CONSCIÊNCIA COLETIVA

O Que Achamos: Em Busca De Fellini

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Review

Nota de Carlos
8/10
Média
8.0/10

Esqueça tudo o que você sabe sobre mães superprotetoras e conheça Claire (Maria Bello), que colocou sua filha Lucy (Ksenia Solo) numa redoma construída à base de material muito resistente desde que a menina nasceu, tudo isso para que ela não tivesse que lidar com as dores e os desprazeres da vida e assim trilhasse um caminho inverso ao de sua mãe, que passou por poucas e boas da meninice à juventude.

Passados vinte anos da existência de Lucy, Claire começa a tossir sangue e descobre que abriga dentro de si um câncer em estado muito avançado, sem chance de cura. Depois de saber que está com os dias contados, ela, que aparentemente passou a vida inteira cuidado da filha e esqueceu de estender os cuidados a si mesma, chega, inevitavelmente, à seguinte pergunta: o que será da minha filha sem mim? Numa conversa com sua irmã Kerri (Mary Linn Rajskub), Claire desabafa sobre a falta de preparo da filha para quase tudo na vida, Lucy ouve sem querer e aí se inicia o desenrolar do filme, que é dirigido por Taron Lexton.

Triste, a menina, que vive em Ohio, encontra no jornal uma oportunidade de emprego em Cleveland e, mesmo sem experiência e instruída apenas por algumas dicas da sua tia Kerri, segue em direção à cidade. O transporte que ela usa para chegar a esse destino é uma vespa (um tipo de motocicleta) que, por mais incrível e incoerente que possa parecer, é sua, o que soa bastante estranho se considerarmos a superproteção de sua mãe. Chegando lá, ela, que é rapidamente aceita para ocupar a vaga disponível, descobre que o trabalho não é bem o que estava exposto no jornal, e é nesse momento que faz jus ao ditado “pernas pra que te quero”.

Triste mais uma vez, ela senta numa calçada em frente ao prédio de onde saiu desempestada e recebe em mãos um panfleto-convite para assistir a um festival de cinema em que estão sendo exibidos os filmes do cineasta italiano Federico Fellini. Na ocasião, ela assiste ao clássico La strada (1954), se emociona e começa a nutrir pelo diretor um amor que nasceu à primeira vista, não é à toa que aparentemente coloca a vespa para jogo e retorna a Ohio com vários filmes de Fellini em fitas VHS.

Após devorar as produções do italiano, Lucy coloca na cabeça que precisa conhecer Federico Fellini, e não demora muito para que ela pegue seu rumo numa aventura em direção à Roma, onde reside o cineasta. Uma pessoa que mal colocou o pé para fora de casa durante vinte anos normalmente não agiria assim tão impulsivamente. O caso da nossa protagonista é uma exceção, afinal, depois de ter ouvido a conversa entre sua mãe e tia, ela parecia estar querendo correr atrás do tempo perdido.

Como na vida nem tudo são flores, ela passa por alguns perrengues nessa viagem e nós, espectadores, sentimos a sensação de que ela está passando por muito do que tinha que ter passado em vinte anos se não tivesse permanecido de baixo da saia de sua mãe por tanto tempo. Lucy encontra pedras no meio do caminho, mas também come, bebe, se apaixona e não desiste de ir ao encontro do seu amado cineasta, sonho que ela realiza, mas não do jeito que esperávamos.

Tecnicamente, o filme é dotado de uma fotografia em tons amarelados que deixa tudo muito belo, e a trilha sonora também não fica para trás. O elenco também não deve ser alvo de reclamações, pois todos souberam cumprir muito bem os seus papeis. É certo que há no filme referências aos filmes de Federico Fellini, mas isso eu não pude captar por motivos de ter conhecido o cineasta junto com Lucy. E se tivéssemos que falar em moral da história e afins, eu diria que Em busca de Fellini, além de ser uma espécie de homenagem ao italiano, é uma história que faz uso do drama e do romance para falar um pouco do que há de bom e de ruim nos seres humanos e no mundo. Para além disso, é um filme que quer nos passar a mensagem de que isolar-se num canto jamais será a melhor solução contra as dores e desprazeres da vida. Melhor mesmo é sentir tudo que há para sentir e, aos poucos, ir acumulando preparo e maturidade de sobra para lidar com a vida num futuro próximo.

Henrique é graduado em Letras, professor de Português e futuro jornalista que faz pesquisa sobre metáfora. Escreve sobre e é apaixonado por cinema, literatura, música e afins. Publica reviews de filme mensalmente | Para segui-lo no Instagram: @henrickcarlos

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