CONSCIÊNCIA COLETIVA

Dica de filme: Marjorie Prime, uma jornada intimista sobre a memória

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Uma das definições mais bonitas sobre a memória foi fornecida por Platão na Antiguidade Clássica. Para ele, a memória funcionava como um viveiro de aves, onde cada pássaro significava um fragmento, acessar uma lembrança específica significava segurar um desses pássaros. Essa bonita metáfora serviu de base para os estudos sobre a memória e permitiu, por exemplo, que a partir da década de 50, estudos desenvolvidos por estudiosos como Hebb apontassem para a existência de uma memória a curto prazo e outra a longo prazo. Com o passar do tempo, outros inúmeros pesquisadores passaram a se debruçar sobre temas como registro e consciência, tentando decifrar a mágica que envolve a relação entre tempo/esquecimento.

A memória é o tema central de Marjorie Prime, um dos filmes mais bonitos que vi esse ano. Baseado em uma novela de Jordan Harrison e dirigido por Michael Almereyda, ele conta a história de uma pequena família formada pela própria Prime (Lois Smith), sua filha Tess (Geena Davis) e o seu genro Jon (Tim Robbins). A história se passa em um futuro próximo, onde é possível manter contato com pessoas mortas a partir de uma tecnologia que projeta um um holograma interativo, uma cópia digital fiel de quem já não habita mais esse plano.  

Construído linearmente em blocos e utilizando alguns flashbacks, a história começa com a própria Marjorie, agora com 86 anos, conversando com o holograma do seu falecido marido, Walter (Jon Hamm). Apesar de modernos e com uma grande capacidade de armazenamento, os hologramas não possuem a memória das suas respectivas “fontes”. Eles são projetados para ouvir a sua própria história e a partir do que é transmitido, começam a adaptar seus gestos e opiniões, procurando atuar cada vez mais próximos da lembrança que as pessoas – no presente – ainda são capazes de ter sobre quem partiu. É possível escolher a fase/idade do seu holograma e Marjorie, intencionalmente, escolhe interagir com um Walter mais jovem.

Aparentemente a finalidade é terapêutica, Marjorie já demonstra lapsos de esquecimento (apesar de não dito explicitamente, pode se tratar de Alzheimer) e interagir com o seu companheiro aparentemente permite que suas lembranças estejam vivas, em constante atividade. Ela mesma afirma que o seu quadro de saúde mental atual significa “deixar tudo para trás, carregando pouco”.  Marjorie ainda enfrenta um problema de artrite que a impede de tocar violino, ela era uma musicista apaixonada. Quando pede para tocar, Walter diz: eu sei que ainda está na sua cabeça, mas as suas mãos…

A relação entre eles é influenciada não só pelas lembranças “imprecisas” que ela ainda possui e que transmite com uma naturalidade desconfiada para ele, mas também pela presença do casal. Jon está sempre em contato com Walter, enquanto Tess se mostra mais cética. Como espectadores, na medida em que vamos nos familiarizando com a narrativa, percebemos que, no presente, somos um reflexo impreciso daquilo que experimentamos no passado. Essa imprecisão, como o filme revela belissimamente, é resultante da cúmplice relação que existe entre a memória e o tempo. Em resumo, estamos sempre remodulando o passado, recriando a nossa história como uma estratégia de sobrevivência. O próprio Jon recria o passado ao inventar que Marjorie (antes de Walter) quase chegou a se envolver com um jogador de tênis francês, Jean-Paul, que era o número 8 do mundo, quando na verdade ele teve um negocio de gesso, tendo jogado tênis apenas na faculdade; tanto Marjorie, quanto o holograma de Walter acreditam nessa história e isso altera a forma como eles se relacionam no presente.

Muitas coisas importantes ficam martelando na cabeça quando o filme termina, uma delas me inquietou profundamente. Em determinado momento, ficamos sabendo que uma tragédia atingiu a família no passado e que esse evento impactou bastante não só na relação entre Marjorie, Tess e Walter, mas alterou a forma como cada um deles passou a enxergar a vida. Curiosamente – e como geralmente acontece –  todo esse quadro patológico nasce e se torna permanente porque eles estão sempre deixando de dizer aquilo que precisa ser dito.

