CONSCIÊNCIA COLETIVA

O falso Orgulho Hétero e a Semana de Difusão da Cultura Heterossexual

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Dia desses, sem nenhum motivo aparente, eu fui acometido de um constante pensar sobre a apropriação que algumas pessoas heterossexuais fazem do termo ORGULHO para se dizerem orgulhosos de sua orientação sexual, na descabida tentativa de fazer algo semelhante ao que lésbicas, gays, bissexuais e transexuais fizeram ao cunhar o famigerado ORGULHO LGBT.  Movidas por dizeres como “se eles podem, nós também podemos”, elas miram nisso, mas acertam mesmo é na pagação de mico, único alvo possível em situações como essa.

Não deve ser muito difícil entender que entre ORGULHO LGBT e ORGULHO HÉTERO, o primeiro é o único que deve ser levado a sério, porque tem uma verdadeira razão de ser. O segundo, por sua vez, só tem mesmo a força de uma piada de muito mau gosto contada por alguém que não tem nem talento para ser piadista. Todo mundo deve saber que na sociedade heteronormativa em que vivemos, é esperado que o homem se relacione fisica, romantica e emocionalmente com a mulher e que a mulher faça o mesmo com o homem.

Assim, quando alguém foge da norma e mantem, por exemplo, relações com pessoas do mesmo sexo, está fadado a uma tonelada de coisas ruins como opressão e violência por parte dessa sociedade que por muito tempo nos fez acreditar que tínhamos nascido com defeito de fábrica.

Felizmente, esse quadro vem mudando, cada vez mais pessoas estão lidando mais tranquilamente com sua sexualidade e identidade fora do padrão imposto pela sociedade heteronormativa, daí o ORGULHO LGBT. Do pouco que foi falado, já se pode ver que há todo um movimento substancial de luta, resistência e autoafirmação por trás da expressão, algo que não pode ser dito sobre o ORGULHO HÉTERO, que parece estar aí apenas para fazer uma espécie de provocação à comunidade LGBT e suas lutas.

Como se isso não bastasse, na última terça-feira (7/11) foi apresentado à Câmara Legislativa um projeto de lei que – pasmem – institui a Difusão da Semana de Difusão da Cultura Heterossexual, a ser comemorada na terceira semana de junho (PL n° 1.813/2017). Em mais ou menos duas páginas, seu autor, o deputado e pastor Rodrigo Delmasso (PODEMOS), escreve a justificação do documento dizendo que tem os seguintes objetivos: (1) “resguardar os direitos e garantias aos heterossexuais de se manifestarem e terem a prerrogativa de difundirem da cultura do mesmo e não serem discriminados por isso”, (2) garantir “a livre manifestação das famílias”, (3) fortalecer “a união conjugal firmada entre homem e mulher e (4) proteger e preservar a unidade familiar.

Rodrigo Delmasso em discurso na Câmara (Foto: Carlos Gandra/Divulgação)

Usando a seu favor termos politicamente incorretos (opção ou escolha sexual, homossexualismo) e as ideias de discriminação contra heterossexuais, de ideologia gay, de opção e/ou escolha sexual e de apologia ao homossexualismo, o deputado constrói e ao mesmo tempo destrói sua argumentação, já que nela se vale de coisas que qualquer pessoa sensata sabe que não existem. Afinal, quantas pessoas heterossexuais são violentadas e/ou morrem por dia devido ao fato de sentirem atração e se relacionarem com pessoas do sexo oposto?

E a até que ponto a noção de ideologia gay é válida e verdadeira?

Essa eu respondo: nenhum ponto. Não passa de um termo inventado por uma gente conservadora cujo intuito principal é criar uma espécie de histeria generalizada na sociedade para que as pessoas sempre relacionem a comunidade LGBT a uma espécie de culto que corrompe crianças e destrói a família tradicional.

