CONSCIÊNCIA COLETIVA

Teocrasília: Uma distopia Brasileira

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O quadrinista Denis Mello está produzindo uma série em quadrinhos chamada Teocrasília que retratará um Brasil governado pela ala religiosa da política nacional, a chamada “Bancada da palavra”. Toda a história parte dos eventos reais ocorridos desde as chamadas jornadas de Julho de 2013 até os eventos decorrentes do recente Impeachment de Dilma Rouseff. A hq está em campanha de financiamento coletivo no Catarse. Uma prévia da hq pode ser lida online e também é possível acompanhar a própria história principal tabém na web

Em Teocrasília, Denis pretende retratar um cenário mais extremo, com o Brasil transformado num cenário distópico de uma forma que ele acredita que mesmo com o crescimento da presença de religiosos em cargos políticos, não é possível que ocorra de fato. A história retrata uma teocracia opressora, e o mais assustador é que vemos as sementes de algo parecido germinando em nosso cenário político.

Denis Mello é conhecido também por Beladona, quadrinho co-criado em parceria com Ana Recalde, sucesso de crítica e vencedora do troféu HQ Mix (Publicação Independente de Grupo em 2013, Melhor Quadrinho para a Web em 2015 e Adaptação para outras Linguagens em 2016). Indicado ainda como Desenhista Revelação em 2013 e Melhor Quadrinho da Web em 2013 e 2014.

Entre Dezembro de 2016 e Julho de 2017 viveu em Angoulême na França, capital europeia das HQs, onde foi fortemente orientado em torno da arte de Teocrasília (por profissionais da Escola Europeia Superior de Artes Visuais). Além de participar de exposições em Paris (na feira de desenho contemporâneo Paris DDESSIN’17, com originais de ‘Teocrasília: Edição Histórica’) e Angoulême (com originais do primeiro capítulo de Teocrasília). Trabalha como ilustrador e oficineiro em paralelo a seus projetos principais, além de já ter lecionado Artes na rede municipal de Niterói, sua terra natal e atual residência.

Boa parte de sua produção está disponível para leitura no site denismello.com

Leia a seguir a entrevista concedida ao nosso site:

Você acredita que a realidade retratada em Teocrasília é possível no Brasil?

Não acredito, não naquele nível. A ideia é realmente mostrar um extremo. Nas últimas semanas tivemos muitas notícias de intervenções (ou tentativas) de líderes religiosos na política, só do Crivella (prefeito do Rio de Janeiro) a média é de quase uma por dia, e eu já considero isso um prejuízo. Qualquer passo na direção desse cenário já é péssimo, e pela primeira vez fiquei com um gosto realmente amargo na boca, mas, no ponto retratado na história eu não creio que chegaremos. Exposições sendo fechadas, propostas de censura ao conteúdo de músicas, games e filmes, ruas tendo o nome mudado com referências pentecostais sem consulta à população, espaços públicos sendo liberados gratuitamente para eventos religiosos, igrejas riquíssimas obtendo perdão de divida tributária, vereador realizando culto na Câmara Municipal… Isso tudo e mais um pouco no espaço de uma semana me deixou com a pulga atrás da orelha, confesso.

Este ano a série americana The Handmaid’s Tale mostrou uma distopia onde os religiosos cristãos impunham uma teocracia nos EUA, muitas pessoas, especialmente mulheres, sentiram desconforto ao contemplar uma possibilidade tão opressora e violenta, Teocrasília vai retratar o tema de forma tão realista quanto a série?

Vai sim! Um dos núcleos em especial, o da personagem Vicky, vai mostrar bastante sobre o abuso às mulheres, sobre a posição e papel da mulher nessa sociedade que obviamente é bastante misógina. Mas o leque de situações é bem mais amplo, pois tem mais personagens e não fica presa num só ambiente, explora mais desse mundo e do seu funcionamento, principalmente a partir do livro 2, e sempre de forma nua e crua.

Como você pretende retratar as minorias na história? Há personagens LGBTQ na narrativa, por exemplo?

Tem sim, uma personagem que aparece a partir do capítulo 2, ela se veste como um homem, mas sua sexualidade não será colocada em evidência ainda. Nesse primeiro livro não tem nenhum momento específico que trate de minorias. É citado e em determinado momento mostrado, que as favelas continuam num estado de exceção, que atividades ilegais continuam transcorrendo sem grande fiscalização ou intervenção do estado. Esse primeiro arco coloca as peças nos seus devidos lugares no tabuleiro, futuramente irei explorar melhor isso, mas não vale detalhar agora.

Como você acha que se sentiria afetado, sob um ponto de vista mais pessoal, na possibilidade de um governo influenciado por dogmas religiosos?

Eu sou um sujeito bastante libertário, acho que se determinados comportamentos fossem proibidos minha vida perderia a graça e o sentido. Eu não tenho a menor condição de viver sob um regime como o descrito na história, e creio que eu adotaria um viés de luta contra o sistema, de resistência, nem que tivesse que deixar a vida como conheço pra trás. Produzir essa HQ já é um pouco disso, salvo as devidas proporções. O personagem Yuri tem muito de mim, usei pessoas que conheço como base para os personagens, fica mais fácil pegar um arquétipo pronto e entender como essa pessoa se comportaria naquele contexto e nas situações nas quais a história vai coloca-la. Fica mais crível e heterogêneo.

Qual seria sua análise sobre o que favorece o crescimento da bancada evangélica no congresso?

Existe uma onda conservadora global clara, não é um movimento exclusivamente brasileiro, mas nós estamos na vanguarda nesse caso.

