CONSCIÊNCIA COLETIVA

O maior e melhor apagão da música pop completa 10 anos

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A música pop, como conhecemos , é um gênero consolidado e fortalecido porque conseguiu, como nenhum outro, se manter fiel aos nossos anseios e a nossa forma de representar o mundo, voltados exclusivamente para a imagem em movimento. É até possível dizer que a música pop é uma mas matrizes fundadoras desse movimento. Esse casamento tem sido a sua maior fortaleza, uma vantagem que, quando não equilibrada, pode significar fracasso e esquecimento. 

Foi exatamente essa armadilha que fez do melhor disco de Britney, Blackout, não ter recebido o devido reconhecimento na época em que foi lançado.  Spears estava enfrentando inúmeros problemas psicológicos, recebendo um tratamento devastador por parte dos tabloides; de 2004 até o início de 2008, a sua vida foi exposta com uma violência nunca vista antes. Até mesmo uma parte dos próprios fãs contribuíram para a permanência desse quadro, exigindo que ela estivesse em forma, criando expectativas para os seus constantes retornos, negligenciando o quadro patológico e deprimente que ela enfrentava. A própria Britney, recentemente, ainda vítima desse tipo de cobrança, precisou dizer aos seus fã que não exigem o seu retorno, porque sempre esteve presente.

Com os olhos voltados para esse circo midiático e lucrativo, apenas uma pequena parte do público desfrutou do Blackout, trabalho produzido por nomes como Danja, Bloodshy & Avant e The Neptunes e que teve a própria Britney como produtora executiva. Lembro que não fui um grande fã do disco na época em que foi lançado e hoje entendo que, como boa parte do publico naquela época, escolhi rejeitá-lo por não sentir que Britney estava de fato presente. Como disse anteriormente, é preciso, na música pop, que a própria artista protagonize a jornada proposta pelo disco. A Britney que tínhamos por perto naquela época, por todas as questões aqui já colocadas, perseguida e aprisionada, não conseguia fazer do palco o seu lugar de libertação.

O desiquilíbrio entre a imagem atordoada de Britney e a excelente trilha sonora que estava sendo vendida, fez com que os clipes dessa era não fossem os melhores, as poucas apresentações ao vivo, incluindo a do VMA 2007, são constrangedoras; fatores que impediram o trabalho de atingir o status que merecia. Como pontuei, na música pop,  esses elementos estão, com raras exceções, sempre interligados. Não é a toa que resenhistas da época, como o da All music, afirmaram em coro que o projeto continha “uma coerência que a imagem pública de Spears não apresentava.”

Por outro lado, muitas pessoas defendem que esse disco não existiria se Britney estivesse em plena forma e saudável, já que ele pode ser tomado como uma trilha para a vida noturna a badalada que ela levava.  Prefiro imaginar o estrago devastador que ela teria feito no palco, se estivesse totalmente envolvida com a divulgação; bem trabalhado e com a excelente presença de palco que apresentava até aquele momento, esse teria sido facilmente um dos lançamentos mais impactantes daquele ano.

Blackout foi uma das primeiras obras que abusou, sem medo, do uso de sintetizadores, nos colocando diante de uma produção tão bem arranjada e cheia de frescor, que facilmente poderia ser lançada hoje. Qualquer fã de música eletrônica, livre dos preconceitos que ainda rondam as cantora da música pop, reconhece facilmente o seu valor enquanto produto artístico. A sensação ao escutar Blackout é muito parecida com a de ligar uma máquina robótica, milimetricamente projetada para atingir todas as partes do nosso corpo, ficar parado não é uma opção. A voz de Britney, totalmente embalada por inúmeras camadas de auto-tune, combina perfeitamente com a sonoridade proposta. Nunca um recurso como esse, ainda hoje visto com bastante preconceito, foi tão bem executado. Rob Sheffield, da Rolling Stone analisando algumas demos de Britney, disse : “Britney usa Auto-Tune do mesmo jeito que Bob Dylan usava sua gaita — para pontuação, para atmosfera, para um efeito sonoro alienante [e] estranho. É uma explosão de distorção vocal, áspera na superfície, porém expressiva, capaz de soar descontroladamente divertida, abrasivamente pisada ou sedutora.”

Avaliando tudo que foi lançado posteriormente, inclusive os outros trabalhos de Danja, é possível dizer que ninguém conseguiu criar batidas tão envolventes como as do Blackout. Não existe outro disco como ele e acho que pouquíssimas artistas conseguem ter um trabalho desse nível na sua biografia. Produzida pelo próprio Danja, em parceria com Jim Beanz, uma das minhas faixas preferidas, Hot Is Ice, é um exemplo claro dessa unicidade do disco. A fórmula é simples :  a característica voz robótica de Britney (aqui acompanhada de backing vocals) + uma batida uniforme, constante, que permeia toda a faixa toda +  o elemento mágico: pequenos samples inseridos digitalmente, que lembram os sons de alguns jogos antigos do Atari (um recurso também usado na viciante Gimme More). O resultado é uma música onde as camadas são facilmente identificadas, estão perfeitamente harmonizadas e nem de longe soam monótonas.  Destaque também para faixas como Get Naked e a excelente demo Get Back.

Mesmo com a violência absurda sofrida por Britney e dos efeitos colaterais (visíveis até hoje) que esse momento da sua carreira deixou, podemos, por fim, dizer que Blackout é um dos discos mais importantes da música pop. Ao lado, por exemplo, do Ray Of Light, de Madonna e do Fever , de Kylie Minigue, ele continua sendo um trabalho atemporal. Esse, sem dúvida, é o melhor pedaço de Britney, sua produção mais coesa e impactante, uma pena que ela reflita, na mesma medida, os enclausuramentos mais perversos da indústria musical machista e misógina. Possivelmente não teremos um disco como esse tão cedo e se um dia algo parecido voltar a acontecer, precisamos estar atentos, egoísmo e cobrança não significam apoio; essa é uma lição que Britney nos ensinou em 2007 e continua nos ensinando hoje, mesmo sendo a única vítima desse processo. Vida longa ao Blackout, o único, maior e melhor apagão da música pop.

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Raphael é professor, formado em Ciências Econômicas, Letras e atualmente se dedica ao mestrado em Educação. Escreve sobre música, comportamento e cinema. É apaixonado por Twin Peaks, playlists e quase sempre pelos amigos. Publica mensalmente dia 9, save the date | Para segui-lo no Twitter: @RaphaelAlves

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