CONSCIÊNCIA COLETIVA

Oito verdades em “All I Really Want” de Alanis Morissette

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All I Really Want é a música de Alanis Morissette que abre o seu mais famoso disco, Jagged Little Pill. Se você apertar o play e ficar bem atento ao que diz a letra, vai perceber o quanto ela é profética. Selecionei alguns versos, na tentativa de mostrar o quanto teríamos evoluído, se tivéssemos dado mais atenção ao que escrevia a canadense.

1 –  Alanis, logo no início da música canta: I don’t want to dissect everything today, algo como Eu não quero analisar tudo hoje. Rolou alguma identificação? – Claro que sim. Analisar tudo virou uma constante, estamos analisando até mesmo o fato de analisarmos. A prisão retórica é real e não existe, parece que estamos imersos em um labirinto sem saída.

2 – Em seguida ela joga uma bomba:

I don’t mean to pick you apart, you see
But I can’t help it

Eu não pretendo procurar defeitos em você, você vê,
mas eu não posso evitar

E não é isso que estamos o tempo todo fazendo? Procurando defeitos nas pessoas para abandoná-las na primeira oportunidade? – É sim, e acredito que isso é um reflexo daquela nossa velha mania de acreditar que algo melhor está sempre à nossa espera.

3 – Agora uma estrofe inteira, parece um tiro de bazuca:

And all I really want is some patience
A way to calm the angry voice
And all I really want is deliverance

E tudo o que eu realmente quero é um pouco de paciência
Uma maneira de acalmar a voz furiosa
E tudo o que eu realmente quero é libertação

Sim, falta paciência, tudo é muito rápido e passageiro, essa voz interior sufoca a rotina, os sonhos e até mesmo as experiências sexuais, libertá-la é um ato necessário.

Capa Oficial do single

4 – As granadas não param:

I’m consumed by the chill of solitary

Estou consumida pelo desânimo da solidão

Não adianta, são milhares de aplicativos e chats, bilhões de conexões possíveis, mas o vazio continua lá, apesar dos filtros coloridos, das reações programadas e do barulho.

5 – Agora vamos falar sobre esse mundo estranho e violento em que vivemos:

And I am frightened by the corrupted ways of this land

E eu estou amedrontada com os caminhos corruptos dessa terra

Tem como ser mais certeira? Nem precisa de legenda.

6 – And what I wouldn’t give to find a soulmate
Someone else to catch this drift

O que eu não daria para encontrar uma alma gêmea
Outra pessoa para aguentar essa barra

Não precisa ser necessariamente um namorado, não precisa mesmo, mas por onde andam as almas que aguentam o tranco? Os amigos que largam tudo e correm para nos socorrer?

7 – A música ganha status de hino quando diz:

Enough about me
Let’s talk about you for a minute
Enough about you
Let’s talk about life for a while
The conflicts, the craziness
And the sound of pretenses falling
All around, all around

Chega de mim, vamos falar de você por um minuto
Chega de você,
vamos falar da vida por um momento
Os conflitos, a loucura
e o som das pretensões caindo
por todos os lados, por todos os lados

Alanis aqui nos ensina que devemos silenciar por alguns minutos o egocentrismo, afinal, o mundo não gira exclusivamente em torno dos nossos problemas. É hora de falar sobre o mundo, sobre os conflitos e sobre a loucura ainda tão presente. Se você silenciar um pouco o ego, talvez perceba os sonhos das pessoas mais próximas caindo, em processo de esmagamento.

8 – A profecia termina com um pedido de socorro

And all I really want is some comfort
A way to get my hands untied

E tudo o que eu realmente quero é um pouco de conforto
Uma maneira de ter minhas mãos desatadas

No Spotify

Alanis escreveu essa música em 1995 e é assustador como suas palavras continuam relevantes. O que mais me impressiona é que ela canta como se estivesse desatando um nó, expurgando um vírus. Existe não só uma sensação de inquietação, mas um sentimento de revolta que é mobilizado a partir da sua voz.

If only I could hunt the Hunter
Se ao menos eu pudesse caçar o caçador.

Percebe-se claramente que Alanis identificou o seu maior inimigo e que estava disposta a caçá-lo, mesmo sabendo que ele morava dentro dela e se alimentava dos seus medos. Se a humanidade é perversa, violenta, carente e vaidosa, é porque continuamos sendo o nosso principal inimigo, mudar a realidade significa despir grande parte  dessa fantasia predatória;  é ela que nos impede de tratar o que realmente importa.

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Raphael é professor, formado em Ciências Econômicas, Letras e atualmente se dedica ao mestrado em Educação. Escreve sobre música, comportamento e cinema. É apaixonado por Twin Peaks, playlists e quase sempre pelos amigos. Publica mensalmente dia 9, save the date | Para segui-lo no Twitter: @RaphaelAlves

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