As igrejas de esquina, os grandes templos, a proliferação de determinadas religiões se refletem na política de forma proporcional. Essas igrejas são grandes currais eleitorais e não é segredo que existe sim um planejamento de assumir cargos executivos. Não é teoria da conspiração, eles realmente trabalham nesse sentido, é um grande negócio, porque pros grandes pastores não se trata realmente de fé, mas de grana e poder. Nesse jogo os princípios morais servem pra inflamar os fieis e cativar seu voto e obediência cega. Mas não são todos assim, infelizmente os exemplos ruins se destacam, justamente porque eles buscam notoriedade em se meter em esferas que não deveriam lhe dizer respeito.

Mesmo morando em Niterói, existe uma proximidade muito grande com o município do RJ, como você vê a gestão Crivella?

A gestão do Crivella é desastrosa, como disse na primeira resposta desta entrevista, ele tem sido bastante atuante em colocar a “fé” e a moralidade como guia de suas ações. Ele já começou comprando briga com o Carnaval com um corte de gastos que não faz nenhum sentido, considerando o quanto de grana é injetada na economia da cidade ele não cortou gasto, cortou investimento porque o Carnaval não é um supérfluo por aqui. Economicamente não tem sentido, o que me leva a crer que é uma decisão por princípios, por essa moralidade idiota da qual ele afirma ser porta voz. Como quando disse que “o povo do Rio” não queria o Queermuseu. Ele não consultou ninguém, ele considera que, por ter sido eleito, sua opinião pessoal é a opinião da maioria? Não, ele é só um hipócrita safado. Na Vila do João (no Complexo da Maré) ele alterou o nome de dezenas de ruas sem consultar os moradores, que agora vivem na Rua do Perdão, da Adoração, do Otimismo, Éden, Monte Sião… No dia 14 de Abril vamos comemorar o “Dia do Avivamento da Rua Azusa” que é basicamente um evento que rolou em Miami início do século passado e foi a pedra fundamental do movimento pentecostal que deu origem à Igreja Universal. Enfim, eles tanto queriam e conseguiram: Um cargo no executivo de uma das maiores cidades do país. Isso dá muita força pra eles internamente, embora pra quem olhe de fora seja um absurdo atrás do outro. A real é que a tendência a cada ciclo eleitoral tem sido ver esse braço religioso na política aumentando exponencialmente, então não tenho nenhuma esperança de ver mudanças num futuro próximo, muito pelo contrário.

Você considera uma temática polêmica como esta mais fácil de publicar de forma independente ou as resistências se tornam maiores?

De forma independente eu não sofro interferência no meu conteúdo além de, talvez, passar abaixo dos radares conservadores num primeiro momento pelo menos. A tendência é circular mais forte no alcance da minha bolha. Eu não tenho como prever muito ainda como será a repercussão e as reações ao projeto, estou curioso e torcendo pra não ter muito problemas, porque meu maior interesse é que seja possível terminar a publicação da HQ na íntegra, os 6 volumes, e alcançar o maior número de leitores possível. Felizmente tem uma editora em parceria comigo na impressão do livro, que vai chegar às livrarias e encontrar o grande publico. Ela me dá liberdade total de criação e publicação online, participa apenas na edição do projeto gráfico e impressão do livro nesse primeiro momento. Temos mais planos comerciais pra frente, mas em vários sentidos tenho a liberdade do independente e é uma forma que me agrada muito trabalhar.

Fale um pouco sobre a experiência de Produzir quadrinhos independentes no Brasil. 

É um grande desafio, eu só aconselho tomar esse caminho se você tem convicção de que quer muito colocar suas histórias pro mundo ler, que não vai conseguir dormir tranquilo sem isso, porque sinceramente é algo que te consome e que já me fez passar por fases nada fáceis. Pelo menos no meu caso, o meu padrão de trabalho que é complexo toma muito tempo. Uma quantidade de tempo que não tem retorno financeiro proporcionalmente e isso já me atormentou, mas nunca duvidei de que eu realmente tenho que seguir por esse caminho. Frequentar os eventos é importante, fazer contatos, expandir seu publico, vender seu material, esse tipo de coisas.

Um dos motivos que torna a campanha no catarse tão importante para Teocrasília é justamente trazer um primeiro grande momento de divulgação além da possibilidade de captar no financiamento uma grana que vai ser primordial para a produção do segundo volume em 2018. Produzir cada volume toma um tempo gigantesco e não estou conseguindo pagar as contas com o projeto até o momento. Também haverá um financiamento recorrente no próprio Catarse após a campanha do livro 1. Isso tudo é fundamental, pois esse suporte é bom para todas as partes envolvidas. Como explico no texto da campanha, além de viabilizar uma sustentabilidade da profissão pro autor, pois muitos de nós acabam tendo que levar isso como um hobby, tem trabalhos que tomam o seu dia e sua rotina, e obviamente obras de ponta, que elevem o nível de qualidade e amadurecimento do mercado precisam de autores que possam dedicar-se aos projetos como prioridade.

Enfim, é um cenário em formação, um mercado embrionário. Ao longo dos próximos anos e décadas, se depender dessa geração da qual faço parte, que tem vindo com livros cada vez mais interessantes e tem tentado se aprimorar e encontrar caminhos pra sua sobrevivência para além do nicho, esse embrião pode vir a ser uma criança bonita e saudável. Precisamos que o publico nos acompanhe nessa jornada e tenha cada vez mais interesse em se informar sobre o que de melhor vem sendo publicado, nos leia e nos acompanhe.

Confira o vídeo da campanha no Catarse

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Professor, editor e fundador do Nerd Subversivo. Escreve sobre quadrinhos. É apaixonado por leitura, animações, design gráfico e hqs. Publica mensalmente no dia 15, save the date| Para segui-lo no Twitter: @lourinaldojr

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