início com 13 anos, é permeada por vários momentos de provação e de alegria, quando ele finalmente encontra em um grupo de amigos um nicho no qual ele pode ser ele mesmo – tudo isso através de páginas de diário. A obra lida com temáticas tais como o bullying, a misoginia, a homossexualidade (e seus problemas dentro de um ambiente escolar), e até mesmo a pedofilia – e cita o próximo livro da lista.

3. O Sol É Para Todos: Primeiro romance de formação que eu li escrito por uma autora, a Harper Lee, ele conta a história de Scout, e sua família, principalmente seu pai, Atticus Finch, em meio à população de uma cidade do sul norte-americano durante a Grande Depressão do início do século XX. O livro é muito relevante, até os dias de hoje, em escolas dos Estados Unidos, e é um dos pioneiros a abordar o tema do racismo tão abertamente. Atticus Finch é um personagem exemplar que leva Scout (e também o leitor) a refletir sobre a maneira como tratamos os outros, demonstrando a injustiça com a qual a sociedade lida com aqueles diferentes da maioria. Um livro excelente, com frases célebres, tais como “Se só existe um tipo de gente, por que as pessoas não se entendem? Se são todos iguais, por que se esforçam para desprezar uns aos outros?”

2. Homem Invisível: Esse livro do Ralph Ellison foi lançado em 1952, e fala exatamente sobre racismo, puro e claro, depois do fim da escravidão e a aparente “liberdade” que os negros tinham (e ainda tem, de certa forma) depois de passarem por tantas agruras. O narrador não tem um nome, mas fala de sua jornada desde jovem, quando sonhava em entrar na universidade e ser levado a sério como alguém importante no meio acadêmico – para tanto, precisou participar de uma “batalha real”, onde lutou com outros meninos negros por moedas em um cercado eletrificado. A partir disso, ele começa a perceber, e assim o diz ao leitor, que tudo não passa de ilusão, e que nenhuma jornada pela qual passou valeu a pena, devido à frieza da sociedade. O texto é permeado de metáforas e imagens belíssimas e tristes, que fazem o leitor sentir verdadeiramente o que aquele personagem sente.

1. A Cor Púrpura: O livro de Alice Walker pode ser considerado um bildungsroman feminista, permeado de altos e baixos, descobertas e alegrias de Celie, cujas cartas nos fizeram perceber ser alguém que iniciou sua vida em meio a muito sofrimento, e que ao passar do tempo conseguiu, através de muita força interna, mostrar seu lugar dentro da sociedade. As temáticas do livro são inúmeras, e levam o leitor a viver a vida de uma menina negra “diferente” nascida ao início do século XX no sul estadunidense, a partir do seu próprio ponto de vista, sempre permeado por várias imagens metafóricas belíssimas, trazendo esperança e horror em momentos distintos, mas sempre deixando-nos na torcida de que a vida de Celie torne-se cada vez melhor.

Como dá pra perceber pelas descrições, o bildungsroman pode ajudar muita gente a enxergar uma série de coisas que eles não veem, seja aos 12 ou aos 62 anos. Muitos de nós podemos observar características nossas numa Celie, ou num Holden, num Huckleberry, ou ainda num Charlie – qualquer personagem que não se conforme com o caminho que lhe é dado, mas que queira fazer o seu próprio caminho. O romance de formação ajuda imensamente nessa jornada de autodescoberta, que acaba se tornando prazerosa e divertida.

Professor de inglês e problematizador 24h por dia, ainda tem um pezinho na insegurança que insiste em lhe rodear. Já foi fã de Xuxa, de Sandy e Júnior e de Britney Spears - hoje se acha muito cult por ser fã de Rachel Bloom. É o que tem pra hoje, né?

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