CONSCIÊNCIA COLETIVA

Corpo e Alma, o que achamos do representante húngaro na corrida para o Oscar

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Review

Nota de Cezar
9/10
Média
9.0/10

É muito bom quando vamos ao cinema e nos deparamos com algo bem inteligente e criativo. O filme Corpo e Alma nos brinda com isso. Pena que ele corre o risco de passar ao largo desse mercado dominado por blockbusters e tenha sua estreia eclipsada por Star Wars.

O longa conta a história de duas pessoas que se conectam através de seus sonhos, porém, de uma forma bem incomum. Toda noite eles sonham que são cervos, se encontram numa floresta e mantém uma relação quase amorosa, porém durante o dia são completos estranhos. E esse é o pano de fundo para contar uma história de amor bem diferente, com protagonistas bem distantes um do outro (e não estou falando geograficamente, pois ambos trabalham na mesma empresa) e bem estranhos também. Mária (Alexandra Borbély) e Endre (Morcsányi Géza) trabalham num abatedouro. Ele é o diretor financeiro, ela acaba de ocupar o cargo de inspetora de qualidade. O que ambos têm em comum é a dificuldade de se relacionar com outras pessoas. Ele tem um braço paralisado e vários traumas de relacionamentos passados, e por isso, pouquíssimos amigos. Ela tem dificuldade de falar, tocar as pessoas e apresenta traços obsessivos-compulsivos.

É no plano lúdico que as barreiras criadas pelos personagens começam a cair, e quando transportados para o plano real, vamos conhecendo esses personagens, percebendo de perto como viver é difícil para os dois. O mais interessante nesse processo, é que nos sonhos não acontece nada extraordinário. Os animais apenas ficam juntos e fazem coisas banais juntos. Mas a partir do instante em que o casal passa a ter conhecimento um do outro, essa relação passa a ter um peso nas suas vidas. De modo que eles acabem mudando os seus hábitos cotidianos na tentativa de fazer com que o sonho dure cada vez mais. Vale ressaltar o contraponto entre esses planos. Quando vemos o sonho, o cenário é belíssimo, com cenas bem delicadas. Já a vida real é retratada de forma bem dura e cruel, com tomadas bem fortes, como o abate do gado, onde o sangue jorra na tela.

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A diretora Ildikó Enyedi (que também escreve o roteiro) utiliza vários recursos interessantes para narrar a história. Inúmeros close-ups para captar as sensações dos personagens. Cenários frios e pouco criativos, quando no plano real, e um cenário lindo quando no sonho. Cortes rápidos e um humor muito refinado para apresentar os problemas de relacionamento dos protagonistas.

O mais interessante é que mesmo diante de muitas dificuldades, percebemos que ambos, de fato, buscam o amor. Cada um a sua maneira. Isso pode parecer um clichê, e o é, caso estivéssemos diante de um filme apenas romântico. Mas a forma como a diretora conseguiu tirar o lugar-comum do clichê é digno de nota. Sabemos como o filme vai terminar, mas a forma como isso foi mostrado ao espectador é surpreendente. Sim, temos uma reviravolta no final, que deixo para que vocês mesmos descubram.

O filme é o representante da Hungria na próxima corrida do Oscar, e coloca bastante pressão nos seus concorrentes ao apresentar um trabalho técnico muito bom, um roteiro inteligente e criativo e uma narrativa extremamente agradável. Em suma, um ótimo filme.

Recomendo fortemente.

Abraços.

Cézar é economista de formação e fã de quadrinhos por opção. Escreve e participa de vídeos e podcasts sobre cinema e Hqs. É fã ardoroso de Batman, Neil Gaiman, Edgar Alan Poe, Morrissey e Nina Simone. Publica reviews de filme mensalmente | Para segui-lo no Face: /cezar.vasconcelos.1

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