CONSCIÊNCIA COLETIVA

Flashdance como símbolo da era Reagan

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O estado da Pensilvânia, tradicional reduto do Partido Democrata, ajudou a selar a vitória do candidato republicano Donald Trump nas eleições presidenciais americanas de 2016. A mudança no perfil do eleitor pode ser explicada pelo declínio das indústrias de aço, especialmente na cidade de Pittsburgh, com a intensificação do processo de globalização nas últimas décadas e pela fuga dessas indústrias para países periféricos. O mesmo, aliás, aconteceu com a produção automobilística de Michigan, especialmente em Detroit, outro estado que preteriu a candidata democrata Hillary Clinton. Trump utilizou na campanha um discurso contra a globalização e o livre mercado que encantou a working class americana que perdeu a segurança de seus empregos com as alterações na economia global. Se tivesse continuado na indústria siderúrgica, Alex, interpretada por Jennifer Beals e protagonista de “Flashdance” (1983), possivelmente acabaria optando em 2016 por Donald Trump.

Mas estamos na Pittsburgh de 1983, no primeiro mandato de Ronald Reagan. E Alex acorda de manhã para ir de bicicleta ao trabalho enquanto Irene Cara canta “What A Feeling”. O mundo é feito de aço e pedra, diz a canção tema do filme que viria a ser premiada com o Oscar. Além do árduo trabalho como operária, Alex ainda atua como dançarina em um clube masculino, embora seu sonho seja se tornar uma bailarina profissional. Alex é uma típica working class com baixa qualificação profissional que almeja subir de vida. A personagem pode ser vista como um grande símbolo da Era Reagan, marcado pelo liberalismo econômico, e sua construção e desenvolvimento está inserida dentro da ideia do self-made woman, ou seja, o indivíduo autônomo que vence na vida através do mérito próprio e em tese sem ajuda de terceiros ou do Estado. Lembrando que ao assumir a presidência, Ronald Reagan cunhou a famosa frase “o Estado não é a solução, o Estado é o problema”. Alex, dessa forma, encarna os valores dos anos 80 ratificados pelo presidente Reagan. Ironicamente, o modelo de economia proposto por Reagan seria o responsável pela desindustrialização de cidades como Detroit e Pittsburgh.

O lançamento de “Flashdance” está inclusive bastante ligado a outros dois símbolos da década de 80: a MTV e o videoclipe. A emissora americana havia sido lançada dois anos antes do filme em 1981. E a estética do videoclipe pode ser percebida durante toda a obra – desde o encadeamento de músicas, em alguns momentos de forma diegética, até a montagem frenética cheia de cortes. No filme, a diegese musical, ou seja, a ambientação sonora percebida tanto pelo personagem como pelo expectador, não está em um número no qual os personagens cantam ou transformam o diálogo em uma canção. Em geral, esses momentos acontecem quando as dançarinas ligam um aparelho de som, eventualmente com o uso de uma fita K7, e começam a dançar. Um bom exemplo pode ser percebido enquanto as personagens malham ao som de “I Love Rock n’ Roll”, que é editada como se aquela sequência fosse, na verdade, um videoclipe ligado ao single. A montagem, aliás, também está conectada ao mesmo tipo de estética: são inúmeros cortes frenéticos que raramente mostram a dançarina completa no plano. São cortes rápidos dos pés, mãos e cabeça. Ou seja, nada de Gene Kelly, Fred Astaire, Judy Garland ou Leslie Caron compondo o quadro inteiro. Jennifer Beals aparece picotada na montagem, até mesmo como efeito para não demonstrar que a atriz não está dançando realmente, pois Beals não possuía talento com a dança, tendo sido substituída em vários momentos por uma dublê. Esse truque dos cortes rápidos, por sinal, seria usado a exaustão em videoclipes e filmes musicais futuros.

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Essa montagem rápida com planos muito curtos seria não apenas uma marca dos videoclipes como da direção do cineasta britânico Adrian Lyne. Lyne inclusive tem formação publicitária, talvez por isso seus filmes parecem, as vezes, meras propagandas de algum utensilio doméstico. Após o sucesso comercial de “Flashdance”, o diretor ainda faria mais dois filmes marcantes da cultura pop da década de 80: “Nove e Meia Semanas de Amor” (1986) e “Atração Fatal” (1987). Na primeira obra, Lyne repetiria a mesma montagem de videoclipe e de comercial de produtos de linha branca de “Flashdance” com Kim Basinger e Mickey Rourke vivendo um romance erótico moralista para senhoras distintas. Já “Atração Fatal” ratifica e naturaliza a violência misógina do personagem de Michael Douglas com a Glenn Close ao abordar o adultério masculino. Mais tarde, Adrian Lyne enfrentaria resistência com feministas por causa da trama central de “Proposta Indecente” (1993). E repetiria seu moralismo fatalista habitual na adaptação de “Lolita” (1997) de Vladimir Nabokov, sem o humor de Kubrick, e em “Infidelidade” (2002), um remake meio kitsch de “A Mulher Infiel” (1969) de Claude Chabrol.

“Flashdance”, anos mais cedo de suas outras obras, já evidenciava o olhar moralista do diretor britânico, que costuma fazer uma defesa do casamento como instituição indissolúvel e uma condenação dos personagens que fazem algum tipo de sexo casual em sua filmografia. Chega até ser curioso em “Flashdance” que Alex, uma jovem de 18 anos, vai inúmeras vezes até o padre se confessar por ter pecado ao pensar de forma sexual no chefe alguns anos mais velho. Por sinal, embora seja construída como uma self-made woman, Alex vai sendo empurrada para o casamento com o dono da siderúrgica como uma forma de subir na vida e poder realizar o sonho de ser uma bailarina, o que demonstra certa ambiguidade na trama. Outra dubiedade pode ser constatada na música “Manhunt”, que diz “vou inverter a situação, as mulheres eram caçadas, agora são caçadoras”, mas que é performada pela personagem da Cynthia Rhodes em um clube de stripper.

Por sinal, é possível dizer que pelo caráter publicitário e de videoclipe, “Flashdance” possui um forte apelo comercial para vender os singles ligados ao filme. O que parece demonstrar certa inversão na lógica da indústria cinematográfica se for comparar à época dos grandes musicais que arrastavam massas para as salas de cinema como os filmes de Vincente Minnelli nas décadas de 40 e 50 ou até em sucessos posteriores da década de 60 como “My Fair Lady” (1964) e “A Noviça Rebelde” (1965). A trilha sonora, composta com ajuda do músico e DJ italiano Giorgio Moroder, fez um enorme sucesso com hits populares até hoje, como “What A Feeling”, “Maniac” e “Lady, Lady Lady”. Singles recheados de sintetizadores que passaram a fazer parte de certo imaginário popular e que podem ser escutados até hoje em baladas LGBTs às cinco da manhã. “Flashdance”, vale ratificar, faz parte de um grupo de musicais da década de 80 que ficou meio datado e menos relevante do que sua trilha sonora. Talvez tão datado quanto as indústrias automobilistas e siderúrgicas americanas que fizeram a working class dos Estados Unidos ser seduzida pelo discurso de Donald Trump.

Leandro é jornalista por formação e estudante de Cinema e Audiovisual pela UFPE. É cinéfilo desde a infância e tem interesse por debates sobre identidades culturais. É fã de música new wave e sintetizadores em geral, novelas de Gilberto Braga e acredita que Madonna é a única messias possível | Para segui-lo no Twitter: @leandro_gantois

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