CONSCIÊNCIA COLETIVA

Professora de Belo Horizonte faz colocações discriminatórias em relação ao Norte/Nordeste

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Um vídeo com a fala da professora de redação Flavia Rita, autora de alguns livros sobre interpretação de texto e gramática, ganhou destaque nas redes sociais por conter um discurso preconceituoso contra os professores(as) do norte/nordeste. 

No registro, que contém aproximadamente 2 minutos, ela tenta argumentar sobre a população analfabeta, com destaque para a questão do analfabetismo funcional.  Na tentativa de reforçar e confirmar o alto número de analfabetos no Brasil apontados pelas pesquisas, ela acaba desenhando de forma bastante superficial um raciocínio sobre o desconhecimento da plateia sobre a realidade, utilizando frases como : a gente vive em um país, onde a gente só esbarra em pessoas como a gente. Logo depois, a professora cita alguns dados recentes sobre o número de analfabetos no país e é nesse momento que a sua leitura fica ainda mais problemática. “Nós não subimos para o norte, nordeste, que nem os professores são alfabetizados totalmente.”

Confira o vídeo publicado recentemente em um canal do Youtube.

Com essa afirmação, Flavia reproduz um dos maiores problemas da educação escolar:  a leitura incompleta, descontextualizada e tendenciosa dos “fatos”. Além de falso, esse raciocínio é colocado em tom de verdade, usando ainda o poder econômico dos estados do sudeste como suporte para a conformação dessa trágica tese. Uma postura que faz com que os estigmas históricos e segregadores permaneça e revela uma falta de habilidade interpretativa preocupante.  Algo que fica ainda mais evidente a partir da sua justificativa, levantada em uma publicação divulgada no seu próprio portal, onde ela lamenta o ocorrido e diz : “Sou brasileira, tenho orgulho do meu país e nunca fiz colocações discriminatórias em relação a qualquer grupo social.” Flavia também revela no mesmo post que tem sido vítima de ataques violentos nas redes e que isso a afeta bastante. “Sou sensível, sou despreparada para lidar com a crueldade e com a incompreensão.”

Não estamos aqui para condená-la ou para corroborar com qualquer violência que a professora esteja sofrendo, essa não é resposta que daremos enquanto nordestinos. Só não podemos deixar de pontuar que, apesar da sua legitima indignação, a sua fala é sim bastante preconceituosa e categoricamente marcada pelo tom descriminatório.

Confira na íntegra o pedido de desculpas. 

Flavia utiliza dois links na sua publicação, na tentativa de revelar as bases/fontes do seu raciocínio, mas falha duplamente. O primeiro é sobre o aumento da taxa de analfabetismo no norte, dados trazidos pela Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) em 2015, e o segundo é uma matéria publicada pelo IG sobre o Censo Escolar 2009, que mostra a região Nordeste como aquela que possui o maior número de professores “leigos” no país. Entendam como “leigos” os professores que não possuem diploma de ensino superior ou formação de magistério e estão na sala de aula.

Nenhuma das publicações, como qualquer leitor facilmente percebe, deve ser utilizada como justificativa para afirmações como : “Nós não subimos para o norte, nordeste, que nem os professores são alfabetizados totalmente.” A construção de qualquer argumento não é marcado só pelo “conteúdo palpável”, como ela afirma no seu pedido de desculpas, mas também pela capacidade de situar qualquer dado ou pesquisa dentro de um contexto sócio-político. Como boa professora que é, temos certeza que Flavia identificou o problema da sua fala, já que a linguagem é o seu objeto de estudo.

Todos os casos de preconceito e discriminação possuem – em essência –  essa característica: são reflexos de uma visão incompleta, não aprofundada ou explicitamente desconhecida sobre o outro. Como professores nas escolas e educadores na vida, temos que evitar qualquer reducionismo, o nosso compromisso é com a expensão das ideais e com a complexidade do mundo.

“A gente não saiu do nosso mundo.” Diz Flavia, que estará em breve no Recife.

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Raphael é professor, formado em Ciências Econômicas, Letras e atualmente se dedica ao mestrado em Educação. Escreve sobre música, comportamento e cinema. É apaixonado por Twin Peaks, playlists e quase sempre pelos amigos. Publica mensalmente dia 9, save the date | Para segui-lo no Twitter: @RaphaelAlves

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