CONSCIÊNCIA COLETIVA

Aos amigos seguidores e aos seguidores amigos

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Esses dias, entre uma aula e outra na universidade, dividindo aquele espaço com pessoas entre 17 e 40 anos,  me peguei pensando  e sobre as relações de amizade que estabelecemos hoje – acho que era numa aula de filosofia, e eu sempre acabo pensando sobre mil coisas durante ela. Fiquei ruminando o tema por ver que ali na turma, pessoas que se conheceram há quase quatro meses já são melhores amigos inseparáveis. Só que por ver esse fenômeno rolando com os mais novos, os millennials, achei que fosse coisa deles, sabe? Aquele fervor e instantaneidade todo da geração que depois deságua num distanciamento igualmente rápido. Mas até lá é uma surra de selfies, likes, comentários e etc.

O fato que é que hoje temos e somos mais seguidores do que amigos. Quantos amigos, não seguidores, teus você encontra e conversa com frequência? – por rede social ou não. Poucas são as pessoas que encontram, em suas agendas apertadas, tempo pra mandar um “e aí, como estas?”. Ou que perguntam pelo teu dia, que compartilham e permitem que você compartilhe coisas do seu dia a dia de maneira mais íntima? poucas. Eu mesma conto nos dedos. Sair ao encontro? Ir ver? Ter disposição ou tempo para passar algumas horas em uma mesa de bar, café, praça jogando conversa fora, dividindo aquelas coisinhas peculiares que rolam em família, falar da situação do país, dos ônibus lotados que se pega? Não dá, não há tempo.

Afinal, a vida tá muito corrida. Tem-se muitas coisas a fazer e entre uma correria e outra, os “amigos” acabam não tendo espaço. Ora, se de fato somos amigos, você há de compreender minha situação, meu momento. Você há de se dispor a esperar o dia em que eu vou ter dado conta de todas as outras coisas da minha lista de correrias e vou poder te procurar, mas nada de gastar muito tempo com isso não! É uma espécie de visita de médico, sabe? Eu tenho depois um evento, ou antes uma sessão estética, ou até uma caminhada na praia. Você, amigo, tem direito a uma breve visitinha. Coisa rápida. Rápido que nem aqueles stories teus que vejo e suponho que tá tudo bem na tua vida! Ué! Tenho te acompanhado de perto, tô ali dando like nas tuas fotos pra você saber que tenho visto, que tô contigo. Só não tenho mais tempo que isso, não pede muito, né? Seja compreensivo! Olha… não faz drama! Não se ressinta. A culpa é sempre da falta de tempo, da vida corrida que se leva – e precisa levar.

E isso eu nem discuto, né. É importante lembrar que todo mundo, eu disse TODO MUNDO, tem suas ocupações, sua correria. A sua correria não é maior que a dos outros, talvez suas prioridades sejam outras e seus “amigos” acabem não estando entre as primeiras coisas, as 10 primeiras, ou 100 primeiras. Talvez você não saiba administrar seu tempo, ou talvez seja e aqueles que você diz que são seus amigos tenham direito a uma porção pequena dele. São muitas coisas. Se nem mensagem via whatsapp a maioria tem tempo para mandar, imagine ter tempo de visitar uma “amigo”, mesmo que ele tenha passado por uma situação delicada como, por exemplo, um procedimento cirúrgico, a perda de um emprego, ou qualquer outra coisa que em outros tempos faria um amigo estar com o outro.

Exagero o meu? Absurdo das pessoas? Não, não.

Acreditem, acontece sim. Nessa dimensão, nesse grau. Acho até que seria pedir muito a pessoas que não costumam encontrar segundos no dia, no mês, para enviar uma mensagem de texto pros que chama de amigo, claro. Mais cômodo visualizar stories, dar like em foto e, em um golpe de sorte, deixar um comentário. É mais rápido e confortável ser seguidor. Seguidor que nem se é de gente famosa, de gente que a gente nunca topou na rua e só vê na tv, revistas ou na internet. Estamos acostumados a ser seguidores. Qualquer coisa a gente bloqueia, desassina o perfil! Se encontrar pessoalmente, muito ao acaso, claro, trocamos 20 minutos de conversa, lamentamos os acontecimentos ruins e pronto. Voltamos às nossas correrias, mas para todos os efeitos: somos amigos! Conta comigo para o que precisar, vamo até marcar de se ver, não esquece! Mas conta  mesmo comigo, real! Te dou meu like numa boa! Minha visualização também!

Depois de um tempo, de algumas observações, e de algumas vivências, percebi que é sempre positivo de alguma maneira. Vi que normalmente vai existir alguém que se desloca demais pelos outros, isto em nome da amizade, mas as pessoas nunca tem tempo bastante pra fazer o inverso. É isso que é positivo: é preciso saber e selecionar melhor o que te move, o que te faz entrar em deslocamento. Daí a gente encontra, no meio de tanta correria, quem são os amigos. Os que não são a gente retribui com o like, a visualização e cumpre nosso papel de seguidor fiel, como bem ilustra aquele episódio de Black Mirror. Porque é isto que somos hoje uns dos outros, seguidores de redes sociais. Acho até que talvez seja uma tendência, essa coisa toda dos millennial, culpa dessa demanda alta de trabalho, deve ser aquela coisa de alienação do trabalho que se fala nas aulas de sociologia… As pessoas acreditam que por te acompanhar nas redes sociais fazem parte da sua vida, que estão com você, que se fazem presentes, de modo indireto, por aquela visualização da postagem, pelo like dado.  Mas talvez não.

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Luíza é graduada em Letras pela UFPE, estudante de Direito na UNINASSAU. Escreve sobre a vida cotidiana e as relações interpessoais, e de vez em quando sobre cinema. É curiosa e adora observar as pessoas, seus discursos e suas práticas. Publica mensalmente no dia 12, save the date | Para segui-la no Instagram: @madluiza

2 Comments

  1. A qualidade dos textos de vocês é alta, deveriam ter mais audiência, as pessoas andam lendo coisas muito ruins e ter contato com discussões assim enriquece, meus parabéns.

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