CONSCIÊNCIA COLETIVA

O mal-estar na França pós-industrial de Laurent Cantet

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O Festival de Cannes passou 21 anos sem premiar com a Palma de Ouro um filme francês desde que, em 1987, Maurice Pialat venceu sob vaias com “Sob o Sol de Satã” (Sous Le Soleil de Satan, 1987) por ter desbancado o então favorito “Asas do Desejo” (Der Himmel Uber Berlin, 1987) do alemão Wim Wenders. Pialat receberia o prêmio e soltaria um “também não gosto de vocês” contra os autores dos gritos. A França voltaria a ser laureada apenas em 2008 com “Entre os Muros da Escola” (Entre Les Murs, 2008), obra sobre o sistema educacional do país, que jogaria luz sobre a carreira do cineasta Laurent Cantet. Na película, o cineasta, em tom naturalista, cria um ambiente quase claustrofóbico dentro de colégio parisiense com os embates entre o professor François Marin e seus alunos de identidades culturais e etnias distintas. A capital francesa vivia, naquele momento, ainda o desenrolar de agitações sociais que ocorriam nos subúrbios da cidade. Mais do que filmar a sala de aula, a câmera de Cantet parece captar um momento muito específico de ebulição urbana. O cineasta parecia criar uma crônica sobre a França do presente, a França de 2008.

Em “A Trama” (L´atelier, 2017), Laurent Cantet novamente parece pensar a França através de um processo educacional. Na obra, a escritora Olivia Dejazet (Marina Fois) oferece uma oficina de literatura para jovens de uma cidade interiorana marcada pela desindustrialização e sucateamento do estaleiro que empregava boa parte dos moradores. Um dos adolescentes que participam do workshop, Antoine (Matthieu Lucci), é solitário e fascinado por vídeos divulgados na internet com ideologia de extrema-direita. Antoine, aos poucos, vai demonstrando ser um jovem filho da classe operária ressentido com a falta de perspectiva de futuro e que é facilmente cooptado pelo discurso que culpa o processo de globalização, a União Europeia, os imigrantes, a defesa dos direitos humanos e o politicamente correto pela saída das indústrias e dos empregos dos países centrais em direção aos países periféricos. Na França de 2017, Antoine seria um eleitor que, desiludido com os partidos tradicionais como o Partido Republicano de Nicolas Sarkozy e o Partido Socialista de François Hollande, votaria na Frente Nacional de Marine Le Pen.

Cantet, ao contrário do que se possa imaginar, não cria exatamente um filme de tese sobre um jovem de extrema-direita. A trama explora bem a tensão criada entre Antoine e o resto da classe, que é bastante multicultural, e principalmente com a escritora e professora que oferece a oficina, Olivia. Em alguns momentos, o filme inclusive chega a sugerir certa atração sexual entre os personagens. O curioso é que em “Entre os Muros da Escola”, o diretor parecia criar uma fala sobre uma França do presente, enquanto que “A Trama” parece demonstrar certo temor do cineasta com a França do futuro. O filme, aliás, foi concebido antes da eleição de Emmanuel Macron e enquanto mais uma vez a família Le Pen continuava a assombrar o país com o desejo de um nacionalismo anacrônico, em um mundo onde as identidades culturais estão cada vez mais fragmentadas. Cantet não parece ter um olhar muito otimista sobre o futuro da França e de como essa classe trabalhadora, que se sente prejudicada com a globalização, vai reagir a esse processo irreversível.

“A Trama” parece demonstrar certo temor do cineasta com a França do futuro.

É curioso também a escolha do nome do jovem personagem de extrema-direita ser Antoine. Afinal, Antoine Doinel é um dos mais icônicos personagens criados pelo cineasta François Truffaut que em filmes como “Os Incompreendidos” (Les Quatre Cents Coups, 1959), apontava justamente para o colapso de um mundo antiquado através da rebeldia de uma nova juventude. O jovem Antoine de “A Trama” é a antítese da França do jovem Antoine Doinel as vésperas das rupturas culturais da década de 60. O Antoine de Truffaut, alter ego do diretor da nouvelle vague e imortalizado por Jean-Pierre Léaud em cinco filmes, é um homem comum que se rebela contra instituições como a escola e família. Era uma nova França que nascia da efervescência daqueles anos. O Antoine de “A Trama” é a França assustada com os atentados terroristas do Bataclan e de Nice, que enxerga o diferente com medo, que tenta se fechar culturalmente.

Ao olhar para o futuro, o próprio Laurent Cantet parece temer um novo país que está reagindo de maneira conservadora às mudanças culturais. E aqui há uma noção de tempo, da cidade do estaleiro fantasma, que alguns contam as glórias do passado, de quando turistas visitavam e se impressionam com os operários trabalhando nos navios. A decadência industrial da pequena cidade francesa inclusive lembra outro filme recente do diretor: “Retorno a Ítaca” (Retour à Itaque, 2014) sobre um grupo de amigos de meia-idade em Havana que recebem um amigo exilado há 16 anos na Espanha e refletem sobre a juventude e as consequências da Revolução Cubana. Nos dois casos, Cantet constrói personagens muito humanos que em seus diálogos declaram suas impotências diante de processos históricos. “A Trama”, nesse sentido, parece seguir o caminho de “Entre os Muros da Escola”, em não tentar provar uma tese, mas em tentar entender como esses personagens reagem a diferentes momentos históricos e políticos, o que faz do Laurent Cantet um dos grandes nomes do cinema francês.

 

Leandro é jornalista por formação e estudante de Cinema e Audiovisual pela UFPE. É cinéfilo desde a infância e tem interesse por debates sobre identidades culturais. É fã de música new wave e sintetizadores em geral, novelas de Gilberto Braga e acredita que Madonna é a única messias possível | Para segui-lo no Twitter: @leandro_gantois

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