CONSCIÊNCIA COLETIVA

Festival No Ar Coquetel Molotov (2017): Balanço Geral

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Quem vos fala quase não foi à 14ª edição do Festival No Ar Coquetel Molotov porque só decidiu que iria mesmo um dia antes e teve a sorte de conseguir um cartão de crédito emprestado para a compra. Acontece que, como de costume, as atrações foram divulgadas aos poucos e, até certo momento, nenhuma delas tinha me atraído de modo que eu sentisse disposição para gastar meu suado dinheiro com o evento, até que ninguém mais ninguém menos que Linn da Quebrada foi anunciada e em seguida, Noporn.

Aí, a vontade de ir comparecer ao festival nasceu e chegou a crescer um pouco, mas não coloquei a ideia muito para a frente por falta de verba, até que no dia 20 de outubro tomei conhecimento de que Priscila Senna, da Banda Musa, faria uma participação especial no show de Romero Ferro e Nega do Babado, no de Linn da Quebrada: era o brega recifense ganhando espaço num festival alternativo como o Coquetel Molotov, e eu, nascido e criado em Recife e amante desse gênero musical, não poderia perder esse rolê.

Meu relacionamento com o Molotov começou em 2016, quando fui à edição que aconteceu na Coudelaria Souza Leão, na Várzea, que trouxe artistas como Jaloo, Karol Conká e Céu. Lá, o único grande problema, a meu ver, foi a locomoção, principalmente no fim do evento, de manhã, quando tivemos que formar uma quilométrica fila e esperar por horas algumas vans que nos levariam à parte mais baixa do local, pois os palcos foram montados na parte mais alta da Coudelaria. Deixando de lado esse infeliz problema, ali, cansado, eu disse a mim mesmo que, se possível, seria um frequentador assíduo do Festival.

Neste ano, o espaço escolhido para sediar o evento foi o Caxangá Golf & Country Club, na Caxangá, que também é grande e cheio de verde, porém sem partes muito altas. Mesmo perdendo para a Coudelaria Souza Leão em questão de beleza, a escolha em si já foi positiva porque anulou qualquer possibilidade de estresse noturno ou matinal, afinal, não haveria cerimônia para entrar e/ou sair do clube.

Três foram os palcos em que aconteceram os/as shows/apresentações da tarde/noite do dia 21 e outubro e madrugada do dia 22: o Aeso, na qual está inclusa a tenda reservada ao Som na Rural, o Velvet e o Sonic, e sete, as atrações que eu pude conferir: Romero Ferro (PE), Lia de Itamaracá (PE), DIIV (EUA), Linn da Quebrada (SP), Afrobapho (BA), Noporn (SP) e Mamba Negra (SP).

O show de Romero Ferro aconteceu no palco Aeso, menor que os outros, situado num lugar com areia semelhante à da praia e, felizmente, ao lado de um espaço coberto onde acontecia uma espécie de feira. Felizmente porque um pouco depois do início do show (18:00) começou a chover e as pessoas, eu incluso, correram para esse espaço coberto. Esse deslocamento aconteceu umas duas ou três vezes, até que Priscila Senna, da Banda Musa (antiga Musa do Calypso), apareceu e, com toda a sua graça, trouxe-nos de volta à frente do palco, mesmo de baixo de uma chuva relativamente fraca. Ela e Romero Ferro cantaram Novo Namorado, clássica música brega composta por Rodrigo Mell (também cantada em forró por Aviões do Forró e Calcinha Preta) que pode e deve ser chamada de hino devido à quantidade de pessoas que a conhecem, a amam e sabem cantá-la de cor do início ao fim. “Não vou negar, sofri demais quando você me deu um fora. Mas o tempo passa, o mundo gira, o mundo é uma bola. Pintei o meu cabelo, me valorizei, entrei na academia, eu malhei, malhei, malhei. Dei a volta por cima e hoje te mostrei meu novo namorado. Pensou que eu ia chorar por você, que eu ia morrer de amor, que eu ia pedir pra voltar? Ah, ah, ah, ah, ah, ah”. Vai dizer que nunca ouviu?

A seguir, um pequeno vídeo feito por mim mesmo desse momento icônico:

A rural de Roger Renor também marcou presença no Molotov deste ano com o Som na Rural, e dessa vez trouxe consigo Lia de Itamaracá, cantora, compositora, dançarina de ciranda brasileira e patrimônio vivo de Pernambuco, que, acompanhada de suas duas backing vocals, trouxe-nos a ciranda que não é minha só, mas de todos nós. Isso é tão verdade que enquanto ela cantava, formou-se uma grande roda em frente à tenda com pessoas que, em posse da ciranda, cirandaram por um bom tempo sem se importarem de estarem melando seus pés num lamaçal provocado pela chuva.

Foto de Carlos Henrique

Segue um pequeno vídeo da Lia de Itamaracá cantando

DIIV, por sua vez, é uma banda de indie rock e dream pop norte-americana (do Brooklyn) que eu tive a sorte te conhecer graças ao Coquetel Molotov. Composta por cinco integrantes, Zachary Cole Smith (vocal, guitarra), Andrew Bailey (guitarra), Devin Ruben Perez (baixo), Colin Caulfield (teclados, guitarra) Celso Sorc (guitarra) e Ben Newman (bateria), a banda é um projeto liderado pelo primeiro (Z. Cole Smith) e está em turnê para promover o último álbum, Is the Is Are, lançado em 2016.

