CONSCIÊNCIA COLETIVA

O orgulho nosso de cada dia nos dai hoje – mas perdoai nossos julgamentos

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Dentro das inúmeras sessões de terapia pelas quais passei, uma delas me trouxe uma temática inesperada, o orgulho. Inesperada porque nunca me considerei alguém orgulhoso – na verdade, muito pelo contrário, sempre me vi sob uma ótica bastante diferente, pensando no que o outro achava e fazia, vendo o que era melhor aos olhos do outro, e nunca prestando atenção a mim mesmo.

A partir deste fatídico dia comecei a pensar bastante sobre o assunto; afinal, orgulho sempre teve a característica de algo muito bom, na minha opinião. Ora, temos tantos núcleos e grupos que fomentam o conceito de orgulho dentro das minorias sociais – e elas, sempre maltratadas por esta sociedade que encoraja um estilo de vida prioritariamente branco, masculino, heterossexual, cristão e rico, acabam vendo nos tais grupos um ambiente de apoio ao seu estilo de vida e à liberdade que tanto merecem.

Portanto, como poderia achar o orgulho algo ruim, uma vez que é ele que me faz erguer a cabeça apesar de opressão social que sofro por não querer aceitar algo que me impõem? Algumas peças não se encaixavam, e eu acabava não vendo tanto sentido assim nessa minha sessão de terapia, e no que ela quis me dizer.

Decidi então ir ao dicionário. É importante deixar claro que eu DETESTO dicionários, e da forma como eles rotulam e estruturam significantes; enfim, fui ao amigo Google, e lá encontrei algo que me ajudou um pouco neste processo de entendimento do orgulho em minha vida. De acordo com um dicionário, o orgulho pode ser “um sentimento de prazer, de grande satisfação com o próprio valor, com a própria honra”, mas também pode ser um “sentimento egoísta, admiração pelo próprio mérito, excesso de amor-próprio; arrogância, soberba”.

Em se tratando de dicionários, era difícil perceber apenas naquelas duas entradas, extremamente limitadas e praticamente iguais; no entanto, ao parar pra pensar um pouco, acabei percebendo que elas não eram tão iguais assim. E foi daí que me dei conta que, na realidade, a noção de orgulho que eu acreditava ter inicialmente (a primeira) existe bem pouco; essa segunda sempre foi maior dentro da minha experiência de vida.

Digo isso porque, da forma como fui criado pelo mundo ao meu redor, sempre fui levado a crer que deveria ser melhor do que o outro. Que eu estava sempre certo, enquanto aquele diferente de mim estava sempre errado. Que tudo o que eu faço deve sempre ser motivo de glória, enquanto o que o outro faz, ainda que válido para ele, muito provavelmente para mim não faz sentido e não merece atenção.

Trazendo essa noção para um ambiente macro, consigo perceber que determinados grupos sociais agem exatamente da mesma forma. Temos maneiras distintas de pensar, e acabamos, em nome do orgulho de sermos quem somos, colocando-nos em um patamar no qual o outro jamais chegará – o que é extremamente problemático. Por vezes, isso faz com que acreditemos sermos melhores ou piores que os outros, e isso acaba trazendo uma certa noção de que somos especiais; no fim das contas, no entanto, ninguém é melhor do que ninguém.

É importante lembrar que, apesar de não dever existir, essa noção de melhor/pior foi colocada para nós durante a nossa formação como cidadãos e seres integrais; dessa forma, acabamos sim integrando isso tudo no nosso discurso e no nosso estilo de vida – e temos muito a “agradecer” ao sistema no qual fomos criados para viver. Afinal, não é à toa que percebemos que um homem branco, rico, heterossexual e cristão possui inúmeras mais oportunidades na vida do que qualquer um que não se encaixe nestas mesmas identidades sociais – e por não estarmos em algumas (ou todas) dessas identidades, acabamos por vezes nos colocando inferiores a estes que as têm. É como se fizéssemos parte de uma promoção com pontuação cumulativa, onde quanto mais identidades privilegiadas você tiver, melhor você é enquanto cidadão e parte ativa daquela sociedade.

Bem, é assim como os demais querem que nos sintamos, mas não precisamos seguir estes preceitos o tempo inteiro. O que vem agora vai ser bastante clichê, mas é importante ser dito: o orgulho que devemos sentir de nós mesmos deve ser apenas o de sermos felizes por quem somos. Isso implica não nos compararmos a outros, mas sim a nós mesmos. Se pudermos “ter grande satisfação com nosso próprio valor e honra”, podemos sim ajudar no início da construção de uma sociedade melhor. Acredito que isso possa ter início no momento que começamos a perceber que fazemos parte de uma parte da sociedade que possui privilégios, e parte de outra que é rechaçada – mas o importante disso tudo é que estejamos cientes de sermos alguém dentro desse grupo.

O orgulho que devemos sentir de nós mesmos deve ser apenas o de sermos felizes por quem somos.

Não existe exatamente uma solução mágica para que isso aconteça, uma vez que isso tudo está entranhado em nós; isso tem início no momento em que nascemos. O importante, no entanto, é iniciar (e continuar) o caminho do autoconhecimento, sempre observando que sim, vale muito a pena a manutenção daquilo que somos, apesar de todos os pesares advindos da vida em uma sociedade extremamente separatista, preconceituosa e hipócrita. A luta por ser (e continuar sendo) quem somos acontece no dia a dia, e cabe a nós participar dela.

Talvez orgulho seja, portanto, a constante lembrança de que o valor que achamos que temos deve partir de nós mesmos, e não do que os outros nos dizem. Talvez assim possamos viver de forma mais salutar, tanto em sociedade quanto na percepção que temos de nós mesmos. O orgulho que deveríamos ter de sermos quem somos deveria, portanto, ultrapassar uma necessidade de nos mostrarmos melhores que outros – na verdade, o orgulho deveria nos ajudar a perceber que há falhas em todos, e que assim possamos ajudar uns aos outros.

Professor de inglês e problematizador 24h por dia, ainda tem um pezinho na insegurança que insiste em lhe rodear. Já foi fã de Xuxa, de Sandy e Júnior e de Britney Spears – hoje se acha muito cult por ser fã de Rachel Bloom. É o que tem pra hoje, né?

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