Refletindo sobre linguagem e permanência, o filme também nos leva também a questionar o papel de sentimentos como o amor, buscando reforçar que na maioria das vezes, só o sentir, no interior, não é suficiente, o amor precisa ser dito, ele precisa da palavra, de concretude. Cada personagem irá confrontar suas próprias lembranças, entendendo, aos poucos, como esconder alguns dos nossos sentimentos pode provocar danos devastadores .

Duas cenas são emblemáticas, na primeira temos Tess abrindo uma caixa de fotografias e cartas antigas da família, a imagem e a palavra escrita são utilizadas aqui como recurso de preservação da memória. Ela encontra uma carta enviada pela paixão de Marjorie, Jean-Paul, logo após a morte de Walter. Eles não se viram por 50 anos, aparentemente porque Marjorie não queria que ele a visse velha. Jean-Paul escreve o seguinte:

– Quando penso em você, estou ciente de quem você é agora, da sua idade e dos seus problemas físicos. Mas essas são percepções sobrepostas pelo meu conhecimento de quem você era há 50 anos. Sei que, se me permitir que a visite, verei você com minha memória, assim como com meus olhos. A idade não será obstáculo, a idade não será obstáculo para o nosso amor. Em algum lugar, alguém está viajando apressadamente até você numa velocidade incrível. Viajando dia e noite, através de nevascas e desertos, cruzando fronteiras, mas ele irá reconhecer você?

A segunda é uma conversa intima entre Jon e o holograma de Walter, onde o primeiro diz o seguinte:

– Honestamente, Walter, todos os relacionamentos, até os que duram muito tempo, são impossíveis. Casamentos, amizades, as pessoas estão sempre olhando para o outro lado, aceitando notícias ruins, infrações bobas, compromissos, traições. Somos obrigados a decidir. Você diz: “eu quero você”, “eu quero isso”, e aí tenta superar todas as decepções e desastres. Você supera isso, contrariando todas as expectativas.

Se você já conferiu Marjorie, deve ter, assim como eu, se envolvido bastante com o drama dos personagens. Todos eles experimentam um contato com o passado e representam diferentes formas de lidar com ele, cada um carregando a sua própria gaiola de pássaros. A distância entre o presente e a memória é um dos pilares mais importantes da narrativa e ela está sempre presente, atuando como um personagem. O elenco é brilhante, todos estão em total sintonia. Lois Smith merece fácil uma indicação como atriz e Geena/ Tim como coadjuvantes, mas acredito que o mundo não fará justiça.  

Apesar de emotivo e tocante, Marjorie Prime não soa meloso, inclusive o seu final é bastante intrigante e provocativo (ele poderia facilmente ser um episódio de Black Mirror). Entender como na era das redes e mídias digitais, a memória vem se tornando cada vez mais evasiva e difusa, me fez perceber como é necessário manter contatos mais honestos e verdadeiros com as pessoas próximas. A cena, perto dos últimos minutos de projeção, em que Tim fala sobre como ele enxerga Tess, é de uma beleza sem tamanho, ela nos leva a enxergar como estamos nos relacionando atualmente com centenas e milhares de hologramas e que eles, apesar de curiosos e inteligentes, são projeções incompletas, sem memória física, sem tato. Na verdade são entorpecentes incapazes de remediar as nossas dores e carências.

PS:  Uma das lembranças mais bonitas de Marjorie tem como pano de fundo o filme “O Casamento do meu melhor amigo”, isso é dito no primeiro diálogo entre ela e o holograma de Walter e retomado brilhantemente depois.

O amor mora mesmo no cotidiano.

Filmão, não deixem de conferir e até a próxima.

Trailer

Raphael é professor, formado em Ciências Econômicas, Letras e atualmente se dedica ao mestrado em Educação. Escreve sobre música, comportamento e cinema. É apaixonado por Twin Peaks, playlists e quase sempre pelos amigos | Para segui-lo no Twitter: @RaphaelAlves

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