Aconteceu no palco Velvet o show dessa banda, responsável por um tipo de música que, por experiência empírica, te faz fechar os olhos e se mexer e rodopiar em movimentos de dança que muito lembram a Lorde e/ou a Aurora dançando em seus shows. Grande parte do show dos meninos aconteceu em baixo de uma forte chuva, mas isso não foi nada para quem, das 20:30 às 21:40, estava no grande espaço de grama em frente ao Velvet. As pessoas que antes não paravam de fugir da chuva parecem ter escolhido o momento do show para declararem trégua à queda d’água, e foi lindo ver todo mundo singing and dancing in the rain.

Apesar dos bons sentimentos e sensações provocados pelas atrações anteriores, a coroa de Rainha da Noite é, por direito, de Linn da Quebrada, que, na minha opinião de quem viu sete apresentações, nos proporcionou o melhor momento da noite com um show para promover Pajubá, seu recém lançado primeiro álbum. Bicha, trans, preta, periférica, atroz (nem ator, nem atriz), bailarinx, performer e terrorista de gênero, como está dito em seu site pessoal, Linn foi chamada ao palco por Maria Clara Araújo, outra mulher transexual, preta, periférica e futura pedagoga que, inclusive, escreveu mais um belo capitulo de sua história e das demais pessoas transexuais ao ser mestre de cerimônia da edição de 2017 do Festival No Ar Coquetel Molotov.

Foto de Carlos Henrique

O show, que aconteceu no palco Velvet, começou com Submissa do 7º Dia, a primeira do Pajubá, e se encerrou com Bixa Preta, single que não está no álbum, by popular demand, sendo atravessado por Bomba pra Caralho, Bixa Travesty, Transudo, Necomancia, Coytada, Pare Querida, Dedo Nocué, Enviadescer, A Lenda e Talento. Como se isso não fosse o bastante, no meio do show, Adriana Araújo, ou melhor, Nega do Babado foi convidada ao palco para cantar com Linn da Quebrada o hit Milk Shake, outro brega recifense que pode ser considerado um hino resistente à passagem do tempo. “Eu gosto assim, eu gosto quando você sobe e desce, fica em cima de mim, tirando a roupa, me deixa louca, louca de amor” nunca soou tão lindo como na noite do dia 21 de outubro.

Para não me alongar muito, deixarei falarem por si os vídeos e o link para ouvir o Pajupá no Spotify a seguir:

Talento

Necomancia

Enviadescer – Interlude

Milk Shake C/ Negadobabado

Bixa Preta

Pajubá no Spotify

Um pouco depois da hora marcada (23:40), foi a vez de AfroBapho brilhar, em outro palco, o Sonic. A quem não sabe, trata-se de um projeto coletivo criado na Bahia por Alan Costa, com o intuito de, numa perspectiva de luta dos negros, dar visibilidade às vozes marginalizadas na intersecção entre raça, gêneros e sexualidades, como está dito na página do Facebook que o projeto tem. Na ocasião do Coquetel Molotov, Alan Costa (da frente) ficou responsável pelo som todo trabalhado na música feita por gente negra (divas norte-americanas, funk carioca, queer rap, trap, pagode) e Yago Chagas, Elvis Anjos e Deivid Lisboa (atrás, da esquerda para a direita) pela dança, performance, enfim, pelo tombamento da noite.

Em seguida, no mesmo palco, Noporn, duo paulista dos DJs Liana Padilha e Luca Lauri, fez seu primeiro show em Recife, com músicas, ou melhor, poemas musicados do Noporn (2006), seu primeiro álbum, e do segundo, Boca (2016), a exemplo de Xingu, Janelas, Baile de Peruas, Cavalo, Fumaça, Tanto, Canibalismo, Gang Bang, Maiô da Mulher Maravilha e Preferia Nunca. Em posse de um teclado, Luca produzia as batidas de um delicioso e envolvente som eletrônico e Liana, com um microfone em mãos e posicionado frente à boca, nos dizia coisas como “descubra seu homem, fale com seu santo, acredite, desvie meus olhos, não leve minha boca a sério, pare de machucar seus joelhos… você tem que parar de cair do alto dos meus encantos” ou “chegou assim, cavalo puro, boca grande, braços firmes, olho fixos, mãos, dedos duros entrando por dentro da roupa… escorro afogada em líquidos que saem do corpo do meu amigo perfumado… derreto, açucarada…”.

Foto de Carlos Henrique

Aqui estou curtindo muito Noporn

Mamba Negra, por sua vez, ficou responsável por fechar a noite e iniciar a madrugada com chave de ouro, trazendo-nos bastante música techno, eletrônica e orgânica feita ao vivo; e pela quantidade de gente que, mesmo exausta, se reuniu em frente ao palco Sonic para, cada um a seu modo, fazer movimentos de dança vários, é preciso logo dizer que a festa paulista itinerante teve muito sucesso na empreitada. Mas a apresentação não se reduziu à música. Composta também por artistas visuais e performers, a festa nos fez ficar vidrados nas performances que entregou chamando ao palco, inclusive, artistas de Recife que estavam na plateia curtindo a música, a exemplo de Libra Crux, Hamal, Mxrcus, Xxutra, foi tudo muito lindo de se ouvir e ver.

Em suma, pode-se dizer que a edição deste ano do Festival no Ar Coquetel Molotov escreveu um lindo capítulo em sua história ao abraçar um pouco da música brega de Recife e ao dar voz e visibilidade a artistas LGBTs e negros, tornando-se, assim, um episódio de afronte à toda essa onda de conservadorismo e opressão aos quais estamos sujeitos no Brasil e no mundo.

“Que venha a 15ª edição, de preferência num lugar em que os seguranças não tenham que colocar as pessoas para fora ao raiar do sol…”

 

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Henrique é graduado em Letras, professor de Português e futuro jornalista que faz pesquisa sobre metáfora. Escreve sobre e é apaixonado por cinema, literatura, música e afins. Publica reviews de filme mensalmente | Para segui-lo no Instagram: @henrickcarlos

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