CONSCIÊNCIA COLETIVA

O cidadão-consumidor na sombria hq “Acelera SP”

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Mais uma distopia está prestes a ganhar as prateleiras dos colecionadores brasileiros. Acelera SP, escrita por Cadu Simões e desenhada por Juliano Kaapora, contará a história que se passa numa São Paulo dominada pelo capital privado, e sem praticamente nenhum direito social garantido à população. Com um estado mínimo, todo cidadão é visto como um consumidor. Com este volume inicial de 20 páginas focada nos transportes privados (como o Uber) conheceremos os diferentes personagens dessa ficção que não está nem um pouco longe da nossa realidade atual. O projeto da hq encontra-se em campanha de financiamento coletivo no site Catarse e pode ser apoiado neste link. Cadu Simões é historiador, e consegue acrescentar muitas informações importantes que conectam a ficção do quadrinho com as realidades atuais, como as ZADs (zonas a defender, que são grupos que resistência ao modelo político vigente).

Para conhecer bem o projeto vale muito a pena conferir a página do catarse no link anterior onde os autores oferecem maiores detalhes da história e de seus personagens. Cadu concedeu uma entrevista que revela a sua visão e motivação para a hq cheia de críticas ao nosso modelo econômico e um alerta ao caminho que estamos trilhando em nossa sociedade atual, confiram.

Em Acelera SP você cria vários simbolismos de realidades que costumamos criticar hoje em dia. Cidadão vistos como consumidor, empresas se apropriando dos espaços públicos, terceirizações, fim dos direitos sociais, será que essa realidade de certa forma não está presente em nossas vidas?

Sim, essa realidade está presente em nossas vidas. Não (ainda) na mesma intensidade apresentada em Acelera SP, no qual eu extrapolo essa realidade ao extremo, mas ela está aí. Por exemplo, só neste ano, em nível federal, presenciamos a aprovação da PEC do teto, que limita os investimentos em áreas sociais como saúde, educação e saneamento básico com a desculpa de deixar o Estado mais “enxuto”(mas sem fazer uma auditoria na dívida pública, que é a principal causa de desperdício de dinheiro público, ou limitar o dinheiro das emendas parlamentares, que o Temer está liberando aos montes para os deputados da base aliada para poder escapar das denúncias criminais feitas pela PGR). Também teve a aprovação da lei de terceirização, com o absurdo de liberar a terceirização para a atividade-fim da empresa; e a nova lei trabalhista, que colocou o trabalhador numa situação ainda mais desfavorável para negociar com seus patrões. E ainda está por vir a reforma da previdência, que praticamente nos fará trabalhar até morrer sem conseguirmos nos aposentar. Ou seja, um trabalhador que está desempregado atualmente, se for recontratado no futuro, provavelmente será como terceirizado, ganhando menos do que ganhava antes, e trabalhando mais e de forma mais precaria, correndo mais risco de ficar doente sem poder no entanto pagar um plano de saúde privado ou contar com o SUS, que estará mais sucateado. Para mim esse parece um cenário bem próximo de uma distopia.

Alguns personagens são bem representativos de certos arquétipos de nossa sociedade, temos a revolucionária Amaynara, o trabalhador sempre massacrado Marcos e a defensora da meritocracia Isabela como exemplos. Você acha que conseguiu representar bem os diversos lados de nossa sociedade atual?

Justamente eu tentei representar nesses personagens alguns arquétipos presentes em nossa sociedade, tomando o devido cuidado para não cair em estereótipos. No entanto, devido ao tamanho da história (cerca de 20 páginas), não há muito espaço para desenvolver profundamente todos os personagens, então talvez alguns deles soem um pouco chapados. Mas se o projeto der certo, e o pessoal curtir essa primeira edição, pretendo futuramente escrever outras histórias ambientadas nesse cenário de Acelera SP, e desta forma poderei me aprofundar mais, tanto nos personagens quanto no próprio cenário.

A questão dos transportes ficou bastante interessante na história, o foco no transporte individual como o Uber de hoje foi uma escolha curiosa. Qual a visão desse tema na hq e de que forma ela se conecta com nossa realidade?

