CONSCIÊNCIA COLETIVA

O machismo diário dos meus amigos gays

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Há algum tempo tenho observado com mais atenção alguns comentários que ouço dos meus amigos gays. Independentemente de qual grupo eles se inserem financeiramente ou comportamentalmente – os gays “padrãozinho”, os “desconstruídos”, os “ursinhos”, os “bicha MPB” ou os “Drag Race” -, e é importante mencionar esta “segmentação” por sabermos que certos grupos acabam sendo preteridos e tão agredidos quanto nós, mulheres, pelo machismo. Dito isto, percebi, inclusive reavaliando alguns episódios passados, que todos os meus amigos gays, sem exceção, já emitiram a mim comentários machistas sobre como eu, como mulher, deveria ser ou estar. Explico meu incômodo e desconforto em relação a isto.

Um homem héterossexual, cis, padrãozinho ou alterninha-desconstruidão, exalar o machismo dele na tua cara é uma coisa. É o esperado, por assim dizer. O que esperar de indivíduos que são educados para serem os “dominadores”, os “alfa”?  Outra, bem diferente, é ver seus amigos gays que durante sua formação pessoal e conquista de espaço social precisam se legitimar  “apesar de”, como diria Clarice. Porque ser gay, para muitas pessoas, ainda hoje, pode ser sinônimo de vários estereótipos já conhecidos por todos nós. Eu como mulher ou ouvindo relatos dos meus amigos gays, você – amigo gay- que vivencia as  agressões na pele, sabemos o quão difícil é crescer sendo cerceado pelo machismo. Por isto meu incômodo e desconforto quando nós, mulher héterossexual amiga de gays e amigos gays, protagonizamos nós com nós mesmos alguns episódios machistas.

De tanto ruminar, nos meus momentos de dolce far niente,  os episódios de machismo co-protagonizados com meus amigos, cheguei a várias hipóteses das quais, numa tentativa de ter um pouco de empatia com eles – afinal somos amigos e alguns esforços às vezes são necessários, apesar de me sentir mais uma vez na vida sendo cerceada e colocada numa posição de seguir a cartilha de macho. Enfim, de tanto ruminar elegi os cinco momentos nos quais meus amigos gays se assemelharam mais com os macho hétero que eles tanto detestam por terem tido comportamentos típicos desses mesmos machozzy hétero preconceituoso.

E vou dizer que olhando a lista que fiz, eu entendo alguns comentários, sabe? É aqui que entra aquele exercício difícil de ter empatia pós episódio desconfortável que te remete à agressões sofridas graças ao machismo. Graças a Clarice eu aprendi o “apesar de” e uso bastante pra ponderar as coisas. O fato é que todos os meus amigos gays foram criados como meninos, sabe? Com todas aquelas definições e delimitações do que é ser um menino, de brinquedo e cor pra menino. O que menino pode ou não pode pra ser macho. E aí o machismo também faz muitos de vocês sofrerem por não serem a ideia de macho, de homem, que o machismo quer estabelecer. Em outras palavras, todos os homens são criados para ocuparem o mesmo lugar, né? A diferença é que no percurso vocês, amigos, precisam mostrar uma outra forma de ser homem, isto sem ser aquele homem.  Segura esse  rolê!

Então, queridos, quando você emite enunciados como “Se eu fosse tu, com este corpo… ah, meu amor! Mulher tem que ter cabelão, fazer um make babado, chegar fechando. Usa um salto! Bota essa raba pra jogo! Usa umas sainhas curtas, mostra essas perna!”, você tá de certa forma dizendo, de uma posição masculina, que ser mulher é ser isto. E não é, concordam? Quer dizer que toda mulher que não cabe nesta configuração não é mulher? ou é menos mulher que as que são? Toda mulher nasce, cresce, desenvolve sua imagem sendo cobrada a ser de X maneira, a vestir X roupa, a ir a X lugares. É a própria ideia do que é feminino, não acham?

Outros textos são bem desconfortáveis quanto essa delimitação do “ser mulher”.

