CONSCIÊNCIA COLETIVA

A carência é uma viagem alucinógena repleta de efeitos colaterais

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Muitas mazelas sociais e psicológicas nos assombram hoje em dia, mas nenhuma vem se tornando mais poderosa que a carência. Essa maldição da qual ninguém escapa está tão presente, que não causa espanto o número de amigos que estão nadando nos consultórios, imersos em terapias das mais absurdas.

A carência é perigosa principalmente porque ela funciona como um gatilho e geralmente é o recurso que encontramos para potencializar todos os nossos medos. Através dela estamos em busca não só da aprovação do outro, como também mascaramos uma tonelada de verdades. Ultimamente venho trocando bastante ideia sobre isso com alguns amigos e todos estão bem frustrados com a conjuntura atual, principalmente no que diz respeito às relações amorosas.

Para piorar, somos parte de uma geração que sempre teve medo de colocar para fora os medos e as neuroses que cotidianamente nos assombram.  Pode não parecer, mas toda pessoa carente atravessa fortes ciclos de motivação, mas infelizmente está sempre disposta a perseguir os modelos ideais, a perfeição que, infelizmente, nunca existirá. Não é à toa que as pessoas relatam com frequência a rápida quebra de expectativa assim que retornam de um novo encontro. Não existe tempo hábil para conhecer a outra pessoa, a decepção não é o resultado de uma experiência concreta e sim do contato com algo que está longe das projeções que povoam o nosso inconsciente.

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As redes sociais hoje fomentam e potencializam esse imaginário do inalcançável, afinal, elas priorizam as pessoas populares, aquelas que estão dentro de um padrão de beleza e que parecem muito felizes. Então, quando no auge da carência, um encontro entra na agenda, a nossa cabeça logo passa a comparar a pessoa que está na nossa frente com toda aquela infinidade de possibilidades. A prática do descarte – violentamente – entra em ação. Antes disso, se a carência sexual estiver em alta, paga-se um pernoite no motel e em seguida desliga-se por completo o recente canal de contato; nada de responder mensagens.

Quando a carência atinge níveis escatológicos, nem o ciclo de amizades escapa. É grande o número de pessoas que se assediam temporariamente em busca de atenção, vínculos geralmente frágeis e sustentados por egoísmo. Quantas pessoas conversam com você apenas quando não estão se sentindo bem? E quantas delas realmente te acompanham quando você está passando por problemas?

É importante também perceber que nem sempre somos as principais vítimas desse sistema, o papel de predador também nos cabe.

Viver talvez implique na aceitação das nossas carências afetivas, o que significa que não devemos abrir mão das nossas buscas, mas é preciso estabelecer uma relação minimamente saudável com elas. É fundamental, em primeiro lugar, exercitar a paciência, se mostrar à disposição, sentir o outro, tatear. No segundo momento, ser capaz de identificar as poderosas ilusões que ela cria, evitando abraços prematuros ou desligamentos tardios. O dramaturgo norueguês Henrik Johan dizia que a felicidade é uma estação intermediária entre a carência e o excesso. Está na hora de mudarmos o percurso do trem. Nos encontramos lá.

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Raphael é professor, formado em Ciências Econômicas, Letras e atualmente se dedica ao mestrado em Educação. Escreve sobre música, comportamento e cinema. É apaixonado por Twin Peaks, playlists e quase sempre pelos amigos. Publica mensalmente dia 9, save the date | Para segui-lo no Twitter: @RaphaelAlves

1 Comment

  1. Excelente reflexão e uma porrada grande em mim mesmo. Sinto que sou muito carente e utilizo isso pra sair usando e descartando as pessoas.

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