Uma sociedade de Estado mínimo, como é o caso de Acelera SP, não contaria com transporte público (já que esse tipo de transporte necessita de amplo subsídio estatal para ser efetivo). Então diante dessa realidade acredito que transportes privados por geolocalização como o Urbe (nome do serviço, semelhante ao Uber utilizado na história) iriam se tornar onipresentes. E isso traria vantagens e desvantagens que eu procuro abordar na história. Outro ponto que procuro tocar é o que alguns sociólogos vem chamando de “uberização” do trabalho, que é a tendência de transformar o trabalhador, que antes era empregado assalariado, em “microempreendedor de si mesmo”, e desta forma ele deixa de possuir relação empregatícia com a empresa para o qual trabalha. Isso, a princípio, pode significar maior liberdade para o trabalhador, mas também transfere para ele todos os custos e riscos da execução de seu trabalho, e o deixa em desvantagem para negociar com a empresa os termos e condições desse trabalho, pois perde-se de vista a consciência de classe, que é justamente o que permite aos trabalhadores se organizarem de forma unificada para exigir seus direitos como tal. Individualmente, tratado como PJ (pessoa jurídica), dificilmente um trabalhador conseguirá negociar com uma grande empresa no mesmo nível de poder.

Em que momento surgiu a ideia de Acelera SP? Qual foi o catalisador do projeto?

Desde de 2013 eu venho reunindo ideias para escrever uma história cyberpunk ambientada no Brasil. Eu já tenho uma outra série em quadrinhos, chamada Nova Hélade, que mistura cyberpunk com fantasia (ao estilo de Shadowrun). Mas nesse cyberpunk ambientado no Brasil eu queria fazer algo mais “pé no chão”, amparado pela tecnologia atual, e, obviamente, sem elementos de fantasia. Mas a ideia de Acelera SP só surgiu mesmo no ano passado, quando o Raphael Fernandes me convidou para participar de uma antologia que ele está editando para a editora Draco chamada “Periferia Cyberpunk”. Então, motivado pela eleição do Doria para a prefeitura de São Paulo, reli todas essas anotações que vinha fazendo desde 2013, e comecei a esboçar uma história de 20 páginas ambientada numa São Paulo distópica pós governo Doria alguns anos no futuro. Mas eu não consegui terminar o roteiro a tempo do prazo que o Raphael tinha me dado, e acabei ficando de fora da antologia. No entanto, como eu achei que a história estava ficando muito boa, e o cenário tinha ficado bem construído, decidi seguir em frente e lançar ela de forma independente mesmo, financiando-a coletivamente através do Catarse.

As ZADs são uma idéia interessante de resistência na hq, nos dias de hj você vê alguma ZAD real representada de alguma forma em nossas cidades?

A ideia das ZADs (sigla para Zona Autônoma a Defender) eu tirei de uma das táticas de ação direta, usada sobretudo por movimentos autonomistas, de ocupação de espaços públicos para pressionar as estâncias de poder em favor de uma certa causa ou contra a apropriação privada daquele espaço (ou ainda sua destruição). Apesar de ser uma tática antiga (já era usada por anarquistas no século XIX), se tornou mundialmente difundida a partir da crise de 2008 com os movimentos “occupy”. Alguns exemplos disso foram o “Occupy Wall Street” no EUA, a ocupação da praça Tahrir no Egito, durante a Primavera Árabe e a ocupação do parque Taksim Gezi ma Turquia em 2013. No Brasil um bom exemplo disso foi a ocupação pelos alunos das escolas da rede pública estadual de São Paulo em 2015 contra uma reforma imposta pelo Alckmin que tinha como objetivo diminuir o número de salas de aulas e até mesmo fechar escolas inteiras. Mais de 100 escolas foram ocupadas por todo o estado e com isso o Alckmin acabou voltando atrás e desistindo dessa reforma (ao menos por enquanto). O mais interessante é que enquanto uma ocupação dessas existe (e resiste), ela serve como um laboratório de novas práticas e relações sociais diferentes das que estão estabelecidas na sociedade. Ou seja, não se trata apenas de se opor ao que está sendo imposto, mas de mostrar uma alternativa a essa imposição.

