CONSCIÊNCIA COLETIVA

A sólida fábrica dos amigos invisíveis

em Comportamento/Novidades/Opinião por

Essa semana lembrei de um fato curioso ocorrido na infância e inevitavelmente pensei nos poucos amigos que tenho e na multidão de desconhecidos que acompanho a distância. Tinha aproximadamente uns 14 anos e na primeira semana livre da escola, peguei uma gripe terrível, daquelas que pede um bom tempo de cama. Estávamos todos ansiosos para brincar na rua, conversar, escutar música na calçada do vizinho e lá estava minha mãe e a coriza infernal me impedindo de cruzar o portão.

A campainha tocou e comuniquei para alguns amigos que eu estava vendo tv e que não poderia sair naquela noite, voltei cabisbaixo para dentro de casa. Menos de 5 minutos depois a campainha voltou a tocar e lá está boa parte dos meus colegas da vizinhança sentados na calçada da minha casa, dizendo que ficariam ali mesmo conversando comigo. Peguei um travesseiro, sentei na cadeira enrolado no lençol e passei algumas horas rindo com eles, todos proibidos de entrar para não contraírem o vírus. Puxamos um fio de extensão e colocamos o micro system com algum disco para tocar. Não foi o início de férias que desejei, separado dos amigos por um portão e muitas doses de antitérmicos, mas ainda assim foi divertidíssimo. Hoje, 16 anos depois, passei uma semana inteira gripado, de cama e mesmo falando com um bocado de gente nas redes sociais, só duas delas perguntaram se eu estava bem e exigiram fazer uma visita.

Tive a certeza que o principal ingrediente das relações humanas atualmente é esse: o distanciamento. Naquela época, longe desse processo de virtualização, fazer amigos significava mergulhar num mar gigante, onde afeto, carinho, raiva e decepção conviviam. Uma relação que, de fato, nunca foi harmônica, mas ainda assim estávamos sempre dispostos a encontrar uma maneira de reorganizar os vínculos e apontar o barco para novas conversas, novas formas de ver o mundo. Todo esse processo de conquista era muito fluído e na maioria das vezes fazíamos amigos porque eles nos faziam bem. Não havia tanta resistência, tantos muros impedindo qualquer meia hora de conversa, um abraço que fosse.

Frequentemente dizem que essa distância é um reflexo natural do processo de envelhecimento, a vida te suga, você trabalha, trabalha, precisa alcançar todas essas metas sociais empurradas garganta abaixo e quando menos percebe, a solidão se acostuma, cristalizada pelo tempo. Esse é um fator indiscutivelmente importante, mas tenho a impressão que mesmo com todo tempo do mundo, esses abismos continuariam a existir. A verdade é que viver entre amigos exige um esforço, uma dedicação conjunta e permanente. Falo aqui dos amigos de verdade, não dos amigos que compartilham as festas e as mesas de bares, mas nunca estão disponíveis quando precisamos deles. Os amigos de verdade, raros, não apenas percebem a nossa ausência, como eliminam muitas barreiras em nome desse vínculo.

Ultimamente tenho visto uma galera enorme reproduzindo uma lógica estranha, estabelecendo uma conexão evasiva e sem afeto com muitas e muitas pessoas. Mergulham de cabeça na lógica do facebook e lá estão bebendo, posando para inúmeras fotos; a ideia central é mostrar para os seus próprios seguidores (aquela audiência doentia da qual todos fazemos parte) que está cercado de pessoas interessantes, todas dispostas a vender aquele pacote completo de felicidade, cada um com sua própria dose de investimento. É assim que nascem as pequenas tribos, os grupinhos seletos, a galerinha da sexta, segmentos compostos – seletivamente e de forma fabril- por gente que divide o mesmo estilo de vida. Os lugares podem ser diversos e alternativos, as pessoas não.

A verdade é que viver entre amigos exige um esforço, uma dedicação conjunta e permanente.

Sempre que percebo essa conjuntura, me pergunto se elas realmente podem se dizer amigas umas das outras, até que ponto chamam aquele vínculo de relação e principalmente se existe afetividade. Quantas daquelas pessoas estão preparadas para lidar com os nossos fracassos, para entender que não somos perfeitos e que muitas vezes iremos atravessar problemas gravíssimos? Suspeito que poucas. Parece que mesmo permitindo tanta interação, tanta presença materializada em mensagens e áudios, as redes sociais não conseguem alcançar a sinergia e autenticidade presentes no passado.

Esse desabafo pode parecer pessimista e sua intenção é essa mesma. Apesar de ter me colocado muitas vezes como parte desconectada, sei que não estou isento dessa lógica, ainda reproduzo muitas dessas práticas, mesmo procurando evitá-las. O primeiro passo para mudar essa realidade é perceber que esse distanciamento existe, avaliar os seus danos e buscar novas formas de convivência, o segundo passo, e talvez o mais importante, seja manter os pés firmes ao lado dos poucos que ainda sonham com um mundo mais acolhedor. A gripe, o portão trancado e os conselhos da minha mãe não impediram que, naquela noite de janeiro, eu estivesse cercado de pessoas queridas, adolescentes que mesmo livres para fazer qualquer outra coisa, preferiram me incluir naquele mundo que era tão nosso e que hoje, claro, já não existe mais.

Facebook Comments

Raphael é professor, formado em Ciências Econômicas, Letras e atualmente se dedica ao mestrado em Educação. Escreve sobre música, comportamento e cinema. É apaixonado por Twin Peaks, playlists e quase sempre pelos amigos. Publica mensalmente dia 9, save the date | Para segui-lo no Twitter: @RaphaelAlves

Deixe uma resposta

Your email address will not be published.

*

Último post de Comportamento

Ir para o Topo
Pular para a barra de ferramentas