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O que achamos : Dona Flor e Seus dois Maridos (2017)

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Review

Nota de Luiza
7/10
Média
7.0/10

Dia 2 de novembro estréia a nova (re)adaptação do clássico da literatura brasileira, de Jorge Amado, Dona Flor e Seus dois Maridos ! O elenco conta com atores bastante conhecidos do público brasileiro. A Juliana Paes como Flor, Marcelo Farias como Vadinho e Leandro Hassun como Teodoro, o boticário. Além destes, temos Nivea Maria como a mãe de Flor, Duda Ribeiro e outros.

Com o lançamento de 2017, a história de Jorge Amado, publicada pela primeira vez em 66, conta com sua terceira versão para o audiovisual. A primeira delas, de 76, foi eternizada por Sônia Braga, José Wilker e Mauro Mendonça – o que a meu ver já eleva bastante toda e qualquer expectativa para novas readaptações. A verdade é que adaptar clássicos como Jorge Amado é sempre um risco por já existir um padrão bem alto a ser alcançado, marcado pelo referente a ser adaptado. Neste caso, dadas as adaptações posteriores ao lançamento do livro, a versão de 2017 nem foi lançada, mas já enfrentava o desafio de se aproximar aos seus predecessores antes do primeiro “gravando”. O que dizer então do Dona Flor de 2017?

O filme, no geral, é bem produzido. Conta com o investimento das grandes produções que atores globais costumam carregar consigo dada a grande possibilidade de reobtensão, por meio da bilheteria, do dinheiro investido. E é isto. Rostos conhecidos, história conhecida sem o “re” da adaptação, o filme é um clássico remake do que foi lançado em 76. Tudo é muito semelhante, para não dizer igual. E olhe que não assisti, à época do lançamento, a primeira adaptação em 76 – nasci mais de 12 anos depois, assisti pouco antes da escrita desta crítica a fim de tirar a sensação de “já vi isto antes em algum lugar”, mas de fato havia visto.  Talvez o filme seja um tributo, não uma readaptação.

A história e cenas de Dona Flor já são um clássico do nosso imaginário imagético. Quem não conhece a cena de Dona Flor ladeada pelos seus dois homens, um nu e um outro vestido, descendo as ladeiras do pelourinho após uma missa? Existem pontos positivos, claro. Como disse, a produção é bastante coerente e cumpre bem seu papel em resgatar aspectos da Bahia de 47. Figurinos, caracterizações, cenários… tudo é bem coeso e nos coloca no universo de Flor. As atuações, por outro lado, não surpreendem, não são nada que já não tenhamos visto em novelas globais ou, no caso de Hassum, nos seus esquetes de comédia.

Apesar de poucas, ou nenhuma, mudança no roteiro de 76, acredito que o filme tenta não romantizar em excesso a relação abusiva vivida por Flor e Vadinho. Afinal, o que ele diz ser amor por Flor é, na realidade, uma postura egoísta de homem machista que crê que bom sexo apaga maus tratos, traições e negligência afetiva. Para Vadinho tudo pode ser curado e perdoado com um pouquinho de “vadiagem”. E na vida real não é bem assim. Teodoro, o segundo marido, é o oposto de vadinho, mas incorre igualmente no machismo por um outro viés: o da esposa-mãe-empregada-doméstica. Isto, infelizmente, não é exclusivo do filme ou livro, mas da nossa cultura em 1940, 60, 70 ou 2017.

O que poderíamos então ter visto em um Dona Flor de 2017?

Acredito que se tratando de uma readaptação, a Dona Flor de hoje, a mulher que hoje pudesse ou tivesse dois maridos, seria bastante diferente da de 1947. Ter dois maridos hoje não significaria submissão a ambos, mas autonomia e libertação sexual e social da Flor. Eu gostaria de ter visto uma Flor que cozinha, que dá aulas de culinária, que se sustenta, tem seus dois homens, mas que não apanha de um deles e nem se contenta com a frustração sexual em nome do “o que vão dizer?”. Quem sabe em uma quarta adaptação para o audiovisual, não é mesmo?

Trailer

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Luíza é graduada em Letras pela UFPE, estudante de Direito na UNINASSAU. Escreve sobre a vida cotidiana e as relações interpessoais, e de vez em quando sobre cinema. É curiosa e adora observar as pessoas, seus discursos e suas práticas. Publica mensalmente no dia 12, save the date | Para segui-la no Instagram: @madluiza

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