Isabela é uma personagem que defende a meritocracia, obviamente não percebe seus privilégios, há também um lado artístico meio controverso talvez, que a personagem representa. Ela seria uma representação do lado mais problemático de nossa classe média?

A Isabela na verdade representa em Acelera SP o que podemos chamar de super-ricos, que é aquela parcela de 5% da população brasileira que possui a mesma renda que os outros 95%, segundo o último relatório da Oxfam. Mas a meu ver o problema central da classe média brasileira, em especial da paulistana, é que ela se identifica com esses super-ricos (pois anseia um dia fazer parte desse seleto grupo), e deste modo passa a defender políticas públicas sociais e econômicas que beneficiam os mais ricos, mesmo que prejudiquem os mais pobres. Só que a classe média está muito mais próxima na pirâmide social dos mais pobres do que dos mais ricos, diante do abismo que é a desigualdade social. Deste modo, é muito mais fácil alguém da classe média ir parar no grupo dos mais pobres (diante de uma crise econômica, por exemplo), do que fazer parte do grupo dos super-ricos (ainda mais apenas trabalhando, sem recorrer a meios ilegais). Outro problema a meu ver é que na classe média há muitos profissionais liberais, freelances e pequenos empresários que não se consideram proletariados e não se identificam com a classe trabalhadora, mas sim com os grandes empresários. Mas, se você, como eu, é um freelance registrado como MEI, você é proletário. Não é porque eu tenho uma empresa aberta e um CNPJ que eu compartilho da mesma condição socioeconômica de um Jorge Paulo Lemann ou Ermínio de Moraes, que estão entre os mais ricos do Brasil. Então essa falta de identificação com a classe trabalhadora faz com que esses profissionais e pequenos empresários de classe média não lutem contra políticas públicas que apenas beneficiam esses grandes empresários e por vezes acabam prejudicando eles próprios. Em Acelera SP eu tento abordar essa falta de identificação de classe no personagem do Rodrigo.

”Acelera SP” critica de forma bem coerente os efeitos atuais do capitalismo em nossas vidas. Há algum outro tipo de crítica social que você pretende incluir na hq?

Há muitas críticas sociais e políticas que um cenário como o de Acelera SP me permitiriam fazer, mas nesta primeira HQ, pelo número restrito de páginas, vou me concentrar nas críticas à (falta de) mobilidade urbana, a precarização do trabalho, e a desigualdade social.

Como você vê as possibilidades de evitarmos uma realidade tão cruel dominada pelo capital? A luz no fim do túnel está próxima?

Perguntas bem difíceis essas, não? =)

Bem, eu não saberia respondê-las com precisão (e acho que ninguém saberia), mas como historiador posso afirmar que nenhum sistema socioeconômico se mantém hegemônico eternamente, e com o capitalismo não será diferente. Não sei como será esse sistema pós-capitalista, mas espero (e lutarei por isso) que ele seja mais justo e equânime. E que diferente do nosso sistema atual, valorize o coletivo em vez do individualismo, o compartilhamento em vez do egoísmo, a colaboração em vez da competição desleal, e o bem-estar das pessoas e do meio ambiente em vez do lucro pessoal a todo custo.

Como você avalia o cenário independente de hqs aqui no Brasil?

Acho que estamos vivendo um ótimo cenário de hqs independentes hoje em dia no Brasil. Plataformas de financiamento coletivo como o Catarse e o Apoia.se, por exemplo, estão permitindo vir ao mundo excelentes quadrinhos, tanto de forma impressa quanto digital, e que talvez não existiriam de outra maneira. E em geral o leitor também já não possui mais a mentalidade errada de que o quadrinista independente é um pobre coitado que não conseguiu publicar por uma editora. Nada mais longe disso. Publicar de forma independente é uma opção tão viável quanto publicar por uma editora, e em alguns casos, até mais. E digo isso como alguém que já teve as duas experiências nesses meus 17 anos de carreira como roteirista de quadrinhos.

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Professor, editor e fundador do Nerd Subversivo. Escreve sobre quadrinhos. É apaixonado por leitura, animações, design gráfico e hqs. Publica mensalmente no dia 15, save the date| Para segui-lo no Twitter: @lourinaldojr

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