CONSCIÊNCIA COLETIVA

Seria a felicidade o produto mais consumido no Natal?

em Comportamento/Novidades/Opinião por

Dezembro chegou trazendo os enfeites característicos, luzes de Natal, lojas cheias de gente estourando cartões de crédito, confraternizações infinitas e lares cada vez mais abarrotados de coisas que, inevitavelmente serão substituídas e jogadas fora. Crianças são as mais vistas em shoppings e praças temáticas, porque não se pode deixar morrer o espírito natalino, ou seja, a fome pelo consumo. Já não bastasse as obrigações diárias da vida comum, ainda temos que preparar a casa para receber a tradicional família, seus desafetos mais antigos e toda aquela convenção e tradição de estampar um sorriso amarelo para aqueles que fingimos estar felizes por rever. Não é uma regra, mas vemos muitos fingirem afeto e solidariedade para postar uma foto na rede social, principalmente no fim de ano.

Venho refletindo sobre como essa época do ano mexe com nossos ânimos, prestando atenção aos sinais do corpo e da mente: comecei a observar que fico mais ansiosa do que o normal, coração acelerado e uma sensação de estar no limite como se esperasse algo extraordinário acontecer e o tempo de fazer todo o planejado fosse o agora. Temos a mania de fazer roteiros para nossa existência, na ilusão da vida seguir algum script. As tarefas e demandas são as mesmas de outros meses do ano, mas o imediatismo da “reta final” sobrecarrega ainda mais a rotina, que se agrava com a pressão do consumo natalino e a obrigatoriedade de estar (parecer) feliz e realizado, mesmo que, na realidade, estejamos saturados com as desilusões de uma vida imperfeita e frágil.

Temos que nos mostrar acostumados e conformados com as falhas de uma cidade que não oferece condições básicas de ir e vir, com as violências diárias e com o automatismo de uma vida plástica que se alimenta de aparências. Dias, meses e anos servem na prática para contabilizar os acúmulos materiais, o saldo de produção, a renda per capta, o crescimento populacional, a destruição do homem.

Leia Também >>> Nosso absurdo virou entretenimento?

Os filmes e propagandas vendem uma época que não existe; na verdade, a alegria automática de juntar a família é como uma forma de aliviar nossa culpa e fazer lembrar que temos sentimentos e emoções. Na prática, usamos tais sentimentos e emoções em função de consumir algo: não amamos o Natal por representar renascimento e renovação, mas por ser mais um motivo de comprar algo. Percebo que a apatia é aparentemente maquiada pelas cores natalinas e as luzes ofuscam o que verdadeiramente sentimos em dezembro, cansaço físico e psicológico.

a alegria automática de juntar a família é como uma forma de aliviar nossa culpa e fazer lembrar que temos sentimentos e emoções.

Planos são sempre para depois, as famosas listas de realizações são um lembrete de um ano inteiro em função de produzir e acumular e, de quebra, trazer as cobranças de ser bem-sucedido, bonito, saudável e feliz. Felicidade não é só uma questão de ser enquanto pessoas não têm condições dignas de subsistência. Felicidade requer barrigas cheias, higiene em dia e proteção social pelo Estado e por um lar equilibrado, requisitos básicos negligenciados. Os mesmos problemas voltarão depois das festas, a não ser que as mudanças sejam em nosso interior e que as prioridades sejam o bem-estar social e não apenas pessoal.

Natalia é professora de formação. Escreve sobre política e comportamento. É apaixonada por literatura, arte e educação | Para segui-la no Instagran: @nataliasouzarb

Último post de Comportamento

Ir para o Topo
Pular para a barra de ferramentas