A gente, compartilhando algumas coisas da nossa vida afetiva, sentimental, sexual qui ça, escuta muito o “Dá pra ele!” ou “Se eu tivesse uma bct, meu amor, ia tirar tudo dele. Pra me comer ia ter que me bancar de tudo, me dar tudo que eu quisesse!”. Eu entendo que em alguns contextos seja algo “encorajador”, saca? Mas eu gostaria de lembrar que toda mulher também se desenvolve tendo sua sexualidade tratada como tabu. Se “dá a todo mundo” é rotulada de puta, se “não dá a ninguém” é frígida, santinha, cu doce. É uma dicotomia difícil de administrar, confiem no que digo. Carregar consigo a bct não é assim tão simples. A gente tá todo tempo, por mais em desconstrução que se esteja, ponderando algumas coisas.

Ainda no quesito sexualidade, sexo, afetividade, temos mais duas frases que aparentemente não são lá grande coisa, comentário bobo, mas que refletem um machismozinho horroroso. Temos a “Linda ela, né?? Me paga uma cerveja e fica com ela!”. Sim, queridx, existem muitos gays que acreditam que isto não é nada demais. Ué! A amiga tá lá com o boy, curtindo, o que é que vou ficar fazendo nesse meio tempo? – eles pensam – paga uma cerveja pra mim já que tá com minha amiga, né? Simples. Eu gostaria de dizer, amigos, que talvez, só talvez, você esteja usando sua amiga como moeda de troca, afinal cerveja se paga com dinheiro ou se adquire coisas por meio de troca de OBJETOS. Talvez sua amiga não se sinta confortável nessa posição de ser usada como moeda, talvez ela se sinta objetificada, saca? Só talvez. Agir assim, objetificando mulher, é ser aquele boy machistão que agride gay porque “viado não é homem! tem que ser macho!”, saca?

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Por fim uma que reflete uma brodagem, sabe? Aquele sentimento que homem desenvolve em relação ao outro e que externa ao passar pano quente em atitude escrota do brother? Sim, existem amigos gays que passam pano pra ex-cuzão teu. Dá pra acreditar?! São textos como “Teu ex-boy, aquele que tu diz que foi escroto contigo, tá um GOSTOSO! CHEIO de mulher!” ou então “Ah, mulher, foi escroto? Foi. Bobagem tua não dar mais nem uns beijinhos só por dar, nada demais. Já sabe como ele é, né? Só não se apega. Usa ele!”.  Fico até mal de comentar por me sentir meio chocada com o tópico. Quer dizer que o boy pode ser escroto com a amiga, tratar como objeto e outras coisas, as vezes rolar até uma relação abusiva – com ou sem agressão física-, e “ah, tá um gostoso?” porque você tá só falando sobre o corpo dele? “Fica com ele de novo,usa ele!” porque é de boa, né? É só físico, o boy tem pontos positivos… Percebem a brodagem? Aquela que o amigo não fala mal do outro, que não intervém em situações nas quais a mulher é agredida? É, amigos, difícil…

Eu realmente não acredito que eu não vá mais ouvir ou vivenciar situações como as que citei, nem acho que meus amigos realmente percebam o machismo deles nelas. Inclusive tenho certeza que a maioria  deles com quem já discuti isso deve ter pensado que “af, lá vem Luíza dar textão! Arruma treta por tudo”. Pois é,amigos. Assim como alguns podem não ver o machismo aí, eu não vejo, no meu “textão” a treta, vejo uma tentativa de mostrar algo que na posição de privilégio de homem que a maioria cresce e se desenvolve, mesmo sendo gays. Vamos exercitar nossa empatia.

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Luíza é graduada em Letras pela UFPE, estudante de Direito na UNINASSAU. Escreve sobre a vida cotidiana e as relações interpessoais, e de vez em quando sobre cinema. É curiosa e adora observar as pessoas, seus discursos e suas práticas. Publica mensalmente no dia 12, save the date | Para segui-la no Instagram: @madluiza

2 Comments

  1. Absurda de necessária essa reflexão, já vi coisas assim acontecerem e fico estarrecida como é naturalizado. Compartilhado!

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