CONSCIÊNCIA COLETIVA

Precisamos Falar Com os Adultos que Convivem com as Crianças Viadas

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Essa semana eclodiu nas redes sociais mais um debate injusto e reducionista sobre sexualidade e dessa vez as vítimas do tribunal são, acreditem, um menino de 12 e outro de 14 anos. O vídeo onde eles se beijam em uma festa de aniversário, que tinha como tema a Drag Queen Pabllo Vittar, viralizou e os comentários escritos por muitos internautas mostram que boa parte da sociedade atual, apesar dos avanços visíveis conquistados pelos movimentos sociais, ainda atua como um dispositivo violento, que reproduz homofobia usando como justificativa a “moral”, o  “cuidado” e a prerrogativa de “proteção”.

Na mesma medida em que os debates sobre orientação sexual e identidade de gênero avançam e buscam minimizar as violências sofridas por mulheres e LGBTQs, uma onda de ódio cresce e é protagonizada por pessoas que defendem um mundo onde a diversidade é uma doença que precisa se exterminada. Quando o ódio se manifesta através da violência física, que mata travestis, gays, transexuais e lésbicas diariamente pelo Brasil, ou através dos milhares de comentários assustadores postados livremente no Facebook, youtube… criar um canal de comunicação transformador é no mínimo um desafio.

Comentários postados no canal REC NEWS, onde o vídeo dos garotos foi publicado (provavelmente sem autorização)

O caso dos meninos que foram hostilizados, ameaçados e ridicularizados por conta do beijo e do namoro entre eles assumido, mostra como é importante falarmos abertamente sobre sexo, afeto e comportamento, visando dialogar principalmente com as famílias que na maioria das vezes oprimem e excluem as crianças viadas.  Se tivéssemos dispositivos mais efetivos de troca de conhecimento, um número menor de instituições religiosas que usassem o nome de Deus para propagar preconceito e uma capacidade de entender com honestidade os processos de construção histórica, ninguém precisaria explicar para o outro o que significa a sua existência e a forma como o desejo pelo outro se manifesta.

Reparem que quando uma pessoa hétero pergunta como e quando você se “percebeu” homossexual, somos inclinados a responder : – da mesma forma que você se percebeu heterossexual. Essa é uma resposta parcialmente verdadeira; sim, a nossa sexualidade é construída a partir do mesmo jogo complexo entre o biológico e o social, ela é um processo natural, onde o corpo e a mente estão curiosos, receptivos e dispostos a experimentar, mas essas jornadas diferem muito no que diz respeito a forma como vamos lidar com as nossas escolhas. Desde muito cedo, na medida em que qualquer traço do nosso comportamento deixa em evidência que gostamos do mesmo sexo, somos vítimas de um processo longo e bem persistente de exclusão, onde proibições e castigos são violentamente impostos.

Existem muitas crianças viadas e muitos modelos de família, os contextos são diversos e seria de uma enorme irresponsabilidade equacionar o debate a partir de uma única vivência, mas no geral, é possível pontuar alguns tópicos importantes.

Defendendo que se existe um problema, ele está exclusivamente nos adultos preconceituosos e não nas crianças, esquematizei dez dicas voltadas para aqueles que estão dispostos a conhecer, fortalecer e respeitar a existência dos seus filhos e filhas gays.

1)  É preciso entender que o mundo nunca vai reproduzir com exatidão aquilo que você entende como “certo”. Toda certeza é fruto de uma história, de um processo de transmissão, onde aceitação e rejeição fazem parte. Isso significa que apesar das ideias cristalizadas que você já tem, será sempre preciso ressignificar o seu mundo em nome de um projeto de sociedade que não exclua, abuse, mate e violente qualquer pessoa.

2) Reveja suas escolhas religiosas e avalie quais os discursos e as experiências que fizeram parte da sua formação enquanto indivíduo, elas podem te ajudar a diagnosticar as limitações e o alcance dos preconceitos que você ainda manifesta. A bíblia, por exemplo, é um objeto histórico, isso significa que as interpretações do seu texto mudam no decorrer do tempo e são utilizadas de forma reducionista para implantar pautas moralizantes e preconceituosas no nosso imaginário.

3) Existem inúmeras formas de perceber que seu filho /filha /sobrinho/ sobrinha/neto /neta estejam naturalmente interessados por outros jovens do mesmo sexo. Quando isso acontece, o melhor é que vocês já tenham construído um canal de diálogo e que possam conversar com franqueza sobre isso. Tentar criar vínculos afetivos de forma apressada, apenas quando situações como essa são identificadas, pode significar que você já possui um posicionamento contrário/preconceituoso, dificultando o entendimento e diminuindo as chances de um diálogo permanente e sadio.

4) A criança viada não precisa ser salva, qualquer preocupação sobre o que ela terá que enfrentar, por exemplo, na escola, não deve ser transferida apenas para ela; afinal, nenhuma vítima pode ser responsabilizada pela violência cometida pelo outro. O ideal é que você ajude a desintoxicar os ambientes e ajude a fortalecer o sentimento de resistência que muito cedo começa a aflorar nos meninos e meninas gays.