Presidente da Frente Parlamentar Evangélica da Câmara Legislativa do Distrito Federal (FPE-CLDF), Delmasso, em entrevista concedida recentemente (8/11) ao G1, disse já ter sofrido preconceito por ser heterossexual e ainda aproveitou o ensejo para dizer que não sente vergonha de ter essa orientação sexual porque se sente bem assim. Na ocasião, como quem quer vender um peixe fedido e ruim, também esclareceu que a Semana não deve servir para imprimir o orgulho de ser heterossexual, mas sim para a difusão dos princípios da cultura heterossexual que, em suas próprias palavras, se baseia num respeito à pessoa do sexo oposto que pode, inclusive, ajudar a combater o machismo.

Curiosamente, o deputado que idealizou a Semana de Difusão da Cultura Heterossexual foi o mesmo que, com sua Frente Parlamentar Evangélica, no início de outubro enviou uma nota de repúdio ao governo do Distrito Federal pedindo a anulação de uma portaria da Secretaria da Cultura cujo objetivo era criar uma política cultural específica para a valorização da cultura LGBTI, da diversidade de suas identidades, bem como para a proteção de sua memória cultural e promoção de ações de respeito à diversidade das identidades de gênero e de orientações sexuais.

Depois disso, a péssima imagem do deputado em questão consegue ficar ainda pior e descendo ladeira a baixo, haja vista o fato de que ele se opôs, num primeiro momento, a uma medida urgente e necessária destinada a uma parcela da população que realmente precisa dela para, num segundo, propor algo semelhante destinado à outra parte da população que, ao contrário do que ele pensa, não precisa de valorização, proteção e preservação em canto nenhum. Em suma, pode-se dizer que, numa lógica de Hobin Hood às avessas, o projeto de lei do deputado Rodrigo Delmasso quer tirar direitos de quem precisa para colocá-los nas mãos de quem não precisa, sendo capaz, inclusive, de forjar uma realidade alternativa e falsa em que os oprimidos assumem o papel de opressores e vice-versa.

Como um exemplo de sensatez para nos mostrar que, por mais que não pareça, ainda existe gente sensata no âmbito político, o deputado distrital Ricardo Vale (PT), que é presidente da Comissão de Direitos Humanos da Câmara Legislativa do Distrito Federal, quando procurado pelo G1, comentou o projeto de lei caracterizando-o como “extremamente ruim” e acrescentando que não passa de um meio de “acirrar a intolerância e o preconceito contra as minorias”. Não contente, Ricardo ainda afirmou que “quem sofre agressão são pessoas da comunidade LGBT, mulheres e negros” e que Delmasso “só criou esse projeto para combater as lutas das minorias que têm o sentido de garantir seus próprios direitos”. Por fim, ao saber do preconceito que o deputado idealizador do projeto enfrentou por ser heterossexual, Vale, talvez com uma boa dose de ironia e sarcasmo, prometeu estudar o caso dele, afinal, “ele é o primeiro que vejo falar que foi discriminado por ser hétero”.

Sendo assim, não tem como encerrar esse texto sem dizer que nossa política precisa de mais pessoas sensatas como o deputado Ricardo Vale (PT) e menos alienadas como o deputado Rodrigo Delmasso (PODEMOS). Também não vejo esse projeto de lei sendo aprovado, mas, do jeito que anda o Brasil, “é preciso estar atento e forte”.


A bandeira usada como capa desse post foi criada para simbolizar – no final dos anos 80/início dos anos 90 – o slogan Straight Pride, que atuou como uma resposta ao movimento LGBT na época. O grupo defensor do SP acreditava que era preciso reafirmar o valor da família tradicional e para isso criavam orientações baseadas em objeções religiosas à homossexualidade. O casamento entre homens e mulheres era uma das pautas mais importantes da manifestação, que chegou a ser defendida e apoiada em muitas Universidades nos EUA. Hoje, ao defender o Orgulho heterossexual, muitos grupos retomam os símbolos desse lamentável momento histórico.

Henrique é graduado em Letras, professor de Português e futuro jornalista que faz pesquisa sobre metáfora. Escreve sobre e é apaixonado por cinema, literatura, música e afins. Publica reviews de filme mensalmente | Para segui-lo no Instagram: @henrickcarlos

3 Comments

      • Parabéns pela reflexão Carlos, muito importante essa questão e mantenham a qualidade desse blog, sem propagandas, sem medo de dizer o que pensa, isso é raro no mercado atual.

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