CONSCIÊNCIA COLETIVA

The Book Of Human Insects: um drama de Osamu Tezuka

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Osamu Tezuka, um dos maiores artistas dos quadrinhos foi imortalizado por sua obra, e ganhou a alcunha de “O deus do mangá”. Mais conhecido por seu trabalho mainstrean voltado especialmente ao público infantil, Osamu tem uma obra mais sombria que retrata o lado mais cruel do ser humano. The Book Of Human Insects é um exemplar dessa fase do autor iniciada entre os anos 1960 e 70.

Toshiko é uma jovem bem sucedida que abre a história recebendo o Prêmio Akutagawa, um importante prêmio literário japonês. Com olhar inocente e aparência frágil, capaz de despertar nossa empatia, aos poucos Toshiko vai revelando uma personalidade assustadora. Capaz de roubar, literalmente, as habilidades de outras pessoas, vai ocupando os lugares daqueles que cruzam seu caminho, não só roubando seus planos e suas profissões, como também demonstrando um grande poder destruidor na vida de suas vítimas. É a partir dessa percepção das ações da protagonista, uma verdadeira camaleoa, que entendemos que os insetos humanos do título são suas vítimas. Cada capítulo recebeu o nome de um inseto spring cicada, leafhopper, longhorn beetle e katydid (cigarra da primavera, cigarrinha, escaravelho e esperança respectivamente). E o desprezo de Toshiko por todos perece potencializar essa metáfora presente no título da obra. E assim, entendemos que seus méritos e prêmios recebidos, são fruto dessa prática.

O pessimismo presente na obra, é uma marca dessa fase do autor, famoso por criar personagens heróicos e aventureiros que simbolizavam o otimismo e esperança no Japão pós-guerra sendo, talvez, o mais famoso deles aqui no ocidente o Astroboy. Nessa fase sombria do autor, é assustadora e angustiante a frieza da protagonista, carregada de dissimulação e deboche. Há uma forte crítica a tudo de pior que o ser humano pode carregar.

Toshiko é uma jovem em alguns aspectos enigmática. Costuma se afastar da cidade numa casa onde mantém uma estátua da sua mãe feita de cera. Sempre que chega à casa ela se despe diante da estátua e suga seus seios falsos como se fosse um bebê mamando. Em vários momentos, é possível ao leitor questionar se a protagonista é uma psicopata, pois percebemos uma completa falta de empatia dela pelos demais personagens, especialmente quando estes estão vivendo algum tipo de adversidade. Percebe-se isso logo nas primeiras páginas quando ao receber a notícia do suicídio de uma amiga, Toshiko não esboça nenhuma reação e ainda pergunta ao portador da notícia se ela o verá a noite, sendo que esse rapaz é outro que teve sua vida arruinada por ela.

Osamu Tezuka consegue carregar a história de um drama muito real e triste. Um dos personagens mais massacrados nessa história é Ryotaro Mizuno que tem sua vida arruinada a partir do momento que Toshiko cruza seu caminho. E viverá um dos momentos mais tristes da narrativa ao lado de sua inocente esposa Shijimi que experimenta um final tão trágico quanto seu passado que nos é revelado aos poucos.

O que O livro dos insetos humanos apresenta é um lado cruel do próprio ser humano, destruidor como Toshiko, e autodestrutivo como alguns dos homens que cruzam seu caminho. Assim como a personagem principal parece desenvolver um desejo compulsivo em conseguir arrancar das pessoas aquilo que possivelmente representa o projeto e a realização de suas vidas, suas vítimas, quase todas homens, nessa história parecem desenvolver uma obsessão em se manter perto dela. Hachizuka, o diretor de teatro, é o mais decadente, alimentando um amor corrosivo mesmo diante de toda a desgraça vivida graças à Toshiko, e ainda que sendo, de forma humilhante, ignorado por ela, continua a protege-la, inclusive justificando suas atitudes para o próprio leitor numa tentativa de explicar as ações da amada ao fim da história.

Tezuka ilustrou o livro de forma leve, num contraste enorme com o peso negativo da história. Seus traços mesmo mais detalhistas que nas obras infantis, conseguem manter a fluidez e uma certa simplicidade nos traços. A forma como ele retrata em uma página inteira uma cena de enforcamento, consegue transmitir a tristeza e o respeito pela vítima, num desenho sutil e ao mesmo tempo tocante. As cenas de nudez e sexo talvez sejam as que menos ganham realismo, não sei se propositalmente, para não conferir um erotismo através das imagens e apenas através do significado simbólico no texto. A verdade é que o resultado final apresenta uma qualidade atemporal e nada datada, ao contrário dos quadrinhos ocidentais que retratavam de forma explícita os modismos da época. Neste mangá Osamu consegue apresentar um visual em suas páginas que não deixam claros a época em que foi feito nem a cultura Japonesa, tornando a obra universal em varios sentidos.

É digna de observação uma sequência no final do segundo capitulo, onde os quadros que descrevem um assassinato são brilhantes, não só pela engenhosidade do assassino mas também pela carga dramática que Tezuka consegue transmitir com seus desenhos. Eu consegui sentir todo o drama e desespero da vítima desde o momento em que percebeu a emboscada até o último suspiro.

O Livro dos Insetos Humanos, lembra um filme de Lars Von Trier. O lado bom e mau do ser humano numa batalha injusta, o mau devorando o bem. A certeza final é de que parecemos uma espécie sem esperança de melhorar (a ironia do título do capítulo final). Nos esmagando realmente com se fôssemos insetos, insignificantes aos olhos de quem alcança algum poder, por mais desonesto e sujo que pareça. Tente eliminar essa podridão e mergulhará num poço sem fundo, será apagado ou sofrerá mais ainda por mais tempo. Será que Toshiko é realmente uma pessoa má ou apenas ao perceber toda essa realidade resolveu se proteger? Será ela apenas uma sobrevivente?

*O livro não tem edição em português e pode ser encontrado no formato e-book.

Professor, editor e fundador do Nerd Subversivo. Escreve sobre quadrinhos. É apaixonado por leitura, animações, design gráfico e hqs. Publica mensalmente no dia 15, save the date| Para segui-lo no Twitter: @lourinaldojr

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