CONSCIÊNCIA COLETIVA

Precisamos refletir sobre o papel social da Universidade

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É inegável que a Universidade ainda é um espaço importante para construção de um mundo mais inclusivo e reflexivo.  É imprescindível que nela o pensamento teórico-crítico, o posicionamento político e o encaminhamento de alternativas para a solução de alguns problemas se façam presentes. Diante disso, é fundamental pensarmos constantemente sobre a eficácia das suas ações e sobre o papel social que ela deve ocupar diante de um mundo complexo e dinâmico.

Sabemos também que não existe uma Universidade igual a outra e que cada uma das mais de 2.400 em atividade aqui no Brasil possui uma dinâmica diferente e atua diante das limitações cada vez maiores impostas pelo assombroso momento político. Dito isto, é fundamental pontuar que as generalizações são sempre perigosas e incompletas, mas isso não nos impede de questionar e pensar sobre algumas práticas ainda danosas e recorrentes nesse espaço.

A primeira delas, sem dúvida, é o abismo entre ensino e pesquisa, ambos apontados como pilares da atuação do espaço acadêmico.  Não faz o menor sentido enfatizar a pesquisa como única forma de captação de verbas, banalizando o ensino e a atuação docente. São duas atividades fundamentais; devem conviver integradas, de forma que os estudantes entendam que ambos são caminhos viáveis e legítimos de contato com a sociedade.  Essa lacuna é fruto não só da política interna, exercida e defendida por muitos agentes, mas também da falta de recursos e das péssimas condições de trabalho destinadas aos profissionais que optam pela atuação em sala de aula.

Não é à toa que a procura por cursos voltados para a atuação no fundamental I e II ou médio vem diminuindo a cada ano, muitos daqueles que optam pela licenciatura almejam atuar apenas como professores universitários, evitando e rejeitando durante a graduação até mesmo as cadeiras de prática, essas que deveriam ser a força motriz na trajetória de qualquer licenciando. Se compararmos, por exemplo, o rendimento, as condições de trabalho e a carga horária dos professores do fundamental e médio com os dos professores universitários, constataremos facilmente uma enorme discrepância; de acordo com os dados do portal da transparência publicados em 2016, a diferença salarial entre eles pode chegar a 87% em alguns estados e se levarmos em consideração o fato de que a maior parte dos professores do ensino básico são contratados, ou seja, ganham um piso inferior ao determinado pela lei, a situação fica ainda pior.

Objetivando angariar recursos, boa parte desses cursos acabam cedendo a essa lógica e na maioria das vezes priorizam os alunos que rapidamente se adaptam ao ritmo de produção imposto pelos sistemas de qualificação. Com isso, somos engolidos por pesquisas que soam muito mais como paráfrases, grande parte delas construídas sem a mínima preocupação com as problemáticas e com as necessidades históricas dos agentes que estão imersos na rotina escolar. Ao apontar essas questões, claro, não quero dizer que pesquisas puramente teóricas devam ser descartadas ou que todas elas precisem dialogar com vivências mais concretas, só penso que essa sobreposição não é saudável, ou seja, ambas precisam receber o mesmo grau de investimento e devem ter o mesmo valor cultural enquanto área do saber, e isso, sejamos sinceros, não vem acontecendo.

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O segundo ponto que pretendo levantar é o quanto a academia desgasta e afeta a nossa saúde. A pressão psicológica dentro desse espaço é assustadora, os casos de depressão e ansiedade crescem todos os dias. Existe uma rede bem sólida que determina não só o que pode ser dito, como também quem pode dizer. Essa rede é sustentada pelo sistema de titulação, que com suas enormes garras, determina e hierarquiza as vozes, silenciando aqueles que ainda não conquistaram uma vaga no olimpo. Sei que muita gente condena a meritocracia, percebendo o quanto ela pode ser injusta e segregadora, mas é a sua manifestação mais perversa que permite a manutenção dos privilégios que giram em torno de alguns papéis sociais.  Aqueles que publicam e ocupam os editoriais das revistas estão sempre no topo da cadeia alimentar, não importa muito o tipo de abordagem e a qualidade daquilo que apresentam na sala de aula.

Arte de Davide Bonazzi

O terceiro e último tópico aponta especificamente para os eventos acadêmicos, que deveriam simbolizar não só o espaço onde ocorre a troca de saberes entre os nossos pares, mas um canal concreto de comunicação horizontal e criativa com a sociedade.  A verdade é que gasta-se mais grana tentando trazer pensadores e teóricos da Europa, do que criando estratégias para o ingresso e participação da vizinhança. A elitização e a vaidade, nossas piores sombras, nos impedem até mesmo de perceber, por exemplo, que precisamos parar, ouvir e aprender com essas pessoas.

Se o congresso é sobre o comércio local, que nele esteja o doutor que estudou e tem uma visão teórico-crítica sobre os avanços e problemas, mas que também esteja a microempreendedora, a vendedora da esquina, ensinando e percebendo o quanto as nossas análises são precisas ou refletem aspectos que não dialogam com a sua realidade. Já escutei coisas como, mas a linguagem é diferente, não é possível misturar todo mundo. Se a linguagem é diferente, que ela seja repensada, é esse o nosso papel, fazer com que ela inclua cada vez mais pessoas e não o contrário. Afinal, quantos fóruns voltados apenas para estudantes, mestres e doutores existem? e quantos são pensados na tentativa de promover essa integração?  Não estariam os grupos sociais sendo vistos apenas como fonte de pesquisa?

Como podemos, por exemplo, pensar sobre as problemáticas da escola, se nesses mesmos congressos não estão representadas as merendeiras, as professoras do ensino infantil, os porteiros e as coordenadoras? Será que aquele congresso sobre orientação sexual e identidade de gênero não ganha mais trazendo as lésbicas, as travestis e os gays que estejam atuando, criando, produzindo e/ou sofrendo violências no seu entorno?  Será que as nossas pesquisas de campo promovem, de fato, o contato com a realidade dessas pessoas? Ou será que grande parte delas refletem apenas o olhar distante daquele pesquisador comprometido apenas com as políticas de qualificação?

Todas essas perguntas, claro, não buscam condenar aquilo que já vem sendo executado e nem diminuir o valor das produções em andamento, mas sim de apontar o quanto essa lógica limita o nosso olhar.

Esse raciocínio cristalizado nos impede de interagir com honestidade não só com as questões que nos inquietam, mas com as próprias pessoas. O distanciamento é tão grande que nos tornamos cada vez mais incapazes de dialogar com a população. Quando nos fechamos dessa forma, outras instituições, como as igrejas medievais e os políticos reacionários, ocupam esse espaço e conseguem, em nome de um projeto de sociedade perigoso, estabelecer vínculos com muito mais facilidade que nós.

A ideia é mesmo promover uma reflexão coletiva sobre o tipo de conhecimento que estamos produzindo e principalmente para quem se destina esse conhecimento. É fundamental que sejamos capazes de criar as condições institucionais e didático-pedagógicas que são tão importantes para a construção de um mundo menos desigual, o que significa fazer com que o maior número de pessoas possa progredir intelectualmente a partir do acesso e da troca de ideias. Não fazendo isso, corremos o risco de continuar pensando sobre o mundo, mas atuando, cada vez mais, como partes desconectadas dele.

 

 

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Raphael é professor, formado em Ciências Econômicas, Letras e atualmente se dedica ao mestrado em Educação. Escreve sobre música, comportamento e cinema. É apaixonado por Twin Peaks, playlists e quase sempre pelos amigos. Publica mensalmente dia 9, save the date | Para segui-lo no Twitter: @RaphaelAlves

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