CONSCIÊNCIA COLETIVA

O que estamos chamando de vida real?

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Acho interessante a expressão que usamos para nos referir à realidade nua e crua, à racionalidade das coisas ou então a qualquer outra coisa que não seja devaneio, fuga ou ficção: vida real.

Sua criação e seu uso me parecem advindos da “necessidade” que muitos de nós temos de ir adiando nossas vidas, de não se entregar totalmente a ela. Acabamos por criar, na tentativa de adiá-la, uma vida de mentirinha, café com leite, como se estivéssemos permanentemente na iminência da vida. Ou como se para viver fosse preciso muito ensaiar.

Mas daí chega a “vida real” para nos avisar que, na verdade, ela já chegou.

Para muitos, ela chega quando se mudam das casas dos pais e passam a assumir responsabilidades. Alguns vão morar em outras cidades por conta do emprego ou da faculdade e têm de, sozinhos, conduzir suas vidas.

Para outros, ela chega quando se casam. Não precisam de um grande amor. Para esses, vida real é divisão de tarefas, funções domésticas e transferências bancárias.

Há os que, ao contrário, passam a viver realmente a partir do instante em que se veem livres de um casamento desgastado e infeliz, seja por divórcio ou viuvez. Há ainda, decididamente, os que passam a vida inteira à espera da chegada de um amor verdadeiro, sem cuja existência a vida não seria vivida realmente.

A vida real pode chegar também através de um filho. Quando ela traz consigo uma outra vida e nos obriga à educação de uma criança. Há os que, ao contrário, teriam suas vidas eternamente adiadas pelo acaso de uma gravidez.

Há os que ficam a esperar pela vida até passarem por um grave infortúnio: uma doença, a perda de um ente querido, uma desilusão amorosa ou recessão financeira. Então decidem viver acreditando que a vida real pode ser menos traiçoeira e acachapante do que aquela até então vivida, nem tão café com leite assim.


Por que só damos valor às coisas na possibilidade da perda?


Tem os que dizem: “A vida começa aos 40, ou aos 50”. E esperam por ela protegidos por suposta maturidade, estabilidade financeira e bagagem intelectual.

Mas fico pensando nos que passaram anos e anos ensaiando suas vidas e não tiveram chance de estreá-las. Ou nos quantos que tiveram de ir adiando suas estreias sob medo de errarem quando estivessem à vera. Jamais saberão sentir na pele a aventura que é a chegada da vida real. Pois quando talvez decidam encará-la, já terão sido bastante escravizados pelo sentimento e sejam incapazes de alforriá-lo.

O nascimento de uma vida é coisa bela. Mais belo ainda é o seu renascimento. Muitos de nós esperam pela chegada da vida por toda uma vida, sem nos darmos conta de que, seja ela frustrada ou triunfal, bela ou traiçoeira, ordeira ou comezinha, acertada ou errante, a vida é sempre real.

E já que não conseguimos evitar os erros que, ao menos, nos demos a chance de renascer mais uma e outra vez, diariamente, quantas vezes forem necessárias, para fazer com que a vida realmente valha a pena.

  • Rebeca Vicky

    Gabriel eu recebi um folder desse blog em um bar do recife antigo e tinha um texto seu lá, corri para ler os outros e estou apaixonada. Manda mais.

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