CONSCIÊNCIA COLETIVA

Desconstrução: aprendizado permanente ou dom?

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As redes sociais, incontestavelmente, representam hoje não só uma possibilidade de interação e comunicação,mas um caminho concreto para que possamos perseguir e reproduzir uma vida idealizada, fantasiosa e quase sempre ficcional. A principal função das plataformas que promovem a imersão nessa complexa teia de relacionamentos tão valorizada é sem dúvida aproximar duas instâncias indissociáveis para a construção de qualquer individuo, o virtual e o real.

Passando em média mais de 4 horas por dias dentro dessas redes, o brasileiro, assim como qualquer outro povo, ainda está se adaptando ao momento, afinal, viver em rede significa pensar em rede, ou seja, o nosso raciocínio não segue mais qualquer linearidade, as oposições classiconas, por exemplo, estão em ebulição, uma crise irreversível. Com a infinita possibilidade de acesso, tendo à disposição uma ferramenta como o google, que permite o contato com conceitos, teorias e opiniões, sai na frente aquele que consegue ler, interpretar e contextualizar melhor as problemáticas sociais. É possível afirmar que o grande beneficio da virtualidade digital, sem dúvida, é a democratização dos debates antes circunscritos a pequenos grupos intelectuais e a troca de conhecimento entre agentes naturalmente diferentes. Nasce, nesse contexto, um personagem curioso e importante, o “desconstruído da internet”.

O desconstruído é um agente curioso, ele não só sabe articular novas ideias, como a partir da escrita, consegue construir uma rede de seguidores dispostos a acompanhar as suas opiniões, os seus devaneios. As publicações são sempre bem recebidas e o número de curtidas e comentários atua como um atestado de inteligencia, bom senso, popularidade e influência. Como vocês podem perceber, essa atuação não significa um problema, afinal, essa é a mágica, a principal regra do jogo: o impulsionamento de vozes criativas, que são capazes de propagar e defender novos valores.

O que talvez não esteja sendo levado em consideração é que o modo de operação desse grupo precisa urgentemente considerar e respeitar o processo de construção do conhecimento, um processo que, vale salientar, nunca é individual. Nenhuma pessoa nasce desconstruída e amplamente ciente dos processos históricos que nos condicionam. Quando nos apresentamos enquanto pessoas capazes de ler criticamente o mundo, sem nenhuma abertura para a troca, para o aprendizado mútuo, tudo que fazemos é criar uma bolha onde a nossa palavra é a única que importa. Essa é uma questão que me inquieta, principalmente porque muitas vezes ainda me pego reproduzindo e seguindo essa lógica.

Auto-conhecimento é um caminho necessário, árduo e nele nunca existe uma linha de chegada.

Nessa discussão, cabe evidenciar que grande parte das pessoas que se colocam como desconstruídos na internet nas redes, além de vigiarem incansavelmente o comportamento das outras pessoas, preferem manter na sua rede apenas aqueles que concordam com seus posicionamentos (já que é essa audiência que também promove uma chuva de likes sedutora) e para piorar, facebook, twitter e cia possuem uma política de algoritmo totalmente adequada para a criação de grupos fechados e segmentados.

É óbvio que não em nome da própria saúde mental ninguém é obrigado a conviver com quem propaga discurso de ódio, longe disso, mas será que em algumas pessoas não é possível perceber que o que falta realmente é apenas uma boa conversa? Um mínimo contato que promova a quebra de algumas verdades transmitidas desde que nascemos? Nem todo mundo cresceu e ainda vive nos mesmos contextos, nos mesmos níveis de realidade,  perceber que vivemos dentro de bolhas, cada uma delas com suas próprias celas bem organizadas, não é nada fácil. Auto-conhecimento é um caminho necessário, árduo e nele nunca existe uma linha de chegada.

Essas são, de fato,  duas questões que precisam ser avaliadas: primeiro a criação de novas bolhas dentro dessas redes e segundo a ideia de que ser politizado, desconstruído e não reprodutor de preconceitos é uma dádiva. Não precisa ir muito longe para perceber que tudo é processo, que é necessário percorrer um caminho longo para que algumas mutações aconteçam. Dia desses estava lendo uma conversa antiga com um grupo de amigos(as), salva no falecido Msn, e minha nossa senhora do combate ao preconceito, quanta bosta era descarregada livremente.

Machismo, misoginia, piadas com gordos e com afeminados, o bixa “pão com ovo” estava em alta; todo esse show de violência (disfarçado de humor) aberto ao público sem o menor constrangimento. O mais curioso é que muitos de nós mesmos éramos os principais alvos dos preconceitos que reproduzíamos. Essa conversa ocorreu em 2004. Assustador, não?

Debates sobre recorte de classe, lugar de fala, minorias, onde estavam? Não sei, mas a verdade é que grande parte da nossa geração não teve contato com esses temas. Evidente que existia provocação e luta por parte de inúmeros grupos, mas os meios de acesso aos espaços de discussão eram limitados e cercados de controle. As redes virtuais, em processo de gestação, nos seduziam tanto visualmente, que o conteúdo escrito, os discursos naturalizados, acabavam em segundo plano. Isso vem mudando com o passar do tempo, o que confirma a teoria de que está em andamento um processo de amadurecimento no que diz respeito ao uso e aos benefícios desses recursos.

O que fez então com que eu e meus amigos fossemos gradativamente nos tornando capazes de ressignificar e eliminar boa parte dessas escrotices ?

Uma série de fatores influenciaram: a ampliação dessas redes, o fortalecimento da consciência coletiva, o privilégio de pertencer e ocupar espaços de debate, e principalmente, o contato com pessoas dispostas a falar sobre suas vivências.

Acredito que o nosso maior objetivo é construir um mundo melhor e fazer com que cada vez mais pessoas entendam como ele ainda é um lugar repleto de desigualdade. Ainda temos um número grande de pessoas que são vítimas e reprodutoras de violências que não conseguem se perceber, resistir ou ainda se posicionar. Diante disso, o nosso papel continua sendo o de ampliar cada vez mais a rede que temos a disposição, escrever textões inclusivos, conversar com franqueza sobre poder, violência, história… e com isso reforçar as instâncias que possam quebrar, desarticular e reconstruir esse depósito de valores fixos, preestabelecidos, que em essência só alimentam o nosso ego.

Para muitas pessoas desconstruir significa construir com os próprios tijolos moradias sólidas para o outro, mas – antes de tudo – é preciso estar disposto a morar no abrigo imperfeito (e ainda assim repleto de descobertas) arquitetado pelo outro, essa é a grande lição.

Raphael é professor, formado em Ciências Econômicas, Letras e atualmente se dedica ao mestrado em Educação. Escreve sobre música, comportamento e cinema. É apaixonado por Twin Peaks, playlists e quase sempre pelos amigos | Para segui-lo no Twitter: @RaphaelAlves

2 Comments

  1. Se o mundo pensasse assim, um pouquinho, as coisas seriam diferentes. Hoje eu vejo muita gente usando “inteligência” como moeda de troca para ganhar status e fama sem nenhuma preocupação em trocar conhecimento com as outras pessoas. Likes não MUDAM o mundo.

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