5) Existe uma discussão importante sobre gênero, performatividade, comportamento e sexualidade que precisa ser lida e compreendida. Nem sempre um comportamento afeminado por parte de meninos significa uma orientação sexual homo, assim como um comportamento masculino por parte de meninas nem sempre representa uma orientação homo. Ter uma leitura sobre isso ajudará bastante e evitará que, até mesmo de forma involuntária, você reproduza algumas práticas de coerção. Conhecimento é um instrumento importante e pode fortalecer a sua atuação enquanto mediador e responsável pelo bem-estar da criança. Procure ler textos, avaliar as fontes e conversar com pessoas dispostas a dialogar, existe um vasto material a respeito dessas temáticas, infelizmente uma boa parte ainda restrita ao meio acadêmico, mas já é possível encontrar canais e blogs que discutam de forma mais democrática e inclusiva.

6) Não acredite no que dizem; músicas, filmes, amigos e jogos não são capazes de atuar sozinhos como  mecanismos “definidores” da sexualidade de ninguém, o jogo é mais complexo do que imaginamos. Essa construção é permanente e não é essencialmente passiva, todos nós somos capazes de reagir e atuar ativamente diante do novo. Em resumo, ela não é definida por alguém, por um único agente externo, somos nós que nos definimos em contato com as inúmeras realidades que são ofertadas.

7) Muitos adultos alegam que preferem que os filhos não se “assumam” gays porque sabem que eles vão enfrentar um mundo violento fora de casa. Essa ideia parece fazer sentido, mas ela é danosa em muitos níveis.  O instinto de proteção é um mecanismo que nos empurra para o armário muito cedo, mas quem disse que viver no armário significa felicidade e realização? Nunca, jamais. Apesar de conhecer muita gente que se sente confortável no armário, utilizando até mesmo dessa permanência para estigmatizar outros LGBTQs, a verdade é que o armário é um lugar bastante sufocante e limitador.

8) Sim, as crianças e adolescentes gays vão sentir desejo e curiosidade sobre sexo. Aquele papo sobre DSTs, sobre proteção e maturidade é sempre bem-vindo. Vigilância constante não é um bom caminho, o controle dos corpos é um péssimo sinal, significa que não estamos sendo capazes de lidar com algo essencial para um bom desenvolvimento: a liberdade.

9) Sempre que possível: CONVERSE, procure escutar mais as crianças e os adolescentes, ouvir pode te ajudar a compreender que cada um tem sua própria forma de sentir e proporcionar prazer, o fundamental é que o consentimento mútuo e o respeito estejam sempre presentes.

10) O amor nunca pode ser uma resposta para a sua dificuldade de estabelecer um contato com esse tema. Muitas pessoas alegam estar agindo em nome do amor quando proíbem, castigam e silenciam os seus filhos. Na verdade, apenas encontraram uma forma de mascarar a homofobia. Essa abordagem hoje é vista como uma das principais causas de suicídio entre adolescentes.

Desconhecimento e ódio, juntos, foram os responsáveis pela exposição e pelo preconceito sofrido pelos garotos do vídeo. Desrespeitamos as famílias dos dois, invadimos os acordos estabelecidos entre eles, tudo em nome de um moralismo seletivo e oportunista que tem como alvo apenas os grupos já historicamente estigmatizados. Existe sim uma discussão importante sobre a adultização de crianças e adolescentes, mas ela precisa ser realizada levando em consideração principalmente:  a voz desses grupos, os diferentes contextos em que eles se mostram presentes, as vivências coletivas e as mais particulares, o papel das mídias, o machismo, as opressões históricas e a mercadoligização da cultura.

Não é desejando a morte, condenando virtualmente núcleos familiares específicos e ofendendo gratuitamente artistas como Pabllo Vittar (que hoje simboliza uma quebra de paradigmas fundamental), que iremos transformar o mundo em um lugar mais receptivo e seguro. A própria ideia de “transformar” é perigosa, no fim, tudo que desejamos é que a sociedade reflita e reproduza apenas os nossos valores. Egoístas como somos, queremos transformar o mundo, mas temos medo de transformar a nossa própria forma de existir. Nesse sentido, as crianças viadas, ainda tão aprisionadas e violentadas, no ensinam muito, elas definitivamente não precisam de autorização de ninguém para transgredir. Quando livres, apoiadas e fortalecidas, elas brilham e ressignificam para melhor a realidade.

Um abraço enorme nas pessoas que defendem a liberdade de existir e de amar das crianças fexativas, iluminadas e muito viadas.

Raphael é professor, formado em Ciências Econômicas, Letras e atualmente se dedica ao mestrado em Educação. Escreve sobre música, comportamento e cinema. É apaixonado por Twin Peaks, playlists e quase sempre pelos amigos | Para segui-lo no Twitter: @RaphaelAlves

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