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O que achamos: Blade Runner (2017)

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Review

Nota de Djalma
7.5/10
Média
7.5/10

O ano era 1982, e depois de muitas idas e vindas, foi lançado nos cinemas o Final Cut de Blade Runner, dirigido por Ridley Scott – com um roteiro adaptado do livro de Phillip K. Dick, “Androides Sonham Com Ovelhas Elétricas?” (veja nosso review aqui). O cenário do filme era essencialmente pós-apocalíptica, se nós considerarmos o apocalipse como sendo o boom tecnológico que iria acontecer a partir dos anos 2000, e o quanto as relações interpessoais seriam esquecidas, com o propósito de aumentar e fomentar a produção e o consumo de serviços e bens tecnológicos – como androides, em todas as suas funcionalidades.

Apesar de um roteiro excelente, propositalmente não-linear e cativante que trouxe uma nova cara – e novas ideias – ao gênero da ficção científica, o que realmente marcou aquele filme foi a sua estética; podemos ver reprodução de alguns elementos em vários filmes que vieram depois dele, e até mesmo videoclipes (por favor, quem não se lembra de Spice Up Your Life?), denotando o marco histórico que Blade Runner realizou no cinema estadunidense. É importante salientar que toda essa importância e pompa só aconteceu com o passar dos anos, pois em 1982 ele teve uma bilheteria fraquíssima, especialmente para o custo da produção.

Tendo isso em mente, chegamos hoje ao lançamento de uma continuação (!) do filme – Blade Runner 2049, que acontece 30 anos depois do primeiro filme. Ryan Gosling interpreta K, um blade runner (caçador de replicantes – androides) de uma linhagem mais nova, que obedece à sua chefe, a tenente Joshi (Robin Wright) cegamente, até perceber que talvez se continuar a fazer isso ele mesmo possa sofrer. Descobre-se que uma Replicante antiga (no caso, Rachael – vivida pela Sean Young) havia ficado grávida, e dado à luz a uma criança – algo que era inimaginável para androides. Isso faz com que Joshi queira destruir esse fruto, enquanto Niander Wallace (Jared Leto) o dono da nova empresa fabricante de replicantes, Wallace, quer ter essa criatura em suas mãos, a fim de descobrir como fazer com que Replicantes possam procriar, e o fará com a ajuda de uma leal escudeira Luv (Sylvia Hoeks).

Esse é o enredo principal do filme, que acaba por se desviar por outros: temos um caso de amor entre K e Joi (Ana de Armas), uma mulher holográfica fabricada através de inteligência artificial, feita apenas para servir. Temos também a história por trás de K, que fica razoavelmente encoberta durante grande parte do filme, e a volta de Rick Deckard (Harrison Ford), o blade runner principal do filme anterior. Até agora tentei falar sobre o filme como um todo sem spoilers, e acredito que seja melhor assim – isso pode salvar a experiência do filme, já que enquanto filme sci-fi neo-noir, ele deixa um pouco a desejar.

É importante salientar que o trabalho do Villeneuve é excelente, e ele deixa alguns elementos de direção bastante característicos (especialmente para que assistiu ao aclamado A Chegada, do final do ano passado): planos abertos, cenários paisagísticos, paletas de cores extremamente concisas e peculiares em cada frame. A trilha sonora, apesar de um tanto irritante em alguns momentos (o que eu quero acreditar ter sido proposital), foi também essencial para dar ao filme um tom de mistério até o seu final – e os efeitos especiais foram extremamente bem executados (uma atenção especial deve ser dada à cena de amor entre K e sua esposa Joi, realizada com a ajuda de Mariette, vivida por Mackenzie Davis).

Niander Wallace

O roteiro também não é exatamente insatisfatório – especialmente se você procura por um filme de ação e mistério sci-fi; de certa forma, ele consegue dialogar com várias temáticas abordadas no primeiro filme, como o questionamento das relações interpessoais, da memória, do amor…mas ele não entra a fundo, como no primeiro. Isso porque ele também precisava focar no mistério desenrolado durante todo o filme, além de trazer momentos chocantes de descobertas para a plateia; e talvez aí venha a grande diferença entre Blade Runner e Blade Runner 2049: a necessidade de agradar ao público.

Isso é observado no roteiro, com plot twists, surpresas, momentos de tensão, ação, explosões – mas também nas escolhas do elenco. Ryan Gosling é o queridinho do momento – e ainda que seu trabalho em Drive desse a ele créditos para ser bem-sucedido como o protagonista deste filme, ele não consegue atingir o que é necessário. Por vezes, o que sobra nele em carisma, falta em atuação – especialmente nos momentos onde as emoções são trocadas através de outros meios, e não somente a voz e o script em si. Mackenzie Davis, também amada por todos desde seu trabalho em San Junipero, também não conseguiu chegar a um patamar onde sua presença, ainda que pequena, pudesse ser lembrada no filme. Por fim, temos Jared Leto como um vilão razoavelmente caricato, cheio de monólogos existenciais nos quais ele não consegue imprimir verdades.

Uma grata surpresa foi a alemã Sylvia Hoeks no papel de Luv, que conseguiu trazer profundidade à sua personagem em todas as suas cenas: apesar de ser extremamente durona e focada, ela apresentava no olhar emoções diversas, diante daquilo que acontecesse no momento. Harrison Ford tentou replicar o que fez no primeiro, mas sem sucesso – enquanto de Ana de Armas acabou tornando sua personagem Joi, durante o filme, alguém humano, por incrível que isso possa parecer.

No fim de tudo, o que me pareceu foi que tentaram usar a fórmula do primeiro filme para fazer esta continuação: é perceptível o quanto a maioria dos personagens tem sua base principal nos personagens do primeiro filme, e por isso é tão complicado não tecer quaisquer comparações. Quando assistimos Blade Runner, especialmente pela primeira vez, a tensão de saber como são aqueles personagens e o que acontecerá com eles faz do filme uma experiência assustadoramente divertida, porque devido à sua falta de linearidade estamos sempre tentando entender o que se passa, e mesmo quando não entendemos, estamos maravilhados com as nuances humanas (e desumanas) daquela história.

Em Blade Runner 2049, tudo é razoavelmente previsível – porque as surpresas que o filme traz são essencialmente clichês, já que o próprio roteiro em si se baseia nisso pra prender o espectador. E o que, ao meu ver, é o trunfo do primeiro acaba perdido em frases de efeito neste segundo: o entendimento de que, no mundo em que vivemos, se relacionar com os outros é cada vez mais difícil, mas mais difícil ainda é conseguir entender-se e relacionar-se consigo mesmo, já que estamos sempre tentando achar estratégias de fuga de nós mesmos. Senti falta disso no filme inteiro, e sinceramente acho que não havia necessidade de termos uma sequência; um Blade Runner já serviu de pano pra manga pra muita coisa.

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Professor de inglês e problematizador 24h por dia, ainda tem um pezinho na insegurança que insiste em lhe rodear. Já foi fã de Xuxa, de Sandy e Júnior e de Britney Spears – hoje se acha muito cult por ser fã de Rachel Bloom. É o que tem pra hoje, né?

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