CONSCIÊNCIA COLETIVA

Você faz parte da geração que não aprendeu a paquerar?

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Paquerar é uma verdadeira arte, hoje, em desuso. Alegamos ser coisa de gente velha. Mas, na verdade, nossa incapacidade para tal feito não vem necessariamente daí.

Paquerar exige certa maturidade para saber ouvir um não. E nossa geração, acostumada a desligar o videogame quando está perdendo, não aprendeu a lidar com derrotas. Um não qualquer que se recebe é motivo para crises existenciais e doses de ritalina. Um nãozinho inocente que seja é capaz de provocar abalos sísmicos no terreno da nossa autoestima, tão facilmente fragilizada.

Saber ouvir um não é lição número um da arte da paquera. É o não que nos mobiliza em direção àquela pessoa. E ouvir um não pode parecer ruim, mas não é. É motivo até de piada. De você achar graça de você mesmo.

Mas digamos que você recebeu um sim. O que fazer? Lição número dois: paciência. Esse sim que se recebe é apenas o ponta pé inicial. É a permissão para abrir a porta. E sugere-se entrar devagarzinho, sem fazer barulho, com um sorriso no rosto. É o famoso jogo de cintura, fundamental para se conduzir um papo agradável.

Quando rola esse clima, rola o que chamamos de feeling, identificação ou reconhecimento. E quando duas pessoas estão dispostas a se paquerar, tudo vira motivo de graça. Até quando as predileções parecem não conversar muito bem: um pode ser fã de Almodóvar e o outro preferir as produções da Marvel. Pouco importa. Ambos caem na risada.

Fundamental é a troca de olhares, o sorriso no cantinho da boca, o cheiro, o modo como gestualiza ou como fala. O que se fala não importa tanto. Alguns usam o álcool como uma muleta para vencer a timidez e quebrar o gelo, o que é válido. O que não dá é reduzir esse momento precioso a uma troca de mensagens instantâneas e frias por meio de um telefone.

Sempre me pareceu pretensiosa a ideia de, quando se está conhecendo alguém, narrar a trajetória da sua vida, como numa autobiografia. Você (ou o outro) de modo involuntário acaba criando uma imagem de si que não corresponde exatamente ao que se é, de fato. O melhor é deixar que o outro descubra quem somos ao longo do tempo e tire suas próprias conclusões. A palavra de ordem é paciência. Mas nossa geração decidiu queimar etapas e, invariavelmente, se frustra face a face, ou melhor, “olhos nos olhos…”, diante de alguém desconhecido que em nada tem a ver com a pessoa bem humorada e interessante que demonstrou ser online.

O último item da cartilha é autoconfiança. Ou atitude, como costumamos adjetivar uma pessoa quando ela se demonstra atenciosa e interessada.

Nossa geração está repleta de pessoas que esperam interesse e atenção especialmente do outro e esquecem de que reciprocidade é o que alimenta o desejo de estar conhecendo alguém.

Uma pessoa desprovida de autoconfiança não sabe paquerar naturalmente, sob o receio de achar que está sendo muito invasiva ou desagradável, ou sob o medo de transparecer sentimentos verdadeiros, despir-se, revelar as nudes da alma e levar um fora, evitando dor de cotovelo e sofrimento.

Uma antiga professora costumava apelidar de “juventude P” a geração que ficou conhecida por Y. P de pato. Porque pato, embora tenha asas, não voa como um outro passarinho e, apesar de viver na água, não nada como um peixe. Triste é a geração que não aprendeu a paquerar.

Mas que me perdoem os descrentes: acredito não haja coisa mais bonita no terreno das relações do que duas pessoas, seja lá onde for, sejam lá de que sexos forem, rompendo as barreiras do automatismo e permitindo-se ao charme, à sedução, à descoberta um do outro. Duas pessoas. Despidas de autoridade física e jurídica, investidas numa teia de olhares, risadas, gestos e outros códigos secretos.

Há casais antigos que se paqueram até quando se cruzam nos corredores da casa entre um ou outro afazer doméstico. E talvez seja esse o grande segredo da longevidade a dois.

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